CANÇÕES | 情歌

EDIÇÃO, PARÁFRASE, TRADUÇÃO CHINESA E COMENTÁRIO (TRABALHO EM CURSO)

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CANÇÃO III

JÁ A ROXA MANHÃ CLARA


Luís de Camões

Original

Canção 3

I


Já a roxa manhã clara

As portas do Oriente vinha abrindo,

Os montes descobrindo

A negra escuridão da luz avara.

05                         O sol, que nunca para,

Da sua alegre vista saudoso,

Atrás dela pressuroso

Nos cavalos cansados do trabalho,

Que respiram nas ervas fresco orvalho,

10          Se estende claro, alegre e luminoso.

Os pássaros voando,

De raminho em raminho vão saltando;

E com suave e doce melodia

O claro dia estão manifestando.


II


15                         A manhã bela, amena,

Seu rosto descobrindo, a espessura

Se cobre de verdura

Clara, suave, angélica, serena.

Oh deleitosa pena!

20          O efeito de Amor alto e potente!

Pois permite e consente

Que ou donde quer que eu ande, ou donde esteja,

O Seráfico gesto sempre veja,

Por quem de viver triste sou contente.

25                         Mas tu, Aurora pura,

De tanto bem dá graças à Ventura,

Pois as foi pôr em ti tão excelentes

Que representes tanta Formosura.


III


A luz suave e leda

30          A meus olhos me mostra por quem morro,

Com os cabelos de ouro,

Que nenhum ouro iguala, se os remeda.

Esta a luz é que arreda

A negra escuridão do sentimento,

35                         Ao doce pensamento:

Os orvalhos das flores delicadas

São nos meus olhos lágrimas cansadas,

Que eu choro co'o prazer de meu tormento;

Os pássaros que cantam,

40          Meus espíritos são, que a voz levantam,

Manifestando o gesto peregrino,

Com tão divino som, que o mundo espantam.


IV


Assim como acontece

A quem a cara vida está perdendo,

45                        Que enquanto vai morrendo,

Alguma visão santa lhe aparece,

A mim em quem falece

A vida, que sois vós, minha Senhora,

A esta Alma que em vós mora

50          (Enquanto da prisão se está apartando)

Vós estais justamente apresentando

Em forma de formosa e roxa Aurora.

Oh ditosa partida!

Oh gloria soberana, alta e subida!

55          Se mo não impedir o meu desejo,

Porque o que vejo, enfim, me torna a vida.


V


Porém a natureza,

Que nesta pura vista se mantinha,

Me falta tão asinha

60          Como o sol faltar sói à redondeza.

Se houverdes que é fraqueza

Morrer em tão penoso e triste estado,

Amor será culpado,

Ou vós, onde ele vive tão isento,

65          Que causastes tão largo apartamento,

Porque perdesse a vida co'o cuidado.

Que se viver não posso,

Homem formado só de carne e osso,

Esta vida que perco, Amor ma deu;

70          Que não sou meu: se morro, o dano é vosso.


VI


Canção de Cisne, feita em hora extrema,

Na dura pedra fria

Da Memória, te deixo em companhia

Do letreiro de minha Sepultura:

75          Que a sombra escura já me impede o dia.

FELIPE DE SAAVEDRA

(2026)

PARÁFRASE

Canção III

A Aurora purpúrea abria as portas do Levante, e revelava as montanhas ocultadas pela treva escura, inimiga da luz. O incansável sol, com saudades de a ver, seguia a Aurora de perto, trazido por cavalos exaustos de puxarem a carruagem solar, e que absorvem das plantas o rocio recente, alongando-se brilhante, feliz e cintilante. Os pássaros esvoaçam e saltam de galho em galho, proclamando o romper do luminoso dia com os seus suaves trinados.




A linda e aprazível madrugada desvela o seu rosto enverdecendo o bosque, luminoso, brando, imaculado, tranquilo. Ó maravilhoso labor! Sois obra de poderoso e forte amor. Pois tu deixas-me contemplar constantemente, em toda a parte onde me encontre ou por onde eu ande, o semblante querubínico daquela que me faz feliz por me fazer sofrer. Casta Alvorada, agradece à fortuna por seres tu a revelar à luz do dia a beleza imensa da minha bem-amada.




Revela ao meu olhar a luz serena e feliz da Senhora que eu amo, com os seus loiros cabelos com que o oiro não ombreia, se acaso os tentar imitar. É ela a luz que afasta o negrume da saudade nas minhas deleitosas lembranças. Os relentos que pousam sobre as mimosas flores são nos meus olhos fatigadas lágrimas, que eu verto com o gozo do meu sofrimento. Os pássaros que gorjeiam são os meus espíritos cantando a beleza da expressão dela, com tão sublimes acordes que o mundo assombram.




Tal como aquele que da querida vida se despede, e que quando ela se extingue surge-lhe uma visão celeste, assim a vida, que para mim sois vós, Senhora, vai fugindo a esta minha alma, que para vós migrou, despedindo-se da prisão corporal. Para mim vós vos figurais precisamente como bela e rubra Aurora. O felicíssimo transe! Ó apoteose magnífica, elevada e sublime! Isto caso a não frustre o meu terrenal apego, porque a visão que eu tenho de vós logo me devolve à vida.




Mas a minha vida, que desta visão pura se sustentava, vai-me abandonando tão lesta quanto o sol corre a ocultar-se no firmamento todos os dias. Se pensais que é por fraqueza que eu morro em tão sofrido e miserando estado, sabei que o responsável é o Amor. Ou então sois vós, onde ele vive tão livre que nos separou longamente, para que eu com enorme saudade me extinguisse. Que se eu não posso viver unicamente como corpo, a alma que agora me abandona foi Amor quem ma ofertou. E se a mim já não pertenço, se eu morrer a perda será vossa.




Canção que és como o canto do cisne no momento derradeiro, na lápide do sepulcro te inscrevo junto ao meu epitáfio. Que as trevas já me vedam agora o dia.

ZHANG WEIMIN

(2026)

简体中文

情歌三

那颗粉红色明亮的晨星,

已经打开了东方的大门。

渴望光明的黑暗

展露出山峦。

不知疲倦的太阳

思念着她 快乐的眼神,

行色匆匆,紧随她身后,

马儿疲惫地奔跑,

嗅着草叶上新鲜的露水,

露珠闪着快乐的亮光。

小鸟飞来飞去,

从一个枝头跳到另一个枝头,

用甜蜜的曲调,

宣告白天的到来。 


美丽宜人的清晨,

在葱翠树林,

展露她天使般,

温柔娴静的脸庞。

噢,多么悦人的忧伤!

噢,爱神强大而崇高的效果!

因为他竟然允许我 

不论在哪里总是看见

那天使般的容颜,

为她我甘愿生活在忧伤中!

可是你,纯洁的奥罗拉,

要感恩运气让你这样妙曼,

因为让你如此美丽卓绝,

是展现我爱人的容貌。


这轻柔快乐的晨光

给我的眼睛展示出那个人,

我情愿为她而死,

她的一头金发

没有金子能媲美,

这光明为我甜蜜的思想

驱散了情感的黑暗。

娇嫩鲜花上的露珠,

是我眼中厌倦的泪水,

我哭泣带着对自己苦难的快感。

歌唱的小鸟

是我的精神扬起的声音,

流露出奇异的感情,

如此神性,让世界惊艳。


就像一个 正在

失去宝贵生命的人

当他濒临死亡, 

眼前出现一些神圣的视像,

对正在失去生命的我,

出现的视像就是你,我的夫人,

我的灵魂住在你身中,

(当它从这座牢狱离开)

你展现的模样

是美丽粉红的奥罗拉。

噢,多么幸运的出发!

噢,无尚崇高而升华的荣光!

假使不阻止我的欲望,

因我看见了你,最终让我死而复生。


然而将这种纯洁的视像

保留的大自然,

这样快速地消失,

仿佛阳光迅速地消失在天空。

如果你以为我必须死在

如此痛苦和悲哀的境况,

是一种软弱,

要对这死亡负责的是爱神。

或者是你,我那么无辜地活在你的身中,

是你造成了如此遥远的离别,

让我在忧思中死去。

如果我不能活着,

我,只是一个血肉之躯的人,

失去的生命,是爱神所赐 ,

我不属于我:如果我死了,受损失的是你。


天鹅临终时的哀歌:,

在坚硬冰冷的墓石上

留给你做陪伴的记忆,

是我的碑铭,

黑暗的阴影已阻止了我的白天。

COMENTÁRIO À CANÇÃO III

42 : Quando o inverno o mundo espanta, OL X.70; ambos o mundo espantando, Redondilhas 111; a voz de cisne tal que o mundo espante, Ec. V; mova-se no mundo espanto, Redondilhas 117.

49 : Canção II.49: Depois que aquela, em quem minha alma vive.

50 : Em quanto da prisão s'está apartando: a morte como libertação da alma aprisionada no corpo é um tema platónico muito do agrado de Camões. Cf. Canção X.41 e Saavedra (2025) A poesia e os astros em Camões.

51 : justamente é preferível a juntamente, que Faria e Sousa retém.

64 : isento: livre, a seu gosto.

65 : Que causastes tão largo apartamento, / Porque perdesse a vida co'o cuidado: alude à distância física, quando o poeta estava na Ásia.

70 : Ode V.42: que não queirais ver cinza uma alma vossa.


对中文翻译的评注:

6 : 晨光女神。

EDIÇÃO DIGITAL BILINGUE DA OBRA DE CAMÕES

贾梅士作品双语数字版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU

澳門科技大學

PROJETO FRG-25-029-UIC

A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO

卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版


Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau