ODE IX
Detém um pouco, Musa, o largo pranto
Primeira publicação:
Texto adotado:
[Selene e Endimion]
Ode 9
I
Detém um pouco, Musa, o largo pranto
que Amor te abre do peito;
e vestida de rico e ledo manto,
demos honra, e respeito
àquela cujo objeito
todo o mundo alumia
trocando a noite escura em claro dia.
II
Ó Délia, que apesar da névoa grossa,
com os teus raios de prata
a noite escura fazes que não possa
encontrar o que trata,
e o que na alma retrata
Amor, por teu divino
raio, por que endoudeço, e desatino;
III
Tu, que de fermosíssimas estrelas
coroas, e rodeias
tua cândida fronte, e faces belas;
e os campos fermoseias
com as rosas que semeias,
com as boninas que gera
o teu celeste humor na primavera:
IV
Pois, Délia, do teu céu vendo estás quantos
furtos de puridades,
suspiros, mágoas, ais, músicas, prantos,
as amantes vontades,
umas por saudades,
outras por crus indícios
fazem das próprias vidas sacrifícios.
V
Vê o teu Endimião por estes montes,
o Céu suspenso olhando;
e teu nome, com os olhos feitos fontes,
em vão sempre chamando,
pedindo (suspirando)
mercês à tua beldade,
sem que ache em ti uma hora piedade.
VI
Por ti feito pastor de branco gado,
nas selvas solitárias,
só de seu pensamento acompanhado,
conversa as alimárias
de todo amor contrárias,
mas não como ti duras,
onde lamenta, e chora desventuras.
VII
Para ti guarda o sítio fresco Délio
suas sombras fermosas:
para ti, Erimanto, Olimpo, e Pélio
as mais purpúreas rosas;
e as drogas mais cheirosas
de este nosso Oriente
guarda a feliz Arábia mais contente.
VIII
De qual pantera, ou tigre, ou leopardo
as ásperas entranhas
não temeram teu fero, e agudo dardo,
quando por as montanhas
mais remotas, e estranhas
ligeira atravessavas,
tão fermosa que a Amor de amor matavas.
IX
Das castas Virgens sempre os altos gritos,
clara Lucina, ouviste,
renovando-lhes as forças, e os espritos;
mas os de aquele triste,
já nunca consentiste
ouvi-los um momento,
para ser menos grave seu tormento.
X
Não fujas, não, de mim, ah! Não te escondas
de um tão fiel amante!
Olha como suspiram estas ondas,
e como o velho Atlante
o seu colo arrogante
move piedosamente
ouvindo a minha voz fraca, e doente.
XI
Triste de mim! Que alcanço por queixar-me,
pois minhas queixas digo
a quem já ergueu a mão para matar-me
como a cruel imigo?
Mas eu meu Fado sigo,
que a isto me destina,
e que isto só pretende, e só me ensina.
XII
Ó! quanto há já que o Céu me desengana,
e eu sempre porfio
cada vez mais na minha teima insana.
Tendo livre alvedrio
não fujo o desvario;
porque este em que me vejo,
engana com a esperança o meu desejo.
XIII
O quanto melhor fora que dormissem
um sono perenal
estes meus olhos tristes, e não vissem
a causa de seu mal
fugir, a um tempo tal,
mais que de antes proterva,
mais cruel que Ursa, mais fugaz que Cerva.
XIV
Ai de mim, que me abraso em fogo vivo,
com mil mortes ao lado,
e quando morro mais, então mais vivo:
porque [o] tem ordenado
meu infeliz estado,
que quando me convida
a morte, para a morte tenha vida.
XV
Secreta noite amiga, a que obedeço,
estas rosas (porquanto
meus queixumes me ouvistes) te ofereço;
este fresco amaranto
húmido ainda do pranto
e lágrimas da Esposa
do cioso Titão, branca, e fermosa.
Ode IX
I
Musa, suspende o longo choro que Amor nos tem causado e envergando as mais vistosas e suntuosas vestes honremos e cultuemos aquela deusa cujo planeta ilumina o orbe inteiro, mudando as trevas em cintilante dia.
II
Ó deusa nascida em Delos, que mesmo através das nuvens espessas, com os teus raios prateados impedes o breu noturno de encobrir os que se amam, graças ao teu celestial clarão que me enlouquece, e alucina;
III
Tu, que nas [três] harmoniosas fases cinges e envolves o teu claro rosto com lindíssimas estrelas, e os campos adornas com as roseiras que neles fazes germinar, e com os bem-me-queres que na primavera se nutrem do teu orvalho:
IV
pois, Selene, aí dos altos céus contemplas quantas quebras de segredos, quantos gemidos, dores, lamentos, cantos e choros, têm levado aqueles que se amam a sacrificar as próprias vidas, uns devido à dor da distância, outros por cruéis suspeitas [de traições].
V
Olha para mim, que sou este teu Endimion, nestes cimos olhando fixamente para o céu; e clamando com os olhos chorosos pelo teu nome, implorando (e gemendo) por favores à tua beleza, sem achar em ti um só momento de compaixão.
VI
Por ti tornei-me pastor de ovelhas nos solitários bosques, na companhia apenas das minhas meditações, falando com as bestas tão distantes do amor, mas não tão insensíveis como tu, deplorando e lastimando as minhas desgraças.
