CANÇÕES


EDIÇÃO, PARÁFRASE, TRADUÇÃO CHINESA E COMENTÁRIO (TRABALHO EM CURSO)

编辑、改写、中文翻译和评论(进行中)

CANÇÃO VII

Manda-me Amor que cante docemente


Primeira publicação:

Texto adotado:

LUÍS DE CAMÕES

(HÁ c. 470 anos)

ORIGINAL

Canção VII

Manda-me Amor que cante docemente

O quelle ja em minh'alma têe impresso,

Com presupposto de desabafar-me;

E porque com meu mal seja contente,

 5           Diz que o ser de tão lindos olhos preso,

Cantá-lo bastaria a contentar-me.

Este excellente modo d'enganar-me

Tomára eu só d' Amor por interesse,

Se não se arrependesse,

10          Com a pena o engenho escurecendo.

Porém a mais me atrevo,

Em virtude do gesto de qu’escrevo.

E s’he mais o que canto que o qu’entendo,

Invoco o lindo aspeito,

15          Que pode mais que Amor, em meu defeito.


Sem conhecer a Amor viver sohia,

Seu arco e seus enganos desprezando,

Quando vivendo delles me mantinha.

Hum Amor enganoso, que fingia,

20          Mil vontades alheias enganando,

Me fazia zombar de quem o tinha.

No Touro entrava Phebo, e Progne vinha;

O corno de Acheloo Flora entornava;

Quando o Amor soltava

25          Os fios d’ouro, as tranças encrespadas,

Ao doce vento esquivas;

Os olhos rutilando chammas vivas;

E as rosas entre a neve semeadas;

Co’o riso tão galante,

30          Que hum peito desfizera de diamante.


Hum não sei que suave respirando,

Causava hum admiravel, novo espanto,

Que as cousas insensiveis o sentião.

Alli as garrulas aves, levantando

35          Vozes não ordinarias em seu canto,

Como eu no meu desejo s'encendião.

As fontes crystallinas não corrião,

D'inflammadas na vista linda e pura;

Florecia a verdura,

40          Que andando co'os divinos pés tocava;

Os ramos se baixavão,

Ou d' inveja das hervas que pizavão,

Ou porque tudo ant’ella se baixava.

Não houve cousa, emfim,

45          Que não pasmasse della, e eu de mim.


Porque, quando vi dar entendimento

Ás cousas que o não tinhão, o temor

Me fez cuidar qu'effeito em mi faria.

Conheci-me não ter conhecimento:

50          Porém só nisto o tive, porque Amor

Mo deixou para vêr o que podia.

Tanta vingança Amor de mi queria,

Que mudava a humana natureza

Nos montes, e a dureza

55          Delles em mi por trôco traspassava.

Oh que gentil partido,

Trocar o ser do monte sem sentido,

Por o qu’em hum juizo humano estava!

Olhae que doce engano!

60          Tirar commum proveito de meu dano.


Assi qu’indo perdendo o sentimento

A parte racional, m'entristecia

Vê-la a hum appetite submettida.

Mas dentro n'alma o fim do pensamento,

65          Por tão sublime causa, me dizia

Qu'era razão ser a razão vencida.

Assi que quando a via ser perdida,

A mesma perdição a restaurava:

E em mansa paz estava

70          Cada hum com seu contrário em hum sogeito.

Oh grão concêrto este!

Quem será que não julgue por celeste

A causa donde vem tamanho effeito,

Que faz n'hum coração

75          Que venha o appetite a ser razão?


Aqui senti d'Amor a mór fineza,

Como foi vêr sentir o insensivel,

E o vêr a mi de mi proprio perder-me;

E, emfim, senti negar-se a natureza;

80          Por onde cri que tudo era possível

Aos lindos olhos seus, senão querer-me.

Despois que ja senti desfallecer-me,

Em lugar do sentido que perdia,

Não sei quem m'escrevia

85          Dentro n'alma co’as letras da memoria

O mais deste processo,

Co’o claro gesto juntamente impresso,

Que foi a causa de tão longa historia.

Se bem a declarei,

90          Eu não a escrevo, d'alma a trasladei.


Canção, se quem te lêr

Não crêr dos olhos lindos o que dizes,

Por o que a si s’esconde;

Os sentidos humanos (lhe responde)

95          Não podem dos divinos ser juizes,

Senão hum pensamento

Que a falta suppra a fé do entendimento.

FELIPE DE SAAVEDRA

(2025)

PARÁFRASE

Canção VII

O Amor ordena-me cantar suavemente a paixão que me vai na alma, para eu poder aliviar o meus males.

E para ele me agravar o sofrimento, diz que estando eu prisioneiro de olhos tão belos, poder cantar este amor seria já prémio suficiente.

Eu ia aceitar este astucioso logro porque me convinha.

Mas ele arrependeu-se e toldou-me a inspiração com o sofrimento.

Mas agora atrevo-me, e escrevo estes versos inspirados na beleza da expressão do rosto da bem-amada.

E embora eu cante mais do que aquilo que eu compreendo, a formosura dela vence as tentativas que fez Cupido para me dificultar a tarefa.



Antigamente eu vivia despreocupado, afastado dos logros e do arco de Cupido, dos quais, contudo, eu me aproveitava e deles vivia.

Simulava amar, ludibriando mil corações, e ria-me de quem amasse verdadeiramente.

Mas um dia, chegada a Primavera, e florindo os campos, o Amor desatou à minha bem-amada as tranças louras onduladas, firmes ao vento; os olhos dela chispavam, e as faces rubras do alvo rosto, com um riso tão amoroso, teriam quebrado um peito duro como diamante.



Algo de indescritível havia no ar, causando uma emoção nova e surpreendente, que até as pedras podiam sentir.

As alegres aves cantavam raras canções, abrasadas pelo desejo, tal como eu.

As águas da fonte estancavam-se, quedando-se na contemplação da visão magnífica; as ervas que ela pisava reverdeciam, os ramos inclinavam-se, ciumentos das ervas que os pés dela calcavam, ou então porque tudo perante ela se inclinava.

Nada houve que não se admirasse com a presença dela, e eu comigo.



Porque quando eu a vi suscitar este efeito nas coisas naturais, fiquei assustado com o poder que a bem-amada sobre mim teria.

Percebi que eu nada percebia, mas só isto percebi, que foi apenas o que Cupido me concedeu para que sentisse o poder dele.

Assim Amor se quis vingar de mim, fazendo humanos os montes, e tornando-me rijo como um penedo.

Uma belo equívoco, trocar o meu juízo pela desrazão de um monte.

Atentai neste logro, de ganhar a natureza com a minha desgraça.



Enquanto a minha razão se vergava aos sentimentos, eu deplorava vê-la subjugada pelo desejo.

Mas o pensamento confirmava intimamente que era inevitável que a razão saísse derrotada desta contenda.

E ao perder a razão, a própria perda a restabelecia, e assim me reconciliava intimamente nesta contenda.

Que admirável concertação, e quem haverá que não julgue celestial uma paixão que produz tal consequência, fazendo com que no coração o próprio desejo se torne a razão?



Senti do Amor a maior doçura, como se pudesse sentir o que não se sente, e vi-me alienado de mim próprio, indo contra a própria natureza.

Pensei que aqueles olhos belos jamais poderiam amar-me.

E sentindo-me perder os sentidos, em vez do sentido que não tinha, não sabia já quem me gravava na alma com as letras da recordação a continuação desta história, que me ficou inscrita juntamente com a expressão da bem-amada, e que originou longa narrativa.

Não fui eu que a escrevi, apenas a extraí diretamente da minha alma.



Canção, se quem te ler não acreditar que uns olhos tão lindos possam existir, porque escondem tanto, diz-lhe que os sentidos humanos não podem avaliar a divina beleza, e que somente a poderá avaliar um pensamento que com a fé supere as limitações da razão.

