ODE I
Não de cores fingidas
Primeira publicação:
Texto adotado:
[O triunfo do poeta]
Ode 1
I
Não de cores fingidas
a minha casa a vista representa,
nem as traves sustenta
sobre colunas de África trazidas,
05 não de Átalo, as riquezas possuídas
logrando herdeiro escasso
mimoso da fortuna a vida passo.
II
Com Febo em companhia
enganando com as musas a pobreza
10 emprego noite e dia
no que o mundo pouco estima e preza,
nem quero ter na Vida mais riqueza,
tenha outrem para a Vida
as Veias de Pactolo, as mãos de Mida.
III
15 Que mais ditosa sorte
que discorrendo os anos docemente,
viver antes da morte
na Vida, mui quieto e contente,
que estado mais seguro e eminente
20 que a fama ter segura
do tempo, da fortuna, e da Ventura.
IV
As pirâmides, e o Mausoléu,
com o rico Templo Eleu
de marfim feito, os tempos desfizeram
25 as estátuas de Escopas, não puderam
sustentar-se contra eles
nem as tábuas gentis, do insigne Apeles.
V
Mas Vós musas aos Vossos
das injúrias dos tempos segurais,
30 e quaisquer feitos Vossos
às Leis da eternidade consagrais,
com a lira de Orfeu ressuscitais
a Virtude esquecida
qual Eurídice morta, à doce Vida.
VI
35 Estas as ervas eram
da mágica Medeia preciosas,
que o Velho converteram
a fresca idade, ah, obras milagrosas,
estas eram as de Glauco poderosas
40 que tanto que as comia,
feito imortal, o humano ser perdia.
VII
Aquela por quem Troia se perdeu,
nem foram sós na espada
Diomedes, Ajax, e Idomeneu,
45 nem primeiro seus muros defendeu,
Heitor aventureiro,
nem em vencer, Aquiles foi o primeiro.
VIII
Muitos outros passaram
que perderam imortal merecimento,
50 porque os não libertaram
as musas, do perpétuo esquecimento,
que elas deram enfim seguro assento,
nos campos fortunados
a todos os Heróis celebrados.
IX
55 Mas como a nau se alegra
quando com novo lume os Céus abrindo,
desterra a nuvem negra,
o mar se assenta, as ondas vão caindo,
tal eu, pois novo brio vou sentindo
60 voar pudera sem penas
ao monte do Parnaso, e Atenas.
X
Se é mais que em brando lenho
em diamante esculpir qualquer figura,
ter em tão duro engenho
65 maior louvor e glória se assegura,
que se este bem alcanço da Ventura,
de algum saber interno
quanto escrever será louvor eterno.
Ode I
I
Não está a minha casa adornada com pinturas artificiais de paisagens, nem as traves do meu teto assentam em colunas vindas de África, nem eu fruo a minha vida como um afortunado herdeiro da fortuna de Átalo.
II
Tenho Apolo por companhia e com os meus versos iludo a penúria, consumindo dias e noites na escrita da poesia, algo que o vulgo desestima e menospreza; mas eu recuso a opulência e deixo aos outros o [aurífero] leito do rio Pactolo, ou o [aurífico] toque de Midas
III
O que poderá ser melhor do que passar tranquilamente os restantes dias da minha vida calmo e satisfeito, e que existência será mais garantida e preferível à de ter a minha fama preservada dos acidentes dos séculos, do destino e da sorte?
IV
Já do Egito as pirâmides passaram, tal como o Mausoléu [de Halicarnasso] [e a estátua de Zeus] criselefantina no templo de Olímpia [na Élide], e os séculos arruinaram as esculturas de Escopas de Paros e não pouparam os quadros pintados pelo célebre Apeles de Cós.
V
Ao contrário destas artes, vós, musas da poesia, protegeis da passagem dos séculos o renome daqueles que inspirais com obras perenes; e com a música de Orfeu fazeis renascer a beleza da poesia antiga, que em tempos devolveu Eurídice à vida.
VI
É como se vós me oferecêsseis as poderosas plantas da feiticeira Medeia, capazes de restituir a juventude ao ancião Aison; ou as milagrosas ervas que Glauco ingeriu, e que o tornaram imortal, apartando-se da sua natureza humana [para ir habitar os mares].
VII
Helena não terá sido a primeira a causar a perdição de um reino, e outros heróis houve para além de Diomedes, Ajax e Idomeneu, nem Heitor foi o primeiro a defender a cidade natal, tal como também outros guerreiros vitoriosos existiram antes de Aquiles.
VIII
O que faltou a esses outros heróis para se eternizarem foi quem, com o poder das musas, lhes salvasse o nome do eterno oblívio, pois apenas os heróis que elas celebram alcançam lugar garantido nos plainos dos bem-aventurados.
IX
A nave rejubila quando o sol torna a brilhar, expulsando as nuvens sombrias. O mar nessora se amansa, as ondas amainam-se. Assim me sinto eu com a minha poesia, tão radiante que poderia voar sem asas até ao cume do Parnaso e a Atenas.
X
Se dá mais honra e fama esculpir em diamante rijo do que em dócil madeira, então está-me garantida a máxima recompensa e renome, pois tendo tão forte inspiração, se a conseguir trabalhar com arte a minha poesia me imortalizará.
一
我的家不展现
彩绘的装饰,
屋梁也不架在
非洲运来的柱子上;
我也不是阿塔罗的财富
幸运的继承者,
度过备受宠爱的人生。
有福玻斯的陪伴,
缪斯女神掩饰我的贫穷,
夜以继日地创作,
不被世人珍视的诗歌,
我不想获得别的财富:
任他人拥有帕克托洛斯河,
弥达斯的手,触物成金。
什么能比安详地
度过岁月更幸运?
平静而满足,
度过人生?
什么能比这状态更安全卓越,
获得时间、福神和命运的保证,
留下万世的英名?
埃及的金字塔、
哈利卡纳索的王陵,
奥林匹斯宙斯神庙的雕像,
都会在时间中湮灭;
时间摧毁斯科帕斯的雕塑、
阿佩莱斯的杰出绘画,
谁都不能抗拒它的威力。
可是,缪斯女神,
你们让所保护的诗人,
免受时间的诅咒。
因为你们的灵感激发出杰作
被赐予永恒的神圣法律。
用俄尔甫斯的里拉恢复被遗忘的美德,
就像给死去的欧律狄克甜蜜的生命。
这是珍贵的草药,
具有美狄亚的魔法,
让老人返回青春,
啊,神奇的杰作,
格劳科斯的强大草药
吃了它,长生不老,
却失去了人形。
那个特洛伊为她而毁灭的人
不是第一个被劫持;
也不仅仅是狄俄墨德斯、
埃阿斯和伊多墨纽斯在刀剑丛中,
酷爱冒险的赫克托尔,
不是第一个保卫他的城池,
阿喀琉斯也不是第一个战无不胜。
他们之前,有无数英雄都成为过往,
失去应该获得的永生,
因为缪斯女神
不让他们解脱永恒的遗忘。
只有她们赞颂的英雄
才能在幸运的领域
获得可靠的位置。
可是,像太阳重新照耀天空
驱散乌云,
风平浪静,
航船上一片欢呼雀跃,
我便是如此,欣喜若狂,
不翼而飞,
升到帕纳索斯神山和雅典。
如果不是在松软的木头
而是在金刚石雕刻形象,
如此艰巨的创作
保证得到赞誉和光荣。
如果我从命运获得
才华与灵感,
我的写作将获得永恒的赞美。
COMENTÁRIO À ODE I
Em curso.
对中文翻译的评注:
14 : 弥达斯搭救了酒神狄俄倪索斯的师傅,酒神为报答他,许诺满足他一个愿望:他要点石成金;他的手所触之物都变成金子,包括食物,甚至把女儿变成金雕像,他请求酒神收回法术,酒神让他在帕克托罗斯河中洗手,当触及河水,水中的沙石都变成黄金,也因此解除了魔咒。
23 : 古希腊城市,在卡利亚南部,有世界七大奇迹之一的摩索拉斯王陵。
26 : 希腊雕刻家,建筑师,-295 至-350.。
27 : 古希腊画家。生活年代约在公元前四世纪。
34 : 古竖琴。
40 : 《变形记》,格劳科斯是一个渔民,发现一种草药能让鱼起死回生,好奇之下吃了这种草药,变成鱼尾人身。后被封为海神。
43 : 海伦。
50 : 此处缪斯女神,指诗歌,是说诗歌给英雄人物永恒的声誉。
EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES
卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU
澳門科技大學
PROJETO FRG-25-029-UIC
A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO
卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版