VII
Para ti o [monte Cinto] na ilha de Delos se enche de belos recantos umbrosos; e para ti reservam [os montes] Erimanto, Olimpo e Pélion as mais violáceas rosas; e cá neste Oriente o Sul da Arábia produz jubiloso o incenso [para as tuas aras].
VIII
E qual foi a pantera, tigre, ou leopardo, que não temeu ser trespassado pelo teu ferino e penetrante dardo, quando ágil deambulavas pelas mais longínquas e remotas serras, tão bela que o próprio Amor de amores por ti cairia?
IX
Luminosa deusa, tu que sempre escutas os gritos aflitos das puras virgens [nas menarcas], alentando-lhes as energias e os ânimos; mas que os clamores deste infeliz nunca acedeste a escutar por um só instante, para aliviar o meu suplício,
X
não te esquives assim de mim, nem te ocultes a um tão dedicado amante! Olha como gemem aqui as vagas do mar, e como o ancião Atlante volve caridoso o altivo pescoço para mim, para escutar a minha débil e exausta voz.
XI
Pobre de mim que nem protestar posso, pois lamento-me perante ti, que já levantaste a mão para me abater como se eu fora um feroz inimigo! Mas eu prossigo o meu destino, que tudo isto me reservou, e só isto me deseja e assim me educa.
XII
Ó, há quanto tempo que o céu me avisa, e eu sempre vou insistindo na minha louca teimosia. Mesmo tendo a liberdade de escolher a minha vida, ainda assim não fujo da insânia que em mim se instalou, já que ela com [falsas] esperanças sustenta o meu desejo.
XIII
Como fora preferível que estes meus olhos magoados dormissem um sono eterno, e não mais vissem a causadora do infortúnio deles escapar-se com tal presteza, cada vez mais insolente, mais selvagem do que uma ursa, mais lesta do que uma corça.
XIV
Infeliz de mim, que me queimo em chama ardente, com mil amores ao flanco, pois é quando eu mais amo que eu mais vivo. Porque assim o determinou o meu triste Fado: que quando a paixão me chama, mais eu viva para amar.
XV
Misteriosa noite, e venerável companheira, estas rosas te consagro, já que as minhas penas escutaste; e também este amaranto novo, ainda aspergido do orvalho da alva e bela Aurora.
情歌一
美丽优雅的夫人,当我看见
你美若天仙,金发和白雪的前额,
标致的嘴唇,真诚的微笑,
白玉的项颈,水晶的酥胸,
我没有别的欲望,
只求你让我看见你的完美,
我向众神和世界宣布,
我是属于你的,
在哭泣的泪水里燃烧。
对爱你的我,
见我那么懂得爱你,我甚至爱上自己,
我对自己那么心慌意乱,
我为你对自己充满嫉妒。
如果由于精神懦弱,
生活在不理解的悲伤,
又甜蜜又痛苦;
我逃离自己,
跑去躲藏进你的眼神,
我感觉幸福,嘲笑我受的折磨,
我该抱怨谁?
如果在我遭受的苦难中,
你给了我生命。
是我自己不配得到
这样无价的美好?
可是我都不能对自己这样想,
这样对你,是我太傲慢。
假使爱神出于某偶然,
在欲望部分出差错,
除了观赏你我尚有所图,
有某些无耻疯狂想法,
软弱只是肉体的,是世间的,
但不是思想的,是神性的,
如果在崇高的想象中,
我在视像中沉迷,或犯下原罪,
请你原谅我所看见的情景。
然而,由于我抗拒
如此大胆而空幻的欲望,
在你纯洁的目光里我变得坚强,
用你的美丽做我的甲胄。
你的黛眉弯弯,
是爱神拉满的弓,
用你美丽的头发做弓弦,
因为你的一切对他都适合,
你眼睛的光芒是利箭,
刺伤抬眼看向它们的人。
那样美丽的眼睛,
超越过爱神的武器,
用来摧毁灵魂。
然而如果痛苦是巨大的,
回报的是崇高的不幸,
用来杀戮的武器是运气,
你还欠他一个死亡。
美丽的夫人,一个人
抱怨的眼泪,叹息,思想,
是对你感到痛苦而受宠若惊。
爱你的人还想要什么更美妙的事,
哭泣着,甜蜜地想象,
来释放他的痛苦?
一个活着不快乐的人
不必减轻他的悲伤,
因为他会感激悲伤;
扬起快乐的脸庞,
来忍受折磨,为了不愧得到它们:
一个抱怨不幸的人才受苦,
因为他不懂得这份荣光。
因此如果我的思想
变得有些低落而愁苦,
是因为不知道这个秘密:
这样我有理由
不但原谅爱神的折磨
而且还要感激他的过失。
因为这种信心,我值得
有那双眼睛的陪伴,饱含宠爱
和甜蜜的笑容。
可是啊!一个天堂
不能赢得另一个天堂。
我的希望如此纠结,
用得不到的幸福来自我满足。
如果我有理由拒绝救赎,
情歌呵,你知道只因为看不见希望,
我才用言辞欺骗欲望。
COMENTÁRIO À ODE IX
?? : um tempo > uma velocidade
EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES
卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU
澳門科技大學
PROJETO FRG-25-029-UIC
A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO
卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版

