CANÇÕES


EDIÇÃO, PARÁFRASE, TRADUÇÃO CHINESA E COMENTÁRIO (TRABALHO EM CURSO)

编辑、改写、中文翻译和评论(进行中)

CANÇÃO VI

Com força desusada


Primeira publicação:

Texto adotado:

LUÍS DE CAMÕES

(HÁ c. 470 anos)

ORIGINAL

Canção VI

Com força desusada

Aquenta o fogo eterno

Huma Ilha cá nas partes do Oriente,

D' estranhos habitada,

 5                          Aonde o duro Inverno

Os campos reverdece alegremente.

A Lusitana gente

Por armas sanguinosas

Têe della o senhorio.

10                         Cercada está d' hum rio

De maritimas águas saudosas.

Das hervas qu'aqui nascem,

Os gados juntamente e os olhos pascem.


Aqui minha ventura

15                         Quiz que huma grande parte

Da vida, queu não tinha, se passasse;

Para que a sepultura

Nas mãos do fero Marte

De sangue e de lembranças matizasse.

20                         Se amor determinasse

Que a trôco desta vida,

De mi qualquer memoria,

Ficasse como historia,

Que d'huns formosos olhos fosse lida;

25                         A vida e a alegria

Por tão doce memoria trocaria.


Mas este fingimento,

Por minha dura sórte,

Com falsas esperanças me convida.

30                         Não cuide o pensamento

Que pode achar na morte

O que não pôde achar tão longa vida.

Está ja tão perdida

A minha confiança

35                        Que de desesperado,

Em vêr meu triste estado,

Tambem da morte perco a esperança.

Mas oh! que s' algum dia

Desesperar pudesse, viveria.


40                         De quanto tenho visto

Ja agora não m'espanto,

Que até desesperar se me defende.

Outrem foi causa disto,

Pois eu nunca fui tanto

45          Que causasse este fogo que m'encende.

Se cuidão que m'offende

Temor d' esquecimento,

Oxalá meu perigo

Me fôra tão amigo,

50          Que algum temor deixara ao pensamento!

Quem vio tamanho enleio,

Que houvesse ahi 'sperança sem receio?


Quem tee que perder possa,

Só pôde recear.

55          Mas triste quem não pode ja perder!

Senhora, a culpa he vossa,

Que para me matar

Bastara hum' hora só de vos não vêr.

Puzestes-me em poder

60                        De falsas esperanças:

E do que mais m' espanto,

Que nunca vali tanto,

Que visse tanto bem, como esquivanças.

Valia tão pequena

65          Não pode merecer tão doce pena.


Houve-se Amor comigo

Tão brando, ou pouco irado,

Quanto agora em meus males se conhece.

Que não ha mór castigo

70                         Para quem têe errado,

Que negar-lhe o castigo que merece.

Da sórte que acontece

Ao misero doente,

Da cura despedido,

75                        Que o Medico advertido

Tudo quanto deseja lhe consente;

O Amor me consentia

Esperanças, desejos e ousadia.


E agora venho a dar

80                        Conta do bem passado

A esta triste vida e longa ausencia.

Quem pode imaginar

Qu' houvesse em mi pecado

Digno d'huma tão grave penitencia?

85                        Olhae que he consciência

Por tão pequeno êrro,

Senhora, tanta pena.

Não vèdes que he onzena?

Mas se tão longo e misero desterro

90                        Vos dá contentamento,

Nunca m’acabe nelle o meu tormento.


Rio formoso e claro,

E vós, ó arvoredos,

Que os justos vencedores coroais,

95                         E ao cultor avaro,

Continuamente ledos,

D' hum tronco só diversos fructos dais;

Assi nunca sintais 

Do tempo injúria algua,

100                      Qu’em vós achem abrigo

As mágoas que aqui digo,

Em quanto der o sol virtude á lua;

Porque de gente em gente

Saibão que ja não mata a vida ausente.


105        Canção, neste desterro viverás,

Voz nua e descoberta,

Até que o tempo em ecco te converta.

FELIPE DE SAAVEDRA

(2025)

PARÁFRASE

Canção VI

Com invulgar potência, o fogo imortal aqui queima uma ilha no Oriente, habitada por gente exótica, onde o Inverno forte com alegria renova os campos.

Os Lusos conquistaram-na pela guerra. Está cercada por um estreito braço de mar de águas nostálgicas.

O verde que a reveste alimenta os rebanhos e os nossos olhos.



Foi aqui que o meu Destino quis que passasse muito tempo da minha vida já escassa, e onde por pouco a ia perdendo na guerra.

Trocaria de bom grado tanto a vida como qualquer satisfação que achasse nela se eu soubesse que por decreto do Amor uns olhos belos iriam ler a minha história.



Para minha dor, esta é uma ilusão cruel que me alicia, pois não creio que pudesse obter com a morte o que não consegui alcançar em vida.

E tal é o meu desalento por me achar em tão mísera condição, que até já nem na morte tenho esperança.

Mas se eu pudesse desesperar no futuro, então sim, já viveria, porque alguma esperança teria para perder.



Por agora nem desesperar posso, porque até isso me está vedado.

Alguém foi a causa disto, não fui eu que me incendiei de amor.

