CANÇÕES


EDIÇÃO, PARÁFRASE, TRADUÇÃO CHINESA E COMENTÁRIO (TRABALHO EM CURSO)

编辑、改写、中文翻译和评论(进行中)

CANÇÃO X

Vinde cá, meu tão certo Secretario


Primeira publicação:

Texto adotado:

LUÍS DE CAMÕES

(HÁ c. 470 anos)

ORIGINAL

Canção X

Vinde cá, meu tão certo Secretario

Dos queixumes que sempre ando fazendo,

Papel, com quem a pena desaffógo.

As semrazões digamos, que vivendo

 5           Me faz o inexoravel e contrário

Destino, surdo a lagrimas e a rogo.

Lancemos água pouca em muito fogo,

Accenda-se com gritos hum tormento,

Que a todas as memorias seja estranho.

10                         Digamos mal tamanho

A Deos, ao mundo, á gente e, emfim, ao vento,

A quem ja muitas vezes o contei,

Tanto debalde como o conto agora.

Mas ja que para errores fui nascido,

15          Vir este a ser hum delles não duvido.

E, pois ja d'acertar estou tão fora,

Não me culpem tambem se nisto errei.

Se quer este refúgio só terei,

Fallar e errar, sem culpa, livremente.

20          Triste quem de tão pouco está contente!


Ja me desenganei que de queixar-me

Não s’alcança remedio; mas quem pena,

Forçado lh’he gritar, se a dôr he grande.

Gritarei j mas he debil e pequena

25          A voz para poder desabafar-me;

Porque nem com gritar a dôr se abrande.

Quem me dará se quer que fora mande

Lagrimas e suspiros infinitos,

Iguaes ao mal que dentro na alma mora?

30                        Mas quem pôde algum’hora

Medir o mal com lagrimas, ou gritos?

Direi, emfim, aquillo que m'ensinão

A ira, e mágoa, e dellas a lembrança,

Que outra dôr he por si mais dura e firme.

35          Chegae, desesperados, para ouvir-me;

E fujão os que vivem d' esperança,

Ou aquelles que nella se imaginão;

Porque Amor e Fortuna determinão

De lhes deixar poder para entenderem

40          Á medida dos males que tiverem.


Quando vim da materna sepultura

De novo ao mundo, logo me fizeram

Estrellas infelices obrigado:

Com ter livre alvedrio, mo não derão;

45          Queu conheci mil vezes na ventura

O melhor, e o peor segui forçado.

E para que o tormento conformado

Me dessem com a idade, quando abrisse

Inda menino os olhos brandamente,

50                         Mandão que diligente

Hum menino sem olhos me ferisse.

As lagrimas da infancia ja manavão

Com huma saudade namorada;

O som dos gritos, que no berço dava,

55          Ja como de suspiros me soava.

Co'a idade e fado estava concertado:

Porque quando por acaso m'embalavão,

Se d'Amor tristes versos me cantavão,

Logo m’adormecia a natureza;

60          Que tão conforme estava co'a tristeza!


Foi minh'ama huma fera: que o destino

Não quiz que mulher fosse a que tivesse

Tal nome para mi; nem a haveria.

Assim criado fui, porque bebesse

65          O veneno amoroso de menino,

Que na maior idade beberia,

E por costume não me mataria.

Logo então vi a image e semelhança

Daquella humana fera tão formosa,

70                         Suave e venenosa,

Que me criou aos peitos da esperança;

De quem eu vi despois o original,

Que de todos os grandes desatinos

Faz a culpa soberba e soberana.

75          Parece-me que tinha forma humana,

Mas scintilava espiritos divinos.

Hum meneio, e presença tinha tal.

Que se vangloriava todo o mal

Na vista della: a sombra co'a viveza

80          Excedia o poder da natureza.


Não sei como sabia estar roubando

Co’os raios as entranhas, que fugião

Par’ella por os olhos subtilmente!

Pouco a pouco invisiveis me sahião:

85         Bem como do véo humido exalando

Está o subtil humor o sol ardente.

