CANÇÃO V
S’este meu pensamento
Primeira publicação:
Texto adotado:
Canção V
S’este meu pensamento
Como he doce e suave,
Dalma pudesse vir gritando fora;
Mostrando seu tormento
5 Cruel, áspero e grave,
Diante de vós só, minha Senhora;
Pudera ser que agora
O vosso peito duro
Tornára manso e brando.
10 E então eu, que sempre ando
Pássaro solitario, humilde e escuro,
Tornado hum cysne puro,
Brando e sonoro, por o ar voando,
Com canto manifesto
15 Pintára a minha pena, e o vosso gesto.
Pintara os olhos belos
Que trazem nas meninas
O menino que os seus nelles cegou;
Os dourados cabelos
20 Em tranças d'ouro finas,
A quem o sol os raios seus baixou,
A testa que ordenou
Natura tão formosa,
O bem proporcionado
25 Nariz, lindo, afilado,
Que cada parte têe da fresca rosa;
A boca graciosa,
Que o querê-la louvar he ja ‘scusado.
Emfim, he hum thesouro;
30 Perolas dentes, e palavras ouro.
Vira-se claramente,
(Oh Dama delicada!)
Qu’em vós s’esmerou mais a natureza.
Mas eu, de gente em gente,
35 Trouxera trasladada
Em meu tormento vossa gentileza;
E somente a aspereza
De vossa condição,
Senhora, não dissera,
40 Porque se não soubera
Qu’em vós podia haver algum senão.
E se alguem, com razão,
Porque morres? dissesse, respondera:
Morro, porque he tão bella,
45 Quinda não sou para morrer por ella.
E quando, por ventura,
Dama, vos offendesse,
Escrevendo de vós o que não sento,
E vossa formosura
50 Tanto á terra descesse,
Que a alcançasse humano entendimento;
Seria o fundamento
De tudo o qu'eu cantasse,
Todo de puro amor;
55 Porque o vosso louvor
Em figura de mágoas sè mostrasse.
E aonde se julgasse
A causa por o effeito, a minha dôr
Diria alli sem medo:
60 Quem me sentir verá de quem procedo.
Logo então mostraria
Os olhos saudosos,
E o suspirar que traz a alma comsigo:
A fingida alegria;
65 Os passos vagarosos:
O fallar e esquecer-me do que digo:
Hum pelejar comigo,
E logo desculpar-me;
Hum recear ousando;
70 Andar meu bem buscando,
E de o poder achar acovardar-me;
E, em fim, averiguar-me
Que o fim de tudo quanto estou fallando,
São lagrimas e amores;
75 São vossas isenções e minhas dôres.
Mas quem terá, Senhora,
Palavras com qu' iguale
Com vossa formosura a minha pena;
E em doce voz de fora
80 Aquella gloria falle
Que dentro na minh'alma Amor ordena?
Não pode tão pequena
Força d' engenho humano
Com carga tão pezada,
85 Se não fôr ajudada
D' hum piedoso olhar, d’hum doce engano,
Que fazendo-me o dano
Tão deleitoso e a dor tão moderada,
Que enfim se convertesse
90 Nos gôstos dos louvores qu’escrevesse.
Canção, não digas mais; e se teus versos
À pena vem pequenos,
Não queirão de ti mais; que dirás menos.
Canção V
Se a emoção que eu sinto, tão terna e branda, pudesse sair da alma em alta voz, mostrando diante de vós, Senhora minha, o sofrimento que eu padeço, implacável, violento e forte, poderia ser então que o vosso duro coração se enternecesse e se suavizasse.
E nesse instante, eu, que sempre sou como uma ave solitária, insignificante e obscura, tornar-me-ia um branco cisne, suave e canoro, voando pelos ares, e com o meu claro canto proclamaria o meu tormento, e a beleza do vosso semblante.
Celebraria os belos olhos, em cujas pupilas Cupido perdeu a visão dos dele; os vossos cabelos loiros, entrelaçados em delicadas tranças de oiro, nas quais que o próprio sol colocou os raios dele; a vossa fronte que a Natureza dispôs tão bela; o nariz harmonioso, formoso, delicado, como uma rosa viçosa; e a boca grácil que elogios dispensa, pois é um escrínio onde os dentes são as pérolas, e o ouro as palavras que dizeis.
E bem se veria então, ó suave Dama, que em vós a Natureza se excedeu; mas eu transformei a vossa beleza na minha tortura para os ouvintes do meu canto; e somente não cantara a dureza do vosso coração, para que ninguém soubesse que em vós existia alguma imperfeição.
E se alguém me perguntasse, com razão, porque estás apaixonado? Eu responderia: sim eu morro de amor pela sua beleza, já que ainda não sou digno de morrer por ela.
