CANÇÕES


EDIÇÃO, PARÁFRASE, TRADUÇÃO CHINESA E COMENTÁRIO (TRABALHO EM CURSO)

编辑、改写、中文翻译和评论(进行中)

CANÇÃO IX

Junto d' hum sêcco, duro, esteril monte


Primeira publicação:

Texto adotado:

LUÍS DE CAMÕES

(HÁ c. 470 anos)

ORIGINAL

Canção IX

Junto d' hum sêcco, duro, esteril monte,

Inutil e despido, calvo e informe,

Da natureza em tudo aborrecido;

Onde nem ave vôa, ou fera dorme,

 5           Nem corre claro rio, ou ferve fonte,

Nem verde ramo faz doce ruido;

Cujo nome, do vulgo introduzido,

He Feliz, por antiphrasi infelice;

O qual a natureza

10                         Situou junto á parte,

Aonde hum braço d’alto mar reparte

A Abassia da Arabica aspereza,

Em que fundada ja foi Berenice,

Ficando á parte, donde

15          O sol, que nella ferve, se lh' esconde;


O cabo se descobre, com que a costa

Africana, que do Austro vem correndo,

Limite faz, Arómata chamado:

Arómata outro tempo; que volvendo

20          A roda, a ruda lingua mal composta

Dos proprios outro nome lhe têe dado.

Aqui, no mar, que quer apressurado

Entrar por a garganta deste braço,

Me trouxe hum tempo e teve

25                         Minha fera ventura.

Aqui nesta remota, áspera e dura

Parte do mundo, quiz que a vida breve

Tambem de si deixasse hum breve espaço;

Porque ficasse a vida

30          Por o mundo em pedaços repartida.


Aqui me achei gastando huns tristes dias,

Tristes, forçados, máos e solitarios,

De trabalho, de dôr, e d' ira cheios:

Não tendo tãosómente por contrários

35          A vida, o sol ardente, as águas frias,

Os ares grossos, férvidos e feios,

Mas os meus pensamentos, que são meios

Para enganar a propria natureza,

Tambem vi contra mi;

40                         Trazendo-me á memoria

Alguma ja passada e breve gloria,

Qu’eu ja no mundo vi, quando vivi;

Por me dobrar dos males a aspereza,

Por mostrar-me que havia

45          No mundo muitas horas d'alegria.


Aqui ‘stive eu com estes pensamentos

Gastando tempo e vida; os quaes tão alto

Me subião nas azas, que cahia

(Oh vêde se seria leve o salto!)

50          De sonhados e vãos contentamentos

Em desesperação de vêr hum dia.

O imaginar aqui se convertia

Em improvisos choros e em suspiros,

Que rompião os ares.

55                         Aqui a alma captiva,

Chagada toda, estava em carne viva,

De dôres rodeada e de pezares,

Desamparada e descoberta aos tiros

Da soberba Fortuna;

60          Soberba, inexoravel e importuna.


Não tinha parte donde se deitasse.

Nem esperança alguma, onde a cabeça

Hum pouco reclinasse, por descanso:

Tudo dôr lhe era e causa que padeça,

65          Mas que pereça não; porque passasse

O que quiz o destino nunca manso.

Oh qu’este irado mar gemendo amanso!

Estes ventos, da voz importunados,

Parece que se enfreião:

70                        Somente o Ceo severo,

As estrellas e o fado sempre fero,

Com meu perpétuo damno se recreião;

Mostrando-se potentes e indignados

Contra hum corpo terreno,

75          Bicho da terra vil e tão pequeno.


Se de tantos trabalhos só tirasse

Saber inda por certo que algum’hora

Lembrava a huns claros olhos que ja vi;

E s’esta triste voz, rompendo fora,

80          As orelhas angelicas tocasse

Daquella em cuja vista ja vivi;

A qual, tornando hum pouco sôbre si,

Revolvendo na mente pressurosa

Os tempos ja passados

85                         De meus doces errores,

De meus suaves males e furores

Por ella padecidos e buscados,

E (pôsto que ja tarde) piedosa,

Hum pouco lhe pezasse,

90          E lá entre si por dura se julgasse:


Isto só que soubesse me seria

Descanso para a vida que me fica;

Com isto affagaria o soffrimento.

Ah Senhora! Ah Senhora!

95          E que tão rica Estais,

que cá tão longe d’alegria

Me sustentais com doce fingimento!

Logo que vos figura o pensamento,

Foge todo o trabalho e toda a pena.

100                       Só com vossas lembranças

Me acho seguro e forte

Contra o rosto feroz da fera morte;

E logo se me juntão esperanças

Com que, a fronte tornada mais serena,

105                       Torno os tormentos graves

Em saudades brandas e suaves.


Aqui com ellas fico perguntando

Aos ventos amorosos, que respirão

Da parte donde estais, por vós Senhora;

110        As aves qu'alli voão, se vos virão,

Que fazieis, qu' estaveis praticando;

Onde, como, com quem, que dia e que hora.