O gesto puro, emfim, e transparente,

Para quem fica baixo e sem valia

Este nome de bello e de formoso;

90                      O doce e piedoso

Mover d’olhos, que as almas suspendia,

Forão as hervas magicas, que o Ceo

Me fez beber: as quaes por longos anos

N'outro ser me tiverão transformado,

95         E tão contente de me ver trocado,

Que as mágoas enganava co'os enganos;

E diante dos olhos punha o véo,

Que m’encobrisse o mal que assi cresceo

Como quem com affagos se criava

100       Daquella para quem crescido estava.


Que genero tão novo de tormento

Teve Amor, sem que fosse não somente

Provado em mi, mas todo executado?

Implacaveis durezas, que ao fervente

105       Desejo, que dá fôrça ao pensamento,

Tinhão de seu proposito abalado,

E corrido de vêr-se e injuriado:

Aqui sombras phantasticas, trazidas

D' algumas temerarias esperanças;

110                     As bem-aventuranças

Tambem nellas pintadas e fingidas.

Mas a dor do desprezo recebido,

Que todo o phantasiar desatinava,

Estes enganos punha em desconcerto.

115        Aqui o adivinhar, e o ter por certo

Qu’era verdade quanto adivinhava,

E logo o desdizer-me de corrido;

Dar ás cousas que via outro sentido:

E para tudo, emfim, buscar razões:

120       Mas erão muitas mais as semrazões.


Pois quem pode pintar a vida ausente.

Com hum descontentar-me quanto via.

E aquell' estar tão longe donde estava;

O fallar sem saber o que dizia;

125       Andar sem vér por onde, e juntamente

Suspirar sem saber que suspirava?

Pois quando aquelle mal m’atormentava,

E aquella dôr, que das Tartareas ágoas

Sahio ao mundo, e mais que todas doe,

130                    Que tantas vezes soe

Duras iras tornar em brandas mágoas?

Agora co’o furor da mágoa irado,

Querer, e não querer deixar de amar;

E mudar n’outra parte, por vingança,

135       O desejo privado d'esperança,

Que tão mal se podia ja mudar?

Agora a saudade do passado

Tormento puro, doce e magoado,

Que converter fazia estes furores

140       Em magoadas lagrimas d'amores?


Que desculpas comigo só buscava,

Quando o suave Amor me não soffria

Culpa na cousa amada, e tão amada!

Erão, emfim, remedios que fingia

145       O medo do tormento, qu' ensinava

A vida a sustentar-se d’enganada.

Nisto huma parte della foi passada;

Na qual se tive algum contentamento

Breve, imperfeito, timido, indecente,

150               Não foi senão semente

D' hum cumprido, amarissimo tormento.

Este curso contino de tristeza,

Estes passos vãamente derramados,

Me forão apagando o ardente gôsto.

155       Que tão de siso n’alma tinha posto

Daquelles pensamentos namorados

Com que criei a tenra natureza,

Que do longo costume da aspereza,

Contra quem fôrça humana não resiste,

160       Se converteo no gôsto de ser triste.


Dest’arte a vida em outra fui trocando;

Eu não, mas o destino fero, irado;

Qu'eu, inda assi, por outra a não trocara.

Fez-me deixar o patrio ninho amado,

165       Passando o longo mar, que ameaçando

Tantas vezes m’esteve a vida chara.

Agora exprimentando a furia rara

De Marte, que nos olhos quiz que logo

Visse, e tocasse o acerbo fructo seu.

170                    E neste escudo meu

A pintura verão do infesto fogo.

Agora peregrino, vago, errante,

Vendo nações, linguagens e costumes,

Ceos varios, qualidades differentes,

175       Só por seguir com passos diligentes

A ti, Fortuna injusta, que consumes

As idades, levando-lhes diante

Huma esperança em vista de diamante:

Mas quando das mãos cahe se conhece

180       Que he fragil vidro aquillo que apparece.


A piedade humana me faltava,

A gente amiga ja contrária via,

No primeiro perigo; e no segundo,

Terra em que pôr os pés me fallecia,

185       Ar para respirar se me negava,

E faltava-me, emfim, o tempo e o mundo.

Que segredo tão arduo e tão profundo,

Nascer para viver e para a vida,

Faltar-me quanto o mundo tem para ella!

190                    E não poder perdella,

Estando tantas vezes ja perdida!