ZHANG WEIMIN

(2025)

简体中文

情歌七

爱神命令我甜蜜地歌唱

他铭刻在我灵魂中的爱情。

他的用意不过是让我倾吐心声,

因为他很享受我的苦难。 

他说,被这样美的眼睛俘获,

描写它们便足以让我获得快乐。

我原本是出于好奇,

接受了爱神这巧妙的欺骗方式,

他用悲伤让我的才华暗淡。

然而我因所描绘的绝色容颜

而更加勇敢。

若我的歌唱超越了我的理解,

那是因为美丽的容貌赐予了我灵感,

她的力量,比爱神更能弥补我的不足。


从前,我生活与爱神无关,

我蔑视他的弓箭和欺骗,

却又依赖这些力量度日 。

狡黠的爱神伪装成

一千种他人的意愿来诱惑世人,

而我只是嘲笑那些陷入爱情的人。

福珀斯进入了金牛座,普洛克涅来了,

弗罗拉将花酿斟满阿克罗俄斯的金角,

当爱神解开我心爱的人发辫

那卷曲的金发

在甜蜜的微风飘散,

双眸闪着灵动的火焰

玫瑰在白雪间绽放,

她那多情的微笑,

让钻石之心也为之破碎。


一种不知名的、轻柔的气息拂过,

让人惊异心生赞叹;

连本无知觉的万物,仿佛也被唤醒,

鸟儿叽叽喳喳,

唱起高低错落的歌。

仿佛是点燃我的欲火。 

晶莹的泉水为她而停滞

仿佛纯洁美丽的景象中燃烧起爱火。

绿色草地上鲜花绽放, 

女神的脚步轻轻走过,

树枝也低垂,

或是因为妒忌她脚下的草地,

或是因为躬身对她致意, 

总之,世间万物无不为之惊讶

而我惊叹的是自己。


因为,当我看见把理解力

给了无理解力的事物,

我恐惧会对我产生什么效果。

我知道自己一无所知,

我之所以有理解力,是因为,

爱神为了让我见识他的威力。

爱神要对我做出这样多报复,

甚至改变人的本性:

把她变成坚硬的大山,作为交换用箭把我射穿。

噢,多奇妙的玩笑!

用人类的判断

换成没有感觉的山体!

请看这是多么甜蜜的欺骗:

从我的伤害中获得普遍的益处。


就这样,感情渐渐失去了

理性的部分,我为看见它

受欲望支配而悲伤;

但是灵魂里有细腻的思想,

由于如此崇高的原因,

对我来说这是理性被战胜的理由。

就这样,当我看见失去理性,

这种毁灭又将其恢复。

在安祥的和平中,

每个人在自身里都带着冲突。

噢,真是个伟大的均衡!

谁会不觉得是天道的原因

产生的巨大效果,

让欲望在一颗心中

变成为理性?


此处是我感觉爱神最精妙之处,

就像看见无感觉的东西有了感觉,

看见我自己的迷失。

总之,感觉大自然在自我否定。

由此我相信一切皆有可能——

只是除却你美丽的眼睛爱我。

至于我,不是失去感觉,

而是感觉被消磨得几乎无力,

我已分不清是谁在替我写下

灵魂里那些由回忆写成的诗句。

最要紧的是这个过程中,

那些深深铭刻的表情,

正是这漫长故事的原因,

如果我能说得清楚:

并非是我写下了这些故事,而是灵魂的演奏。


情歌啊,阅读你的人

若不相信你对美丽眼睛的叙述,

因为你隐藏了自己。

你回答他,人类的感觉

不能评判神意,

一种思想所缺之处,

由理解的信仰来填补。

COMENTÁRIO À CANÇÃO VII

Em curso.


对中文翻译的评注:

22 : 四月末,太阳进入金牛座。| 燕子。

54 : 这部分可参考《卢济塔尼亚人之歌》第五章第五十节至第五十七节,化成好望角的巨人的爱情故事。

64 : Maria Vitalina Leal de Matos 注释:是爱情第五本质。原文是fim do pensamento,玛丽娅解释说就是 o fino pensamento,细腻的思想,也就是爱情。

95 : 此处按照1843年版翻译,Maria 版本于此不同:人类的感觉大可以是神意的法官。

EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES

卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU

澳門科技大學

PROJETO FRG-25-029-UIC

A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO

卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版