Alli a vida cansada se melhora.

Toma espiritos novos, com que vença

115                       A fortuna e trabalho,

Só por tornar a vêr-vos,

Só por ir a servir-vos e querer-vos.

Diz-me o tempo que a tudo dará talho:

Mas o desejo ardente, que detença

120                       Nunca soffreo, sem tento

Me abre as chagas de novo ao soffrimento.


Assi vivo; e s' alguem te perguntasse,

Canção, porque não mouro;

Podes-lhe responder; que porque mouro.

FELIPE DE SAAVEDRA

(2025)

PARÁFRASE

Canção IX

Foi aos pés de um monte árido, rijo e infecundo, nu e vão, disforme e escalvado, odiado pela natureza e onde nem aves nem animais habitam, nem existem límpidos rios ou vivas fontes, nem galhos que sussurrem com o vento, cujo nome é Monte Félix por antífrase de Monte Infeliz: e que a natureza colocou onde um braço do oceano separa a Abissínia desse mar Vermelho onde em tempos foi fundada a cidade de Berenice, na parte onde o incandescente sol se esconde (parte ocidental da ponta extrema do Corno de África).


E onde se inicia, para Sudeste, o cabo em que termina a costa africana vinda do Sul, chamado Cabo dos Aromas; mas dos Aromas na Antiguidade, que com o tempo a língua áspera dos nativos lhe deu outro nome (Cabo Guardafu). 

Até aqui me trouxe o mar impetuoso, que entra pelo estreito entre o cabo Guardafu e o arquipélago de Socotorá, e um destino inclemente reteve-me.

Aqui nesta zona do mundo tão distante, hostil e adversa, quis o Fado que da minha breve vida ali deixasse também breve pedaço. Para que ela fosse repartida pelas várias partes do mundo.


Aqui me encontrei consumindo dias infelizes. Infelizes, forçosos, funestos e sós, plenos de aflição, de mágoa, e de raiva: eram meus inimigos não só a vida, o sol candente, as águas geladas, os ares insalubre, húmidos e pesados, mas também os meus pensamentos, com que poderia me evadir da realidade, viraram-se igualmente contra mim.

Avivando-me a memória os dias mais felizes, embora fugazes, que outrora passei.

Para me duplicar a severidade dos sofrimentos, mostrando-me que também existem no mundo muitas horas felizes.


Aqui estive eu com as minhas cogitações, perdendo o meu tempo e a minha vida. E elas tão alto me erguiam nas asas, que eu me despenhava das alegrias sonhadas e vãs (atentai que grande era a queda) no desespero de não ver chegar tempos menos tristes.

Tanta meditação levava-me aos prantos e lamentações, que cortavam os ares.

A minha alma prisioneira, estava em sangue e ferida, cercada só por penas e aflições, à mercê dos golpes de um Destino cruel, feroz, implacável e massacrante.


Não tinha a alma onde achar repouso, nem via remédio que lhe servisse de pausa aos tormentos: tudo lhe era penoso e a afligia, mas não que a matasse, pois o inexorável Destino queria que continuasse a sofrer.

E eu com meus choros amaino o mar enfurecido!

Até os ventos, a quem lanço a minha voz magoada, parece que se amansam também: somente acha prazer o Céu inflexível, os astros e a sempre desapiedada sina, com esta minha infinita desgraça.

Assim mostram-se eles soberbos e enraivecidos contra um ínfimo animal terreno.


Se como resultado de todo este sofrimento pelo menos eu soubesse que os belos olhos da bem-amada se lembravam de mim; se esta voz magoada chegasse aos ouvidos angelicais daquela em cuja vista vivia; e que ela, relembrando no seu espírito os tempos idos dos meus adoráveis erros juvenis, dos meus doces tormentos e angústias por ela sofridos e causados, e ainda que demasiado tarde se apiedasse, talvez lamentasse o rigor com que me tratara.


Bastar-me-ia saber isto para alcançar alguma paz e aliviar os meus males; Ah, Senhora, Senhora. E tão poderosa sois que as vossas deliciosas falsidades me alimentam. Assim que penso em vós, logo se desanuviam as agruras as dores, e só por lembrar-me de vós volto a sentir-me forte e valeroso contra face assustadora da própria morte; e logo ganho a esperança de que, recuperada a serenidade, o meu sofrimento por vós se transforme em doces e ternas saudades.


E com as saudades pergunto por vós aos amorosos ventos que passaram pelo lugar onde estais; às aves que perto de vós voam, se vos viram, em que vos ocupáveis, o que dizíeis onde, como, a quem e a que dia e hora.

Assim a se abranda a fadiga da vida, revigora para vencer a sorte e os agruras, só pela esperança de vos rever, de vos servir e desejar-vos.

E o tempo diz-me que não há mal que nunca acabe: mas o desejo inflamado que nunca cessou, sem contemplações abre-me as feridas à dor.


