ODES | 颂歌

EDIÇÃO, PARÁFRASE, TRADUÇÃO CHINESA E COMENTÁRIO (TRABALHO EM CURSO)

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ODE II

Ainda que do céu vos seja dada


[CONTRA O ÁVIDO]

Luís de Camões

Original

Ode 2

I

Ainda que do Céu Vos seja dada

muito maior riqueza

que quanta Arabia preza,

e quanto a India tem entesourada,

05          e para edificar acheis pequeno

o mar de Apúlia, e todo o mar Tirreno.


II

Se a força da cruel necessidade

com cravos de diamante

não deixar ir avante

10          da maltratada Vida a liberdade,

ireis às mãos da morte, e do receio,

que primeiro que a morte a matar veio.


III

Mais livres nas campinas descobertas,

por terra conhecida,

15          passam a leda Vida

os Citas, que não têm moradas certas,

e nos carros que de altos troncos fazem

por costume as suas Casas trazem.


IV

Vida têm mais segura os duros Getas

20          a quem dão largos frutos

as terras sem tributos,

e sem demarcações, sempre quietas,

o trabalho que têm o ano lho mede,

e nele em sorte igual cada um sucede.


V

25          Ali com corações nunca danados

as madrastas singelas,

sem se temerem delas

governam como mães os enteados,

nem por dote a mulher rege o marido,

30          nem tem noutros amores o sentido.


VI

A Virtude dos Pais é dote grande,

e com o marido alheio

um casto, e são receio

que nunca fora dos limites ande

35          ninguém contra a razão pecar se atreve

ou por preço da culpa a Vida deve.


VII

Todo o que aplacar povos deseja

se por pai das cidades

quer que longas idades

40          seu nome nas imagens posto esteja,

cobre fama com o tempo, acanhe e vença

a malregida fúria da licença.


VIII

Até quando será que não amemos

a virtude presente,

45          e que depois de ausente

quando já maltratá-la não podemos,

para que nossa inveja descubramos

a buscá-la com os olhos acudamos?


IX

De que servem queixumes escusados

50          se não são poderosos

castigos rigorosos

para cortar os herpes aos pecados,

que montam tantas leis, quantas fazemos

se nunca com os costumes as enchemos?


X

55          Se nem a parte que com fogo eterno

o mundo tem fechada,

nem a que tem guardada

por mão do Norte frio, e frio inverno

nem a neve na terra endurecida

60          fazem com que o mercador poupe a vida.


XI

Vencem com novas artes a braveza

do mar os navegantes,

que quaisquer males antes

fazer [qu]e suportar manda a pobreza

65          e como se de longe a olhara

o alto da Virtude desampara.


XII

Ou nós no Capitólio onde nos chama

ou nalgum mais chegado

o povo alvoroçado

70          lancemos estes bens que o mundo ama,

estas pedras, e este ouro sem proveito

que tanto dano tem no mundo feito.


XIII

Se estamos arrepesos arranquemos

a raiz ao desejo

75          e enquanto há bom ensejo

com mais áspero ensino procuremos

dar forma às condições na tenra idade

que não tem para o bem dificuldade.


XIV

Não sabe o moço nobre, mal criado,

80          ter-se no seu ginete,

nem nas forças promete

que será para a caça tão ousado

quão destro é no pião, e quão perdido

pelos jogos que as leis têm vedado.


XV

85          Em tanto o Pai assim traz enganado

hóspede e companheiro,

e só para o herdeiro

anda continuamente desvelado

e enfim cresce a fazenda, e sem fim cresce,

90          mas sempre em não sei quê, curta parece.

FELIPE DE SAAVEDRA

(2024)

PARÁFRASE

Ode II

I

Ainda que possuísseis maior fortuna do que aquela que a Arábia encerra, ou a que a Índia acumula, e que achásseis parcos os mares da Itália para lhes reclamar suficiente solo para construir a vossa mansão,


II

viveríeis no pavor de que a cruel penúria cravasse as presas em vós, terror que vos veio matar antes mesmo da própria morte.


III

Bem mais liberto vive o povo nómada dos citas nas terras por onde passa, e nas casas que são carroças de madeira com que eles percorrem as vastidões.


IV

E mais garantida é a vida dos rudes getas, obtendo copiosa safra sem pagar corveias e sem vedar os campos, revezando entre si as fainas agrícolas.


V

Naquela sociedade as madrastas puras, jamais malfazejas, são como mães para os enteados que as não temem; e nem por ser mais rica assume uma esposa que pode mandar no cônjuge, nem se atreve a seduzir amantes.


VI

O maior dote é o bom nome da família, e por um temor puro e saudável a esposa nunca cobiçará os maridos das outras mulheres, nem transporá as barreiras do tálamo conjugal; não há quem se atreva a cometer ofensas que lhe possam custar a vida.


VII

Se um governante quiser pacificar as gentes, ser tido por um pai da pátria, e desejar que o seu nome seja preservado em estátuas pelos tempos vindouros, deverá colocar um freio à libertinagem.


VIII

Arriscamo-nos a não prezar os valores que hoje temos, até que seja já demasiado tarde e os procuremos nostalgicamente em vão, depois de os termos abandonado.


IX

Para que servem queixas inúteis se não há severas penas para atalhar os vibriões dos males, e para que se fazem tantas leis que ninguém cumpre?


X

Se a cobiça do mercador o leva, com perigo de vida, às terras que o calor torna inabitáveis, e também àquelas interditas pelo álgido vento Norte e pela invernia, e às que estão sob o gelo...


XI

O marinheiro, esse, enfrenta a violência do mar com novas manhas, pois a miséria em que vegeta faz-lhe preferir praticar as crueldades a sofrê-las, desertando da Virtude que a pobreza vê como estando demasiado longe.


XII

Teremos de ir ao Capitólio, onde a turba nos provoca, ou a algum outro montemais próximo, arrojar estas riquezas que o mundo tanto idolatra, estas pedrarias e joias inúteis que tanto mal nos têm feito.


XIII

Se isto lamentamos, combatamos a cupidez e demos enquanto é tempo um ensino mais rigoroso aos jovens, pois inculcar disposições benignas é mais fácil na primeira idade.


XIV

O vosso filho, um jovem aristocrata inútil, não sabe segurar-se no cavalo, e a fraqueza que demonstra indica que não virá a ser tão bom caçador quanto é perito em lançar o pião, e jeitoso em outros folguedos que as leis proíbem.


XV

Enquanto isso, o pai dele rouba o cliente e o sócio, e vive só para mimar o progénito, de tal forma que por mais que ele enriqueça, e em verdade o património lhe cresce, ainda assim ele sempre se lhe afigura escasso.


ZHANG WEIMIN

(2024)

简体中文

颂歌二

比阿拉伯和印度

保藏的珍宝

还要多的巨大财富,

从普利亚到第安尼勒

都不足给你建造宫殿。



如果被迫,残酷的贫困,

用钻石的钉子,

不让你获得自由,

受虐地生活下去,

那种恐惧,比死神

还要更早把你杀死。



斯基泰人,居无定所,

在空旷的原野游荡,

更加自由自在

快乐地生活,

原木打造的大篷车

就是他们习惯携带的家。



盖塔人的生活更加稳定

肥沃的土地给他们丰硕的收成,

没有赋税徭役,

没有私产田界,

永远平静无争,

按照一年的劳作平均分配。



那里的人没有邪恶之心

后母对继子视如己出;

子女对继母没有恐惧

她像亲母一样管理家政。

妻子不因嫁妆主宰丈夫,

生活中也不会移情别恋。



父母给的最大嫁妆是美德,

还有贞洁,对别人的丈夫,

怀着空洞的恐惧,

从来不越界,

谁也不敢违背理性去犯罪,

或为罪责付出生命的代价。



那些希望自己的人民

摆脱狂怒和死亡,

让他的名字

在城市和乡村,

有慈父形象的统治者,

应该勒住败劣风俗的缰绳。



难道说我们不热爱

今天的美德,

直到为时已晚,

我们不能置之不顾,

痛心疾首,再连忙

用眼睛去寻找它?