Se pensais que sofro pelo medo de ser esquecido, esse seria um medo agradável que ainda poderia ter, pois não pode ser esquecido quem não é lembrado.

Qual é o amor que não vive com temor?



Quem tem algo que possa perder, vive com esse receio.

Mas mais triste é aquele que nada pode perder, porque nada tem.

E vós sois a culpada, Senhora, que estando longe de vós só uma hora eu já morreria.

Destes-me esperanças infundadas, e bem me admiro por ver que nunca fui tão apreciado que merecesse de vós tantos favores, quantas escusas tive.

E tão ínfimo é o meu valor que não mereço tanto castigo.



Amor procedeu de início para comigo da mesma forma suave e branda quanto agora se manifesta no meu sofrimento.

Que maior pena não existe para quem errou do que privá-lo da sanção que merece.

Pois tal como o médico ao desenganar o doente já lhe permite tudo, também a mim o Amor me permitia loucos desejos, expetativas e audácia.



E venho agora cantar memórias destes amores neste exílio.

Quem pudera pensar que eu tivesse tanta culpa para tão sério castigo?

Senhora, é injusto ser tão punido, isto é usura.

Mas se um tão feliz exílio vos alegra, que ele nunca termine, nem o meu penar.



Rio belo e límpido das águas em torno da ilha, e vós, ó bosques que recompensais o conquistador, e dais ao agricultor tantos frutos num só ramo: que o tempo nunca vos atinja, e que possais acolher as mágoas que aqui vos canto, enquanto o sol alumiar a lua.

Para que geração após geração se saiba que a ausência, o exílio, já não mata.



Canção, viverás neste exílio, como um canto limpo e claro, até que no final só reste aqui o eco.

ZHANG WEIMIN

(2025)

简体中文

情歌六

以非凡了力量

抵抗永恒的火,

东方有一座小岛

住着奇怪的人,

严酷的冬天

给那里田野快乐的绿装,

卢济塔尼亚人 

用血腥的武器,

成为它的主人。

一条河围绕着它,

思念着大海

草木繁茂,

牛羊成群,景色宜人。


命运要我在这里

度过短暂生命的

大部分时间。

为了让凶狠的马尔斯

给我的坟墓

染上鲜血和纪念。

倘若爱神决定,

以这种生活为交换,

留下我的某种记忆

作为故事流传,

被一双美丽的眼睛读到,

我情愿以生命和快乐,

交换如此甜蜜的回忆。


我残酷命运

以这种伪装,

用虚假的希望邀约我。

思想没有料到能在死亡里

发现如此漫长的生活中

难以找到的事情。

我已经是那样

丧失了信心,

绝望地看见

自己悲惨的处境,

我对死亡也失去了希望。 

可是啊,倘若有一天

我能绝望,就能活下去!


我对见过的一切,

如今已不再惊讶。 

甚至用绝望来自我保护。

对别人是绝望的原因,

对我从来不至于那种地步,

造成这种将我焚烧的烈火。

如果人们以为

遗忘的恐惧让我愤怒,

但愿我的危险

成为我的朋友,

但愿给我的思想

留下某些恐惧!

看见这样巨大窘境的人,

难道有希望不担忧?


一个有东西可失的人,

他才能有所忧惧,

一个人已无所失去才悲哀。

夫人,这都是你的错,

若想要我死,

只需一刻看不见你就足够了!

你将我置于

虚假希望的诱惑之下:

更让我更惊讶的是,

我从来不值得那样,

怀着希望生活,

我的价值那样微薄,

不值得如此甜蜜的惩罚。


爱神一度对我

那么温柔,并不太愤怒,

此刻一切在我的灾难中见分晓。 

对一个犯错的人

没有比拒绝给他应得的惩罚

是更大的惩罚。

正如对一个病人发生的事,

他告别了治愈,

博学的医生

给他的药方

是满足他的一切欲望。

就这样满足我:

期盼,欲望,大胆。


现在让我来为

以往的美好算一笔账: 

这悲伤的生活和长久的离别。

谁能想象

能有这种原罪

该受如此严厉的苦行? 

请看吧,这是良知:,

因为如此小的过失,

夫人,遭受这样多惩罚!

难道你看不见这是高利贷?

可是假使如此长久悲惨的流放

能让你心满意足, 

我的苦难就永远不要结束。


清澈而美丽的河水,

还有你啊,树林,

请给公正的胜利者戴上王冠,

让贪婪的耕种者,

永远的快乐,

一棵树只是结下不同果实,

永远这样不感受到伤害

只要太阳给月亮光辉,

这里我所说的痛苦, 

就在你那里找到呵护。

因为我从生活知道,

人不会死于离愁别苦。


情歌啊,你将在流放中生活,

赤裸的而无掩饰的声音,

直到时间将你变成回音。

COMENTÁRIO À CANÇÃO VI

Em curso.


对中文翻译的评注:

17 : 战神,意思是死于战争。

39 : 不能活是因为期望,不再期望,反而能活。

58 :  潜台词是:不必流放。

97 : 指王室世系树。

101 :  这段是卡蒙斯在向国王请求赦免。

EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES

卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU

澳門科技大學

PROJETO FRG-25-029-UIC

A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO

卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版