E assim eu vivo; e se te perguntarem, canção, porque não morro, deves responder-lhes: porque já não vivo.

ZHANG WEIMIN

(2025)

简体中文

情歌九

在一座干枯坚硬的荒山边,

无用赤裸、光秃秃奇形怪状,

是一片令人厌恶的景象,

天空无飞鸟,地下无走兽,

没有清亮的河水和欢快的小溪,

听不见绿叶甜蜜的声响,

可当地老百姓却给它起名

叫幸福山,用“不幸”的反意。

就在这座山边

大自然向大海 

探出一只臂膀——,

荒凉的阿拉伯阿巴西亚,

那里曾建立起贝勒尼基王国,

一旁的太阳藏在山后

将那里煮沸。


这里显露出一座海角,

由南而来的非洲海岸以此为限,

当初曾被称为香料角——

如今的瓜达富伊角,

形成海岸的顶端,改变走向。

这名字是用当地

混乱的语言拼凑而成。 

这里,大海急于涌入

一段狭窄的海峡。 

我曾经被带到这里

经历过凶恶的冒险。

在世界的这个

遥远荒蛮之地历尽艰难,

短暂的生命也留在这里一段时间。

因为生命在世界上破裂成了碎片。


我曾在这里消磨痛苦的日子, 

悲伤,难过,孤独,强迫,

做尽苦役,尝遍愁苦和愤怒。

不仅是与生命为敌——

炎热的阳光,冰冷的海水,

漫天的风沙,滚烫而可怕,

而且我的思想,

我用它欺骗大自然的方法,

也与我作对,

给我带来漫长的回忆。

那些已成为过去的

我在世间见过和经历的短暂荣光, 

为了让我的遭遇加倍苦涩,

向我展示这世界上

还有许多快乐的时光。


在这儿,我用这些思想

消耗光阴与生命,

它展翅高飞,

(噢,请看这变化是否轻松!)

从梦和空幻的快乐中跌落,

终于看到有一天陷入绝望。 

美好的想象变成

意想不到的哭泣和叹息,

将空气打破。

灵魂在这里是个囚徒,

鲜活的肉体伤痕累累,

被痛苦和悔恨重重包围,

无能为力,赤裸无助,

被傲慢的命运之神拖拽着——

她傲慢,无情,纠缠不休。


我没有地方睡觉,

也没有任何希望,

甚至没有地方

稍稍把头靠着休息一会儿。

这一切都是受苦的原因,

可似乎又并不是,

因为是桀骜不驯的命运要如此发生。 

噢,狂怒的大海在温驯地呻吟,

狂风恼人的呼啸,

似乎被勒住了缰绳。 

只有严厉的上天、命运之星和法多

才总是这样穷凶极恶,

用我永久的伤害来取乐!

显示出对人的肉体,

这地上如此微卑的小虫如此的强大与震怒。


从这样多的艰难困苦中

若是还能偷得些许功夫,

想起我曾见过的那双明亮的眼睛,

倘若这悲怆的声音能打破空间,

传到那个人天使般的听觉,

我曾生活在这样的景象,

幻化成了你的故事。

当烦乱的头脑里,

回想起当初的那段时光, 

我甜蜜的错误、

轻柔的灾祸与愤怒,

为她,我甘愿自寻遭受痛苦。

并寻求她的怜悯,(似乎为时已晚)。

稍稍让你悲哀的是

那里的人们认为你的心太狠:


这只是想让你知道,

我所经历的生活对我是一种休息,

以此来抚平我遭受的苦难。

夫人啊夫人!

你那样富足,此处是如此远离快乐,

哪怕你用甜蜜的假装来维持我一下!

一想到你的容貌,

所有这些悲辛愁苦都一扫而尽。 

仅仅想起你

我便感觉安全又坚强,

抵抗凶恶的死神那张残酷的面孔;

希望立刻与欲望同在,

前额变得更平静而舒展,

我把严酷的折磨

化成温柔的思念。


这里,我心怀着深深的思念,

向多情的风打听你的消息,

那阵风从你所停留的地方吹来,

我询问掠过空中的鸟儿,它们是否曾见过你,

你在做什么,是否安好?

在哪儿,怎么样,和谁,哪一天,哪一刻,

于是无聊的生活变得有了情趣,

让我获得了新的精神,

足以战胜命运和劳苦,

这都只是为了能再次看见你。

只为去侍奉你,爱你。

人们常说,时间终结一切,

然而炽烈的欲望,

从不受约束,稍不留神,

便再次揭开新的伤口。


我就是这样生活;如果有人问你,

情歌啊,我为何不死, 

你可以回答他,我为什么要死。

COMENTÁRIO À CANÇÃO IX

Em curso.


对中文翻译的评注:

 :

EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES

卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU

澳門科技大學

PROJETO FRG-25-029-UIC

A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO

卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版