Emfim, não houve trance de fortuna,

Nem perigos, nem casos duvidosos,

Injustiças daquelles que o confuso

195       Regimento do mundo, antigo abuso,

Faz sôbre os outros homens poderosos

Queu não passasse, atado á fiel coluna

Do soffrimento meu, que a importuna

Perseguição de males em pedaços

200       Mil vezes fez á força de seus braços.


Não conto tantos males, como aquelle

Que despois da tormenta procellosa,

Os casos della conta em porto ledo;

Qu’inda agora a fortuna fluctuosa

205        A tamanhas miserias me compelle,

Que de dar hum só passo tenho medo.

Ja de mal que me venha não m’arredo,

Nem bem que me falleça ja pretendo;

Que para mi não val astucia humana.

210                    De fôrça soberana,

Da Providencia, emfim, Divina pendo.

Isto que cuido e vejo, ás vezes tomo

Para consolação de tantos danos.

Mas a fraqueza humana quando lança

215       Os olhos no que corre, e não alcança

Se não memoria dos passados anos;

As ágoas qu’então bebo, e o pão que como,

Lagrimas tristes são, qu’eu nunca domo.

Senão com fabricar na fantasia

220       Phantasticas pinturas d’alegria.


Que se possivel fosse que tornasse

O tempo para traz, como a memoria,

Por os vestigios da primeira idade;

E de novo tecendo a antigua historia

225       De meus doces errores, me levasse

Por as flores que vi da mocidade;

E a lembrança da longa saudade

Então fosse maior contentamento,

Vendo a conversação leda e suave.

230                    Onde huma e outra chave

Esteve de meu novo pensamento.

Os campos, as passadas, os sinais,

A vista, a neve, a rosa, a formosura.

A graça, a mansidão, a cortezia,

235       A singela amizade, que desvia

Toda a baixa tenção, terrena, impura,

Como a qual outra alguma não vi mais ...

Ah vãas memorias! onde me levais

O debil coração, quinda não posso

240       Domar bem este vão desejo vosso?


Não mais, Canção, não mais; quirei fallando,

Sem o sentir, mil annos; e se acaso

Te culparem de larga e de pezada;

Não póde ser (lhe dize) limitada

245       A ágoa do mar em tão pequeno vaso.

Nem eu delicadezas vou cantando

Co' o gôsto do louvor, mas explicando

Puras verdades ja por mi passadas.

Oxalá forão fábulas sonhadas!

FELIPE DE SAAVEDRA

(2025)

PARÁFRASE

Canção X

Chegai cá minha folha de papel, confidente das minhas constantes mágoas, para as desabafar com a pena.

Contar-vos-ei os absurdos que tenho vivido por decreto do implacável e adverso Fado, inamovível por prantos ou súplicas.

Deitemos um pouco de água às vivas labaredas, brademos ao mundo este suplício, que ninguém viveu igual.

Ergamos o nosso clamor a Deus, à Terra, aos homens, e por fim ao vento, a quem eu já tantas vezes me lamentei em vão, como agora.

Mas como fui nascido para errar, tenho a certeza de que este irá ser mais um erro.

E como estou tão longe de fazer alguma coisa bem feita, não me acusem se errar uma vez mais (vindo aqui lamentar os meus males).

Pelo menos este último recurso terei: o de falar e errar sem remorso, com liberdade. Mas pobre de quem se contenta com tão pouco.


Sei bem que não se consegue a cura com queixumes, mas aquele que sofre tem de berrar se a dor lhe for insuportável.

E eu clamarei aqui, embora a minha voz seja fraca e frágil para poder desoprimir-me, pois nem com o meu brado a mágoa se reduz.

Quem me deixará pelo menos que eu verta lágrimas e solte suspiros incessantes, tantos como os infortúnios que moram na minha alma?

Mas quem conseguiria jamais medir o mal pela quantidade de choros ou de clamores?

Cantarei, por fim, aquilo que me ditam a raiva e a dor, e também a memória delas, que é mais outra mágoa dolorosa e forte.

Vinde cá, ó aflitos, escutar meu canto, e afaste-se quem tenha ainda algum alento, ou pensa que o tem; porque Cupido e o Fado ordenam que cada um entenda estes versos segundo o sofrimento de que padeça.