徒然抱怨有何用

如果没有权势?

严厉的刑罚

来割掉罪人的脓疮;

订立这样多法律

却从来也不执行?



如果被永恒的火

封闭的世界;

北方的冰天雪地;

冬天的酷寒,

大雪封冻大地,

商人都不惜性命。



航海者用新的技术

战胜大海的凶猛;

贫穷让他们面对

和承受任何苦难。

好像苍天无眼

遗弃了高尚的美德。



要么我们站在卡比托利欧山

唤起群情激奋的百姓;

要么我们去到某个大海,

把世人喜爱的财富

无用的石头和金子统统抛掉,

它对世界造成了多少伤害?



没有沉溺的恶习,

将欲望连根拔除;

趁着大好时光,

给青年严格的教育,

在幼年时期进行塑造,

培养他们向善并非难事。

 


贵族青年,游手好闲,

既不会骑马,

也没有体力。

他不是一位勇敢的猎人

只沉迷于游戏狂欢,

法律禁止的恶习。




而他的父亲

欺骗客人和同伴,

只为了让继承人

继续挥霍享乐:

最终财富无限增长

可不知为何,总也不会满足。

COMENTÁRIO À ODE II

12 : Cf. Os Lusíadas, IV.29,3-5:

E nos perigos grandes, o temor
É maior muitas vezes que o perigo;
E se o não é, parece-o...

35 : contra a razão [a] pecar

36 : Segundo a lex Iulia de adulteriis coercendis, promulgada no tempo de Horácio por Augusto, o adultério podia, em certos casos, ser punido com a morte.

37-42 : Estes versos parecem aludir às chamadas reformas morais de Augusto, consubstanciadas na lex Iulia de maritandis ordinibus, e também na lei citada anteriormente sobre o adultério, esta última bastante controversa dado que, segundo acerbas críticas de Marco António presentes na correspondência com Augusto, citada textualmente por Suetónio, o próprio Augusto teria cometido adultério com a sua futura esposa Lívia, entre outros casos escandalosos. Cf. Vita diui Augusti, LXIX: Adulteria quidem exercuisse ne amici quidem negant... Porém, estas leis poderiam responder a uma necessidade socialmente sentida, e Horácio faz-se aqui o porta-voz desse sentimento, ou procura defender a nova legislação. Já as Ordenações Manuelinas, vigentes ao tempo de Camões, previam somente penas de multa e degredo para os adúlteros., V.25.

63 : que quaisquer males[,] antes

68 : ou nalgum [mar] mais chegado

85 : Em tanto = Entretanto

___

Datação: Lisboa, até 1547.

Primeiras publicações:

(1575-77) Códice Juromenha 98r-99v, do mesmo [identificada a autoria por Camões]

(1580-95) Códice Verdelho 10v-12v [s/atribuição]

(1620-30) Cancioneiro de Fernandes Tomás 69v-70v [erron. atribuído a Soropita]

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A Ode Segunda também é uma tradução, neste caso integral, da ode de Horácio III.24, Intactis opulentior.

Adscrevível igualmente ao período anterior à ida de Camões para Ceuta, até 1547.

Cf.

  • Horácio, ode II.15, para a primeira estrofe.

对中文翻译的评注:

4 : 普利亚海在 意大利东南岸和第安尼勒海在意大利西岸。

13 : 古代中亚一带的游牧民族。

19 : 居住在多瑙河下游一带的民族。

71 : 指宝石类。

EDIÇÃO DIGITAL BILINGUE DA OBRA DE CAMÕES

贾梅士作品双语数字版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU

澳門科技大學

PROJETO FRG-25-029-UIC

A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO

卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版


Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau