CANÇÕES
EDIÇÃO, PARÁFRASE, TRADUÇÃO CHINESA E COMENTÁRIO (TRABALHO EM CURSO)
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CANÇÃO XV
Crecendo vai meu mal d’ora em ora
Primeira publicação:
Texto adotado:
Canção XV
Crecendo vai meu mal d’ora em ora,
Creo, que quer fortuna que pereça
Segundo contra mim sua roda guia,
Pois, se a vida faltar, a pena creça,
5 Que por muito que' creça, cruel pastora,
Por fim, fim há de ter sua porfia.
Que ganhas em perder-me?
Que perdes em valer-me
Se á custa de me olhares brandamente
10 Me podes ter contente?
E com me dares remedio, e bemfazeres
Não deixarás por isso ser quem eres?
Se minha pena esquiva e meu tormento.
Te desse de alegria alguma parte,
15 Contente viviria assim penando,
Porque, como pertendo contentar-te,
Me estaria suavemente deleitando.
Mas, claramente estou de ti notando,
Nesses teus olhos bellos
20 Se acerto hum' hora vellos,
Quão pouca conta tens com que padeço.
Ai que mui bem conheço,
Pastora, que por meu destino e sorte
Tens essa condição tão dura e forte.
25 Hum tigre, qualquer fera irracional,
Com sua asperidade tem amor,
E por elle vive em paz silvestremente:
As aves, a maior e a menor,
Todos com hum instincto natural
30 Possuem amor, e o tem naturalmente:
E tu de perfeição tão excellente,
De tanta honestidade,
De tanta divindade,
De tanta galhardia e gentileza,
35 Somente tens crueza!
Creo que com razão a ti compete
O nome de cruel Anaxarete.
Se cuidas, que servir-te não mereço
Por minha indinidade e tua valia,
40 Engana-te, pastora o pensamento;
Que, se tens gentileza e galhardia,
Eu tenho fiel amor, de tanto preço,
Que me iguala com teu merecimento.
Mas, pouco presta ter tal fundamento
45 Quem tem contrario o fado;
Amar-te me he forçado;
Teu merecer altivo me faz força;
Mas, quanto mais m’esforça
A fé de meu amor e confiança,
50 Mais me desdenhas tu, com esquivança.
Que valle tua gentileza e alegre vista?
Que valle, que sejas tão formosa dama,
Se tudo tens em ti tão submergido?
A fresca flôr, que cuberta a rama,
55 A quem o tempo gasta sem ser vista,
Nenhuma cousa presta haver nacido;
O ouro, nada valle se está escondido
Em sua propria mina,
E não se tira e affina;
60 Nem a perola, em sua concha fea
Escondida na area;
Porque, sem a humana companhia
Nenhuma cousa tem sua valia.
Assim, sua graça summa sobrehumana,
65 Angelica figura grave e honesta
O preço perde estando em ti escondida;
Pois, teu cabello d’ouro e branca testa,
Rostro bello, florida idade ufana
Gastas sem companhia em deserta vida.
70 Ó ingrata, cruel desconhecida!
O campo que merece,
Ou que te agradece,
Gastares nelle idade tão sublime?
Das-lhe, o que não estima,
75 Das-lhe, com larga mão o que me negas,
Em fim, a luz lhe dás, a mim as trevas.
Olha, que com pressa o tempo voa,
E como, com corrida pressurosa
Calladamente a fim tudo caminha;
80 Procura de gosar de tua pessoa;
Porque depois de seca a fresca rosa,
Sem preço, e sem valia fica a espinha;
Confeço-te, que a graça que ella tinha,
Se o tempo quiz tirar-lha,
85 O mesmo torna a dar-lha;
E se perde a sazão que a ennobrece,
Ao outro anno reverdece;
Mas tua sazão fresca se se perde,
Não cuides que jamais se torna verde.
90 Se te fez natureza tão preclara,
Se te dotou de graça e perfeição,
Com ella não assanhes a ventura;
Olha, que estás agora em tua sazão,
Não sejas para ti mesma avara;
95 Vê, que a fruta hade colher-se se he madura;
Se deixares murchar tua formosura,
Que agora mal despendes,
Depois, se te arrependes,
O tempo, como corre a redea solta,
100 Não torna mais a dar volta,
Nem nosso estado humano he tão felice,
Que se renove assim como a Fenice.