Ao voltar a este mundo saindo da matriz que é o sepulcro da alma, logo as estrelas da má sina me privaram de escolher o meu destino: que mil vezes provaria a felicidade, e mil vezes tive de a deixar pelo infortúnio.

E para me preparasse para a tortura que aí vinha, quando começava a abrir os olhos em menino, ordenaram que o Menino cego, Cupido, me alvejasse com as suas setas.

E chorava eu no berço já de amor, o som dos vagidos que soltava era o de gemidos de amor. Estava conforme a minha idade e o meu destino: pois quando porventura me adormeciam, se me cantavam canções tristes de amor, eu logo acalmava e adormecia ao doce som da nostalgia, pois fora fadado para a melancolia.


Serviu-me de ama de leite uma prostituta, que o Fado não deixou que uma mulher honesta se ocupasse dessa função, nem ela existiria.

Bebi assim daqueles peitos o amor desde a infância, que mais tarde em adulto continuaria a sorver, e não me mataria por estar já a ele acostumado.

Essa loba humana tão bela, branda e peçonhenta, que me acalentara aos seios do sonho, era o retrato fiel da mulher que lhe seria o modelo.

Essa paixão foi o erro que me levou ao remorso profundo.

Parecia esta mulher ter aspeto humano, mas nela faiscavam raios de deidade.

De tal forma ela se movia e se apresentava que toda a malignidade ficava orgulhosa com a visão dela, a mera sombra dela era como se estivesse viva, transcendendo a própria natureza.


Não entendo como ela conseguia captar para si os clarões, que lhe entravam pelos olhos suavemente e depois saíam subtis, como a humidade que lentamente se evapora ao sol candente.

A expressão do rosto límpida e cristalina, à qual chamar lindo e perfeito não chegava; o movimento do olhar que as almas paralisava, foram estas as poções mágicas que o Destino me deu a beber.

E que me transformaram em outra criatura durante muito tempo, e eu tão contente estava com essa mudança que iludia os meus desgostos com vários logros; e me ocultava o mal que assim ia aumentando, como se alimentado fosse pelos mimos daquela que o causava.


E que novas torturas concebeu Cupido, que decidiu não só experimentar em mim, mas também usá-las longamente?

Severidades rigorosas, que me desviavam o apetite incandescente que da paixão, e enfraqueciam-no ao ver-se repudiado: miragens alimentadas por algumas esperanças sem fundamento; a felicidade também figurada e simulada nelas.

Mas a mágoa pelo desdém que eu recebia, e que me perturbava as ilusórias esperanças, desfazia-me tais miragens.

Primeiro as suposições e a crença de que fossem verdadeiras, e em seguida o entender que o não eram;

Passei a atribuir diferentes significados às coisas que eu via e procurei explicações racionais para toda aquela atitude dela, mas não eram razoáveis.


Como suportar o afastamento da amada?

Faz-nos aborrecer de tudo o que nos rodeia.

É um estar-se distante de onde estamos, é falar coisas sem saber o que se diz; é andar sem ver o caminho, e gemer sem saber que se geme.

A paixão acometia-me, aquela mágoa infernal que é a mais profunda de todas e que transforma a fúria em doces feridas.

Por vezes indignado com a raiva do sofrimento, ao mesmo tempo desejando e não desejando o fim daquele amor, e procurando outro objeto de paixão para me vingar, pois dificilmente haveria qualquer avanço neste.

Outras vezes era a recordação dos tempos idos, feitos de puro sofrimento, aprazível e doloroso, que me mudava a raiva em tristes lágrimas de amor.


Procurava em mim desculpas quando o brando Cupido me fazia sentir culpado por amar, e amar tanto.

Eram pelo medo ao sofrimento que a vida me levava a iludir-me.

E assim gastei uma parte dessa vida, na qual a pouca felicidade que vivi, fugaz, incompleta, ténue e imperfeita, era apenas o início de longa e acerba tortura.

Esta sucessão incessante de mágoas, estes passos que em vão dava, foram extinguindo a minha paixão ardente.

E tão bem gravados tinha na alma aqueles afetos com que desde jovem havia crescido, que nesta longa tortura à qual ninguém resistiria acabei por achar prazer no sofrimento.


Desta forma tive de mudar a minha vida.

Não que o quisesse, mas um destino cruel e rábido a isso me obrigou, que eu, se pudesse nunca teria partido.

Fui forçado a abandonar a doce pátria amada e a cruzar o distante oceano, que tantas vezes poria em risco a minha querida vida.

Em Marrocos provando a raiva única de Marte, que logo quis que os meus olhos vissem e sentissem o sabor amargo do seu fruto. E neste meu rosto vereis a marca do fogo guerreiro (pólvora).

Na Ásia feito viandante, vagabundo, nómada, visitando países, línguas e culturas, céus diferentes, hábitos diferentes, só para cumprir o meu duro fado.

Fado iníquo, tu que dissipas as vidas dos homens, pondo-lhes diante uma miragem de diamante, que quando nos tomba das mãos se vê que era apenas vidro quebradiço.


No primeiro perigo, em Marrocos, faltou-me a compaixão humana (pela deficiência física), os amigos já me viravam as costas. No segundo, na Ásia, faltava-me uma terra em que assentasse, recusava-se-me um ambiente respirável, e fui perdendo a minha vida e o meu espaço.

Que mistério tão custoso e insondável, ter eu nascido para viver a vida e ser privado daquilo que o mundo nela tem de melhor para nos oferecer.

E sem sequer poder morrer, pois estava já morto por dentro.

Por fim, não houve golpe do Fado que eu não sofresse, ou riscos, ou situações incertas, ou desmandos por parte daqueles a quem este mundo louco, desde há muito tem entregue o poder sobre outros homens, preso à constante coluna do meu penar, que o incessante acosso do infortúnio de asfixiou mil vezes entre os seus tentáculos.


Não conto mais as minhas penas como o marinheiro que narra os detalhes da tempestade ao chegar a bom porto.

O Fado incerto me inflige tais desgraças que receio dar mais um passo que seja.

Já não fujo aos danos que me advenham, nem procuro quaisquer vantagens de que precise, pois a argúcia dos homens não me basta.

Só à divina providência me encomendo.

O que penso e observo por vezes me serve de consolo dos tantos males que sofro.

Mas a debilidade humana fita o presente, e do passado não recolhe mais do que vagas recordações.

A água que sorvo, o pão que engulo, o meu alimento, enfim, é o choro tão saudoso e incontrolável que me faz figurar na imaginação falsas imagens de felicidade.


Que se fosse possível que o tempo andasse para trás, e, tal como a memória, alcançasse as relíquias da juventude, e desenrolando a fita dos meus erros me devolvesse ao tempo florido, as memórias seriam agora motivo de alegria, ao rever esse namoro alegre e brando onde se iniciou a minha paixão.

E reveria os plainos, o andar, os traços, o olhar da amada, a sua nívea tez com o rosado das faces, a beleza e o encanto, a ternura e a gentileza, a amizade pura que exclui baixos intentos, carnais, polutos, como eu nunca mais iria encontrar.

Ah, memórias ilusórias. E vós, fraco coração, para onde me transportais, que ainda não consigo controlar os vossos loucos anseios?


Canção paremos aqui, paremos agora. Que senão eu ficaria cantando por mil anos sem dar por isso. E se te acusarem de seres longa e densa, diz-lhes que não se pode vazar o mar em pequeno vasilhame.

Nem eu a compus para deleite e edificação, mas para narrar o que em verdade comigo aconteceu, e oxalá eu não o tivesse senão vivido na imaginação.

ZHANG WEIMIN

(2025)

简体中文

情歌十

来吧,稿纸,我可靠的秘书,

我一直向你抱怨,

宣泄我的悲伤!

让我们来道出

无情而敌对的命运

那无缘无故的迫害,

无声的哭泣和哀求。

用一点儿水去浇灭烈火——

喊声点燃的折磨。

让我们道出巨大的苦难,

向神,向世界,向世人,向着风,

我已无数次向他们倾诉,

就像此刻我讲述的这样徒然;

可是,既然我生来是为了错误,

我不怀疑这回也是一样。

既然我很难把事做对,

人们也不要怪我再次做错。

这只是我唯一的逃避方式,

倾诉着,错误着,无辜又自由!

一个这样少许就满足的人真悲哀!


我已醒悟单凭抱怨得不到拯救,

可是悲伤会迫使人叫喊,

如果疼痛剧烈我会喊叫,

可是为了能狗宣泄

嗓音却是太弱小,

因为叫喊也不能缓解疼痛。

谁能让我将积压在灵魂里的苦难

化成嚎啕的眼泪,

和无穷无尽的叹息?

可是谁又能有一刻

用泪水和叫喊衡量苦难? 

总之,我要道出愤怒与悲愁

教会我的那些事与回忆。

另一种痛苦才是更残酷而坚定,

绝望的人们,来吧,请听我诉说,

那些生活在希望里的人,

或在希望中想象的人请你们快逃走,

因为爱神和福运之神决定

依照他们灾难的深浅

给每个人理解的能力。 


当我从子宫的坟墓

重新来到世界,

人们立刻强加给我

不幸的命运之星,

剥夺了我自由意志的权利。

我一千次知道有更好的运气, 

却被迫遵循最差的选择。

为了给我与年龄相符的折磨

当我还是婴儿,

刚刚温柔地睁开眼,

一个盲眼的孩童就来伤害我。

我婴孩时痛哭的眼泪,

是对另一段爱情的思念。

摇篮里发出哭声,

仿佛是哀叹。

伴着岁月的增长法多来做调节,

她一边晃着我的摇篮,

一边给我唱悲伤的歌,

我立刻能自然地入睡,

天性与悲伤是那样和谐。


我的保姆是一头母兽,

命运不愿意让那女人

对我有那个名称,她也不是。

我就是这样被抚养,

从婴孩时就要喝毒奶水长大,

为了在更大的年龄遇到这种毒药时

由于已习惯而不至被毒死。 

于是我立刻看见那个类似的形象, 

那个如此美丽的人类母兽,

温柔而有毒,

在她希望的乳房把我哺育;

后来我经历的所有巨大疯狂

她都是源头——

傲慢又高贵的罪过。

我似乎觉得她有人的外形,

却闪耀着神性的精神。

她是那样窈窕动人,

眼睛闪烁邪恶的灵动:

她活泼的身影

超越过大自然的力量。


我不知她是如何学会

用眼睛放电摄取人心——

心从眼睛微妙地逃向她。

渐渐隐形地从我离去,

就像炎热的阳光

把潮湿面纱的水汽蒸发,

那纯洁而透明的神情,

对她,漂亮美丽这些名词

毫无价值,太过低下,

眸子的转动,甜蜜而怜悯,

让灵魂悬停,

是上天要我服用的魔法的草药,

天长日久

把我变成了另一个人。

我如此高兴地看见这种改变,

痛苦被幻觉欺骗,

在眼前蒙上面纱,

遮掩住如此增长的灾祸,

就像被一个女人宠爱长大的人

这个人对她已经长大。 


爱神什么新类型的折磨, 

不仅要在我身上试验,

而且全部施加给了我?

严酷而无情,

对火热的欲望,给思想以力量,

我看到目的被动摇,

幻想破灭,受到羞辱,

某些大胆的希望

带来奇妙的幻影,

里面虚假地描绘着

幸福的憧憬,

可是受到蔑视的痛苦,

全部的幻想变成疯狂,

这些错误实在令人困惑。

开始是猜测怀疑,

然后把怀疑全否定。

紧接着立刻又反悔, 

给所发生的事另一种解释:

总之,为一切找理由:

可更多的是毫无理由。


谁能描绘不在场的生活?

对看到一切都感到厌烦?

离开曾经所在之地那么遥远,,

说话,不知在说什么,

走路,不知走在哪里, 

叹息,不知为何叹息?

当那种灾难折磨着我,

地狱深渊的水漫上世界,

比所有的痛苦都刻骨铭心,,

多少次发出声音,

严厉的愤怒变成轻柔的苦涩?

此刻,愤怒的痛苦中烧,

想去爱,又想不再爱,

为了报复改换到异地,

剥夺掉希望的欲望

有什么能变得如此不幸?

如今,是对往昔的折磨的思念。

纯洁,甜蜜带着苦味,,

把这些愤怒

化成爱情伤心的泪?


