CANÇÕES


EDIÇÃO, PARÁFRASE, TRADUÇÃO CHINESA E COMENTÁRIO (TRABALHO EM CURSO)

编辑、改写、中文翻译和评论(进行中)

CANÇÃO VIII

Tomei a triste pena


Primeira publicação:

Texto adotado:

LUÍS DE CAMÕES

(HÁ c. 470 anos)

ORIGINAL

Canção VIII

Tomei a triste pena

Ja de desesperado

De vos lembrar as muitas que padeço;

Vendo que me condena

 5                          A ficar eu culpado

O mal que me tratais, e o que mereço.

Confesso que conheço

Qu'em parte a causa dei

Ao mal em que me vejo,

10                        Pois sempre o meu desejo

A tão largas promessas entreguei;

Mas não tive suspeita

Que seguisseis tenção tão imperfeita.


S'em vosso esquecimento

15                        Tão condemnado estou,

Como os sinaes demostrão, que mostrais;

Neste vivo tormento,

Lembranças mais não dou

Que as que desta razão tomar queirais:

20                        Olhae que me tratais

Assi de dia em dia

Com vossas esquivanças;

E as vossas esperanças,

De que vãamente ja m’enriquecia,

25                         Renovão a memoria;

Pois com a ter de vós só tenho gloria.


E s’isto conhecêsseis

Ser verdade mais pura

Do que d'Arabia o ouro reluzente;

30                         Inda que não quizesseis,

Essa condição dura

Em branda se mudára facilmente.

Eu, vendo-me innocente,

Senhora neste caso,

35                         Bem no arbitrio o puzera

De quem sentença dera.

Com que o que he justo se mostrasse raso;

Se, emfim, não receara

Que a vós por mi, e a mi por vós matara.


40                         Em vós escrita vi

Vossa grande dureza,

E n'alma escrita está, que de vós vive:

Não que acabasse alli

Sua grande firmeza

45          O triste desengano qu' então tive;

Porque antes que me prive

A dôr de meus sentidos,

Ao penoso tormento

Acode o entendimento

50          Com dous fortes soldados guarnecidos

De rica pedraria,

Que ficão sendo minha luz e guia.


Destes acompanhado

Estou pôsto sem medo

55           A tudo o que o fatal destino ordene:

Pode ser que cansado,

Ou seja tarde, ou cedo,

Com pena de penar-me, me despene.

E quando me condene

60                         (Quhe o que mais espero)

Inda a penas maiores;

Perdidos os temores,

Por mais que venhão, não direi, não quero.

Estou, emfim, tão forte,

65          Que não pode mudar-me a propria morte.


Canção, se ja não queres

Crêr tanta crueldade,

Lá vae onde verás minha verdade.

FELIPE DE SAAVEDRA

(2025)

PARÁFRASE

Canção VIII

Peguei na minha pena para, em desespero, vos escrever acerca dos muitos males que eu sofro; pois tanto o desprezo com que me tratais, como aquele que eu mereço, me comprometem.

Mas é verdade que em parte fui responsável pela minha desgraça, pois desejei acreditar nas vossas grandes promessas, sem suspeitar que estivésseis tão longe de as querer cumprir.



Se ao vosso desfavor estou condenado, tal como o comprova a forma como me tratais, neste meu sofrimento não vos dou mais lembranças do que aquelas que quiserdes tomar por esta causa: a forma como me tratais dia após dia, com as vossas recusas e com as promessas de que eu já me vangloriava, renovam a lembrança, e tê-las recebido de vós é já um triunfo.



E se esta verdade julgásseis ser mais pura do que o ouro puro, mesmo que o não desejásseis as vossas recusas se suavizariam.

E, Senhora, sendo eu inocente nesta situação, de bom grado procuraria sentença com que a justiça fosse servida, fazendo com que o que é justo se mostrasse sem artifícios, se não temesse causar assim em ambos uma grande paixão.



A vossa intransigência está gravada em mim, que para vós vivo.

Não que terminasse a persistência da minha alma com a grande desilusão que então sofri; pois antes que o sofrimento me embote os sentidos, a razão acode à tortura dolorosa com dois fortes soldados ajaezados de pedras preciosas, que serão os meus guias e candeias.



Guardado por eles fico eu sem medo dos decretos dos Fados. E pode ser que, mais tarde ou mais cedo, fatigado de tanto sofrer enjeite o sofrimento.

E estando enfim votado pelos Fados a sofrimentos ainda maiores, que me estão garantidos, já não lhes tenha medo, e não os recusarei.

Sinto-me já tão forte que nem a morte poderia mudar-me.



E tu canção, se não acreditas mais em tanta crueldade, vai procurar lá onde acharás a minha verdade.

ZHANG WEIMIN

(2025)

简体中文

情歌八

我拿起忧伤的笔

已然十分绝望,

回忆我遭受的许多苦难。

看到我被判罪

你对我的虐待

罪责在我,我罪有应得。

我承认知道

对我所处的苦难

部分上是由我造成。

因为我一直把欲望

托付给慷慨的许诺;

却没有怀疑过

你如此不完美地遵循你的意愿。


假使我注定是

被你如此遗忘, 

正如你显示的迹象所表明,

我活生在这种折磨中,

不给你更多的提醒,

除了你想要的理由,

看吧,你一天天

这样地待我,

用你的冷淡,

和你的希望,

让我空抱那么多幻想,

引起我的回忆,

因为有你的记忆,我只有光荣。


如果你知道这是

比阿拉伯闪闪发光的金子

更纯粹的真相。

哪怕你不愿意,

你很容易将这种严酷的条件

转换成另一种更温和的处境。

而我,夫人您看见,

在这个案件中的无辜,

您完全可以

做出无私的判断,

让法律公正不阿。

总之,若是不害怕

我杀了你,或你杀了我。


我看见你身上

写着你的冷酷,

灵魂上写着我对你的爱:

你的坚定

并非就此为止,

那时我感到悲伤和失望。

正当疼痛

要夺走我的感觉之际,

理解力来解救我

出离痛苦的折磨:

两名强壮的士兵

戴着光灿灿的宝石,

他们是我的光明和向导。


有他们的陪伴,

我毫无畏惧地面对 

一切命运注定的安排:

或迟或早你有可能会, 

厌倦了对我的惩罚,

为折磨我而心生怜悯,解除对我的惩罚。

哪怕是判处我

更大的悲伤, 

(这是我期待的)

失去了恐惧,

即使来得再多,我不会说,我不要。

总之,我无比坚强,

就是死神也改变不了我。


情歌啊,如果你已不愿相信

这样多的残酷,

你到那里将看到我的真相。

COMENTÁRIO À CANÇÃO VIII

Em curso.


对中文翻译的评注:

52 : 这是描写卡蒙斯被押解去流放的情景。两名士兵是解差。

EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES

卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU

澳門科技大學

PROJETO FRG-25-029-UIC

A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO

卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版