Como posso esperar de ti piedade,
Se tu, com teu intento deshumano,
105 Comtigo mesmo usando estás crueza;
Claro está, de meu mal o desengano:
Quem não tem pera si liberalidade
Mal poderá para outrem ter largueza.
Mas comtudo, essa roda de aspereza
110 Espero que desande,
E alguma ora abrande;
Porque, por tempo as feras das montanhas
Abrandão suas sanhas,
E o feroz cavallo altivo ufano,
115 Por tempo se sobmete ao uzo humano.
Se para atormentar-me estás contente,
Se para crueldade tens tal posse,
A esperança em mim vive segura;
Porque, por tempo a romãa se faz doce
120 E se quebra o forte diamante,
A agoa branda cava a pedra dura:
Quiçais permitirá minha ventura,
Que algum tempo veja
O bem que alma deseja;
125 E no tempo brumal o ceo espelhado
Não está sempre offuscado;
E ás vezes o mar manso tem tormenta,
Mas escassa-se o vento, a fúria assenta.
Se de qualquer trabalho, pouco ou muito,
130 Pastora, galardão igual se espera,
E dar-se a quem o merece se costuma,
De meu amor constante e fé sincera,
Bem posso com razão esperar fructo:
Se te offendo com isto em cousa alguma,
135 A vida pois se gaste e se consuma
Em tão gentil demanda,
Pois que amor o manda;
E se nella quizer fortuna ou fado,
Que seja de ti amado,
140 Não quero delle gloria mais comprida,
E quando não, morrer por ti he vida.
Canção, perdida vas, mas mais perdido
Está quem te offerece ao seco vento;
Pois, para sentir malles tem sentido,
145 E para mais lhe falta o sentimento:
Sei, que queixas ao doente he concedido,
Queixar-se de seu mal, de seu tormento,
Por tanto deixa-te hir, e donde fores,
Publica meu tormento e mal de amores.
Canção XV
A minha desgraça aumenta a cada instante, e creio que o Destino deseja matar-me, como demonstra a ferocidade com ele que se volta contra mim.
Que o sofrimento aumente, pois à medida que ele cresce e eu morro, acabará por extinguir-se no final.
Pastora cruel, que ganhas em aniquilar-me? Ou o que perderias tendo piedade de mim, se ao tratar-me com mais bondade me farias tão feliz?
E não perderias a tua face se me consolasses e favorecesses.
Se este meu sofrimento te trouxesse alegria eu rejubilaria nele, pois como tudo o que desejo é agradar-te, deleitar-me-ia nas minhas tristezas.
Mas vejo claramente nesses teus belos olhos, das poucas vezes que os consigo ver, quão pouco interesse o meu sofrimento te causa.
Ah, bem sei, minha pastora, infelizmente para mim, como a tua atitude para comigo é rígida e fria.
Até as feras silvestres, os tigres na sua fereza, sabem sentir o amor, que rege as leis da selva.
Os pássaros, desde os maiores aos menores, têm todos o natural instinto de sentir o amor e vivê-lo com naturalidade.
Mas tu, tão superior a eles, com toda a tua seriedade, com tanta sublimidade, tanta graça e beleza, só sabes ser cruel.
Pois creio que mereces bem o nome de Anaxarete, a princesa cruel de quem Ífis foi vítima.
Pensas que eu não mereço servir-te porque vales tanto, e eu valho tão pouco, mas estás enganada: se tens beleza e graça, eu tenho amor persistente, que vale muito mais e me torna igual a ti em mérito.
Mas qualquer mérito de pouco me vale, pois o destino está contra mim.
Estou fadado a amar-te, e o teu orgulho apenas fortalece o meu sentimento.
No entanto, quanto mais eu sou movido pelo meu amor e confiança, mais tu me desprezas e foges de mim.
De que te serve seres tão agradável e bonita? Para quê seres tão bela, se te escondes da minha vista?
A flor em botão, se nasce e permanece escondida sob a ramagem, irá ser consumida pelo tempo sem que ninguém a aprecie.
Nem o ouro, escondido nas veias da terra, tem qualquer valor se não for extraído e purificado.
Nem a bela pérola, fechada na sua disforme concha, e enterrada na areia.
Porque, sem estar à vista dos humanos, nada no mundo tem qualquer valor.