温柔的爱神只是

在我身上寻找借口,

他不让我对爱情感到内疚。

于是,假装对折磨的恐惧

成了我的解药。

教会我在欺骗中维持生命。

一部分生活就这样度过,

如果我从中获得某些

短暂、不完美、胆怯、

不体面的满足,

那只不过是

长久而极端的折磨的种子。

这是持续悲伤的过程,

散布四海的空茫脚步,

渐渐将我热情的兴趣熄灭。

我把爱情思想深深印灵魂

培养出多情的本性,

长久的粗暴习俗,

人类的力量对它无法抗拒,

让我变得在悲中求乐。


就这样我改换了另一种生活,

不是我想要,而是疯狂的残酷命运;

而我,即便如此,不与另一个生活交换。

人们逼迫我

背井离乡,远越重洋,

多少次宝贵的生命受到威胁,

如今经历过马尔斯罕见的狂怒,

他要亲眼立刻看见,

让我触碰到苦涩的果实。

在我这面盾牌上

能看见火药描绘的图案。

现在我到处流浪,四海漂泊,

阅遍了各种民族、语言和习俗,

各种天空的不同气候,

只是为了以匆忙的脚步

追随着不公正的命运。

岁月消耗,它的前面悬挂着

一个仿佛是钻石的希望,

然而当它从手上落下,

才知道那不过是易碎的玻璃。


危险中,我首先看见的是

缺乏人类的慈悲心,

我已见过朋友的背叛,

接下来着看见的是,

没有立足之地。

空气拒绝我呼吸。

总之,我缺乏时间与世界。

这是多么艰难而深奥的秘密:

生下来是为了活着,可为了生活,

我却缺乏世界一切为了活着的东西!

不可失去的宝贵生命

我已多少次失掉了它!

总之,世界混乱的制度,

施加给其他强大人物的古老的错误,

缺乏福运的时机,

危险疑难的关头,命运的不公——

没有我不曾经历过。

我被捆绑在苦难的石柱,

各种遭遇的碎片纠缠迫害我,,

命运一千次扬起有力的臂膀。


我不来讲述那些悲惨的经历,

像那个经历了海上风暴的人,

在快乐的港湾讲述经历的冒险。

直至今日,硕果累累的福运,

用巨大的不幸压迫着我

每迈出一步,都战战兢兢。

对我艰难困苦从来不逆转,

即便是我想去死都做不到,

人类的狡诈对我不起作用

我取决于最高力量的

天命和神意,

每当我想到并看到这些,

有时候我会把伤害看成是安慰。

可是人的脆弱,

当把目光看向发生的事,

所见只有对当年的回忆,

饮过的水,吃过的面包,

都化成永远控制不住的悲伤泪水。

除非在幻想中

创造出奇妙的快乐景象。 


若能把时间倒退

回到过去该多好!

像回忆,通过青年时代的痕迹,

重新将旧事编织,

我的那些甜蜜的错误,

带我去看见少年时代的鲜花,

和长久思恋的往事,

那是我最大的快乐。

轻松而温柔的交谈,

里边有一把把开启

我新思想的钥匙:

田野,小路,迹象,

景色,白雪,玫瑰,

美丽,优雅,娴静,仪态,

纯真的友谊,清除了一切低下的、 

人世的、不洁的意图,

好像再也见不到那个人… … 

啊,空茫的回忆!虚弱的心,

你要把我带到哪里?

我依然不能控制你这空虚的欲望?


情歌啊,不要再唱。

纵使诉说一千年,你也感受不到。

若是偶然有人责怪,这歌唱太漫长而沉重,

请你对他说,一只这样小的瓶子 

容纳不下整座海水。

我也并非以赞美的情趣

歌唱优雅的过往,

而是在解释我经历的纯粹真相,

但愿那是梦中的童话!

COMENTÁRIO À CANÇÃO X

Em curso.


对中文翻译的评注:

41 : 此处是说子宫是上次轮回的灵魂的坟墓。

51 : 爱神丘比特。

61 : 卡蒙斯常用“Fera”(母兽)来形容女人,萨维德拉教授将其解释为“妓女”。

63 : 葡萄牙文,ama (保姆,阿姨),有“爱”的含意。

167 : 残酷的战争。

EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES

卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU

澳門科技大學

PROJETO FRG-25-029-UIC

A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO

卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版