E se eu vos ofendesse cantando sobre vós o que eu não sinto, e a vossa beleza assim fizesse tão terrena que a razão humana a pudesse abarcar, ela passaria a ser então o motivo de todo o meu canto, feito de genuíno amor, para que o vosso louvor em pranto soasse.
E se quem me ouvisse fosse capaz de encontrar a causa a partir do efeito causado, então a minha dor proclamaria destemidamente: quem for capaz de me sentir também, saberá de quem eu venho.
E então me denunciariam os meus olhos lacrimosos, e os gemidos do fundo da alma: a alegria duvidosa, o caminhar arrastado, o dizer algo e logo em seguida esquecer-me do que disse.
Um lutar contra mim, e logo pedir-me a minha felicidade e ter medo de a encontrar; e por fim entender que o termo de tudo aquilo por que passo são dores e paixões; são a vossa liberdade e o meu sofrimento.
Mas poderia eu, Senhora minha, compor versos para equiparar o meu sofrimento à vossa beleza? E que nessa voz exterior fizesse soar aquele cântico que o Amor à minha alma obriga?
O fraco talento humano não alcança realizar tarefa tão desmedida, se para isso eu não for ajudado por um olhar compadecido que ternamente me iludisse, fazendo-me agradável o sofrimento e suportável a dor, e tornasse por fim no prazer dos versos que eu compusesse.
Canção, nada mais acrescentes; e se os teus versos me saírem pequenos, que ninguém te peça mais, pois lhes dirás menos.
情歌五
如果我的思想,
甜蜜又温柔,
能从灵魂里发出叫喊,
显露出你残酷、
暴戾,严厉的折磨,
只是在你面前,夫人:
现在你坚硬的心
也许变得柔软。
而我,一直是只小鸟,
孤独,微卑而幽暗,
化成纯洁的天鹅,
柔和悦耳地鸣叫,
在天空飞翔,
用清亮的歌声
描绘我的哀愁和你的神情。
那双美丽的眼睛
瞳仁里住着着那个男孩,
他的眼睛在你的眼中失明。
你金色的头发
编成纯金的发辫,
太阳也会收敛起光焰;
大自然生就了你
那样美的前额;
匀称的鼻子,
那样俏皮,
腮颊有鲜艳的玫瑰;
别致的嘴巴,
若想赞美已毫无必要,
总之,那是件珍宝,
齿似珍珠,话语是金。
显而易见
噢,优雅的夫人!
大自然以最精湛的艺术塑造了你
而我不过是芸芸众生之一,
却因你的绝色之美
而备受折磨。
我不曾提及,夫人,
你那点点不足之处,
唯恐让世人知道
你的美尚有可挑剔。
若有人问,且问得有理:
“你为何不去死?
我回答:“我愿意死,
只因为她太美,
为她死,我尚且不配。“
假使出于偶然,夫人,
我冒犯了你,描写了你
我没感觉到的东西,
你的美丽
不会下降到那么低下
因为低贱的理解力达不到它,
这便是缘由,
我歌唱的一切
都是纯洁的爱情。
因为对你的赞美
显露出痛苦的形象。
这里是以果来判断因,
我的痛苦在那里
毫不畏惧地说:
能感受我的人,会看懂出自何因。
于是立刻露出
思恋的眼神,
灵魂携带的叹息:
伪装的快乐,
缓缓的脚步,
刚说完就忘记说过什么,
我同自己斗争,
很快又原谅自己。
大胆又恐惧,
我寻求幸福,
当快要找到它时又心生胆怯,
当自我反思,
我所说的一切都是:
眼泪和爱情,
是你的无辜和我的痛苦。
然而夫人啊,
谁能有那种言辞
写得尽你的美丽,容得下我的痛苦。
用甜蜜的歌喉
从外部表述
爱神赐给我灵魂的光荣?
人的智慧
力量如此渺小,
承载不起这样的沉重,
若非有怜悯的眼神、
甜蜜的欺骗来相助,
赐予我那么甜蜜的伤害,
那样不轻不重的痛,
最终变成
写下赞美的情趣。
情歌啊,不要再说,
若笔下写出渺小的诗句,
人们不想再要你,少说为妙。
COMENTÁRIO À CANÇÃO V
Em curso.
对中文翻译的评注:
17 : 丘比特,他是给盲眼的男童。比喻盲目的爱情。
57 : 是说理解这些哀怨之词,不能倒果为因。痛苦,抱怨,这样的结果,原因是出于深爱。
EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES
卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU
澳門科技大學
PROJETO FRG-25-029-UIC
A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO
卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版