Esta beleza divina, este rosto angélico, honesto e sincero, perde todo o seu valor sendo-me ocultado; os teus cabelos loiros e a tua nívea testa, o teu belo rosto, orgulhoso da tua juventude florente, tu os desperdiças sem mim, numa vida solitária.
Ó tu, ignota injusta e impiedosa!
Achas que o prado onde desperdiças a tua juventude a merece, e te recompensa por ela?
Ofereces-lhe o que ele não pode apreciar, desperdiças aí generosamente o que me recusas, enchendo-o de brilho e a mim de escuridão.
Lembra-te que o tempo voa e que tudo, com diligência e discrição, chega ao seu fim.
Desfruta do teu corpo, pois se à roseira, depois de as rosas murcharem, restam apenas os espinhos inúteis e sem valor, também é verdade que, mesmo perdendo a beleza da floração, ela voltará a florescer no ano seguinte.
Mas se a tua primavera terminar, não imagines que possas recuperar a frescura da juventude.
Se a Natureza te concedeu tantos dons, se te adornou com encanto e distinção, não sejas ingrata; lembra-te que, se estás na flor da idade, não deves ser mesquinha contigo mesma. Porque o que está pronto, deve entregar-se.
Se deixares perder os teus encantos da juventude que agora desperdiças, irás arrepender-te mais tarde, olha que o tempo nunca volta atrás. Nem nós os humanos somos tão afortunados que possamos renascer como a ave Fénix.
Como podes ter pena de mim se és tão dura contigo mesma?
Esta verdade está clara para mim: quem não é generoso consigo próprio não pode ser generoso com os outros.
Espero, porém, que um dia a tua rigidez se abrande, pois até os animais mais ferozes no monte acabam por se amansar, e o cavalo, tão orgulhoso e arrogante, também por fim se submete aos trabalhos que o homem lhe dá.
Se tu sentes prazer em torturar-me, se tal crueza te excita, fica sabendo que para mim a esperança não morre.
Pois com o tempo a romã se adoça, e até o diamante mais duro acaba por se partir.
A água mole tanto bate até que fura a pedra dura.
Que o meu destino me permita um dia alcançar o meu objetivo, pois o céu não está sempre nublado nos dias cinzentos. E se uma tempestade se levanta no mar calmo, logo que o vento acalma as ondas também amainam.
Se todo o trabalho, leve ou pesado, ó pastora, merece render uma recompensa proporcional, e dá-la a quem a merece é hábito, então, do meu grande e constante amor e da minha confiança, crente posso justamente esperar algum resultado: se isso te ofende, persistirei nesta paixão para o resto da minha vida, como o amor me ordena. E se um dia for amado por ti, será a maior glória da minha vida; se isso nunca acontecer, estar apaixonado por ti é a melhor vida que posso ter.
Canção, vai-te perder, mas ainda mais perdido está aquele que te lança ao vento árido. Pois ele só para sentir males ainda sente, e para mais nada.
Como o doente tem o direito de se queixar do seu padecimento e da sua dor, vai livremente e, onde quer que chegues, proclama a minha mágoa e a minha paixão.
情歌十五
我的不幸每时每刻都在增长,
相信福运之神要让我毁灭,
命运之轮与我逆向而行,
如果生活匮乏,惩罚增加,
哪怕已然够多,残忍的夫人,
最终,会结束她的争吵。
有件事你要知道:
失去我你赢得什么?
看重我你又失去什么?
如果只需温柔地看我一眼
就能让我欣喜若狂?
你给我救命的良药和怜悯,
并不会因此而不再是你。
如果我经受的乖戾的刑罚
与折磨能给你某种快乐,
这样受苦地生活我很高兴;
因为,我只愿意满足你,
会感到极大的愉悦,
我清楚地细细欣赏
你那双美丽的眼睛,
如果能有一刻看见它们,
你便不必在意我遭受的痛苦,
唉,我非常清楚地知道,
牧女,因为我命里注定,
你那种具体的条件,如此残忍而坚强。
一头老虎,任何非理性的猛兽,
尽管粗暴,都会有爱情,
为爱情在山林里平静地生活,
飞禽走兽,无论大小,
都具有天生的本能,
自然地拥有它们的爱侣。
而你,如此卓越而完美,
端庄淑贤,
宛如天仙,
优雅翩然,
却只有残忍!
我认为有理由把你的名字
同安娜克萨瑞忒相提并论。
如果因为我的低贱和你的高贵
让你觉得我配不上你,
牧女,你想错了,
若你有傲然的优雅
我则有无价的信仰和爱情
让我与你价值相等,
可是,当法多与一个人为敌,
这样的理由纯属徒然:
我爱你是被迫的,
是你的尊贵给我力量,
可是,我爱情的信仰
与信心越是强化,
你越是轻蔑我,躲闪我。
你优雅的举止和快乐目光有何价值?
是这样美丽的贵妇有何价值?
如果你把心中的一切都如此沉没在自身?
鲜艳的花朵,被枝叶遮掩,
时间荒废,不为人所见,
她生来就毫无用处。
埋在矿脉的金子
若不将其开采提炼,
就没有丝毫价值。
珍珠隐藏在丑陋的贝壳,
埋没在泥沙中,
那因为没有人类的陪伴
任何东西便都没有了价值。
这样,你超众的极致之美,
你身材庄重诚实如天使,
它们藏在你的身中会失去价值,
你的金发,白皙的前额,
美丽的容颜,花样的年华,
没有人陪伴,会空耗在人生的荒漠。
噢,闻所未闻的负义狠心!
原野应该为得到你而感激,
感谢你把如此高贵的年华
耗费在那里?
你给了他,他并不看重的东西,
你慷概地给了他拒绝给我的东西,
总之,你给他光明,给我黑暗。
你看那时光飞逝,
万物匆匆,
默默前行,
要去寻求享受人生,
因为鲜艳的玫瑰一旦凋谢,
便失去价值只剩下棘刺。
我直白地告诉你,
玫瑰的美丽,若时间将其夺走,
还会再将其送还,
若错过欣赏她的季节,
来年她还会花繁叶茂。
可是你的美艳季节,
若失去便永远青春不再。
倘若大自然让你天生丽质,
赋予你优雅与完美,
请不要用它去激怒运气,
瞧吧,你正是如花似玉的年龄,
千万不要对自己太贪婪,
因为果子成熟就要摘取,
假使此时你让青春凋谢,
浪费你甜蜜的时光,
将来你若后悔时,
时间像脱缰的烈马
永远不会返回。
我们人类的处境,
不像再生的凤凰那样幸运。
若是你以非人道的意图,
连对自己都这样残忍,
我又怎能期待你的慈悲?
当然会对自己的不幸感到失望:
一个对自己没有自由的人,
不可能对他人宽容。
然而我期待
粗暴的命运之轮会倒转,
会有一刻的弛缓,
因为有时候,
山中猛兽的愤怒会消减,
有时候高傲的烈马
会对人类驯服。
如果你只为持续地折磨我,
如果为残忍你有这种能力,
我心中怀着可靠的希望,
因为随着时间苹果会变甜,
坚硬的钻石也会破碎,
柔弱的水滴能把石头穿透。
或许你会允许我的冒险,
让我在某个时刻看见
灵魂盼望的幸福;
能拨云破雾见到晴天,
不总是天空晦暗无光,
温驯的大海有时会起风暴,
但这情形很少见,如果风平息了怒气。
牧女,如果某种劳作,
多少会期待等同的报酬,
习惯上偿付给应当的酬劳,
我忠贞的爱情和真挚的信心,
应该有理由期待到结果。
并非是以此对你冒犯,
因为在如此美妙的请求中
生命正消耗殆尽,
因为是爱神的命令,如果其中
也有福运之神和法多的意愿,
让他爱上你,
对此我不想要长久的光荣,
若得不到,为你而死就是永生。
情歌啊,你是多么绝望,
更绝望的是那人把你托付给枯燥的风。
因为,他有体验不幸的感觉,
却缺乏对其他的感情。
如果我在抱怨,
是病人抱怨他的病痛与折磨。
因此任凭这歌声飞去,无论到哪里,
去传播我遭受的折磨和不幸的爱情。
COMENTÁRIO À CANÇÃO XV
Em curso.
对中文翻译的评注:
37 : 希腊神话,塞浦路斯的一位姑娘,青年伊菲斯爱上她,被她拒绝后自杀。阿佛洛狄忒把她变成石头,惩罚她的无情。
EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES
卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU
澳門科技大學
PROJETO FRG-25-029-UIC
A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO
卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版

