CANÇÕES |
情歌
EDIÇÃO, PARÁFRASE, TRADUÇÃO CHINESA E COMENTÁRIO (TRABALHO EM CURSO)
编辑、改写、中文翻译和评论(进行中)
CANÇÃO VI
Com força desusada
Canção 6
I
Com força desusada
Aquenta o fogo eterno
Uma Ilha cá nas partes do Oriente,
De Estranhos habitada,
05 A donde o duro Inverno
Os campos reverdece alegremente.
A Lusitana gente
Por armas sanguinosas
Tem dela o senhorio.
10 Cercada está de um rio
De marítimas águas saudosas.
Das ervas que aqui nascem,
Os gados juntamente e os olhos pascem.
II
Aqui minha ventura
15 Quis que uma grande parte
Da vida, que eu não tinha, se passasse;
Para que a sepultura
Nas mãos do fero Marte
De sangue e de lembranças matizasse.
20 Se amor determinasse
Que a troco desta vida,
De mim qualquer memória,
Ficasse como história
Que de uns formosos olhos fosse lida;
25 A vida e a alegria
Por tão doce memória trocaria.
III
Mas este fingimento,
Por minha dura sorte,
Com falsas esperanças me convida.
30 Não cuide o pensamento
Que pode achar na morte
O que não pode achar tão longa vida.
Está já tão perdida
A minha confiança,
35 Que de desesperado
Em ver meu triste estado,
Também da morte perco a esperança.
Mas oh! que se algum dia
Desesperar pudesse, viveria!
IV
40 De quanto tenho visto
Já agora não me espanto,
Que até desesperar se me defende.
Outrem foi causa disto,
Pois eu nunca fui tanto
45 Que causasse este fogo que me encende.
Se cuidam que me ofende
Temor de esquecimento,
Oxalá meu perigo
Me fora tão amigo,
50 Que algum temor deixara ao pensamento.
Quem viu tamanho enleio,
Que houvesse aí esperança sem receio?
V
Quem tem que perder possa,
Só pode recear.
55 Mas triste quem não pode já perder?
Senhora, a culpa é vossa,
Que para me matar
Bastara uma hora só de vos não ver.
Pusestes-me em poder
60 De falsas esperanças:
E do que mais me espanto,
Que nunca vali tanto
Que visse tanto bem, como esquivanças.
Valia tão pequena
65 Não pode merecer tão doce pena.
VI
Houve-se Amor comigo
Tão brando, ou pouco irado,
Quanto agora em meus males se conhece.
Que não há maior castigo
70 Para quem tem errado,
Que negar-lhe o castigo que merece.
Da sorte que acontece
Ao mísero doente
Da cura despedido,
75 Que o Médico advertido
Tudo quanto deseja lhe consente,
O Amor me consentia
Esperanças, desejos e ousadia.
VII
E agora venho a dar
80 Conta do bem passado,
A esta triste vida e longa ausência.
Quem pode imaginar
Que houvesse em mim pecado
Digno de uma tão grave penitência?
85 Olhai que é consciência
Por tão pequeno erro,
Senhora, tanta pena.
Não vedes que é onzena?
Mas se tão longo e mísero desterro
90 Vos dá contentamento,
Nunca me acabe nele o meu tormento.
VIII
Rio formoso e claro,
E vós, ó arvoredos,
Que os justos vencedores coroais,
95 E ao cultor avaro,
Continuamente ledos,
De um tronco só diversos frutos dais:
Assi nunca sintais
Do tempo injúria alguma,
100 Que em vós achem abrigo
As mágoas que aqui digo,
Enquanto der o Sol virtude à Lua,
Porque de gente em gente
Saibam que já não mata a vida ausente.
IX
105 Canção, neste desterro viverás,
Voz nua e descoberta,
Até que o tempo em eco te converta.
Canção VI
Com invulgar potência, o fogo imortal queima aqui uma ilha no Oriente, habitada por gente exótica, onde o forte Inverno renova os campos jubiloso. Os lusos conquistaram-na pela guerra. Está cercada por um estreito braço de mar de águas nostálgicas. O verde que a reveste alimenta os rebanhos e os nossos olhos.
Aqui quis o meu Destino que eu passasse longo tempo da minha escassa vida, que por pouco ia acabando aqui enterrada entre feridas e memórias guerreiras, por mercê de Marte. Trocaria de bom grado, tanto a vida como qualquer satisfação que achasse nela, se eu soubesse ao morrer, por decreto do Amor, uns belos olhos iriam ler a minha história.
Mas esta ilusão, para minha dor é um engano cruel que me alicia. Não creio que eu pudesse obter com a morte o que não consegui alcançar em toda a vida. E tão desesperado eu estou por me achar em tão mísera condição, que perdi toda a firmeza, e nem sequer na morte tenho já esperança. Mas se eu soubesse que no futuro poderia vir a ter esperanças para as perder, então viveria.
Por agora nem desesperar ou surpreender-me posso com o que tenho passado, porque até isso me está vedado. Alguém foi a causa disto, não fui eu que me incendiei de amor. Se pensais que sofro pelo medo de ser esquecido, esse seria um medo agradável que ainda poderia ter, pois nem esquecido pode ser quem não é lembrado. Qual é o amor, por maior que ele seja, que não viva com temor?
Quem tem algo que possa perder, vive com esse terror. Mas mais triste é aquele que nada pode perder, porque nada tem. E vós sois a culpada, Senhora, pois estando longe de vós só uma hora eu já morreria. Destes-me esperanças infundadas, e surpreende-me ver que nunca mereci receber tantos favores quantas foram as evasivas e os rodeio. Mas tão ínfimo é o meu valor que nem mesmo mereço tão deleitoso castigo.
Amor procedeu de início para comigo da mesma forma suave e próxima como agora se manifesta no meu sofrimento. Pois maior pena não existe para quem errou do que privá-lo da sanção que lhe cabe. Tal como o médico que ao saber que o doente está condenado já passa a permitir-lhe tudo, também a mim o Amor me permitia loucos desejos, expetativas e audácias.
E venho agora cantar as memórias destes amores neste infeliz e prolongado desterro. Quem pudera pensar que eu tivesse tanta culpa para merecer tão sério castigo? Senhora, é injusto ser tão punido por tão pouco, isto é já usura. Mas se um tão infeliz exílio vos alegra, então que ele jamais termine, nem o meu penar.
Rio belo e límpido das águas em torno da ilha, e vós, ó bosques que recompensais o conquistador, e dais ao ávido cultivador tantos frutos num só ramo: que o tempo nunca vos atinja, e que possais acolher as mágoas que aqui vos canto, enquanto o sol alumiar a lua. Para que toda a gente saiba que a distância não pode matar os sentimentos de quem ama.
Canção, viverás neste exílio, como um canto limpo e claro, até que no final só aqui reste o teu eco.
情歌六
以非凡的力量
抵抗永恒的火,
东方有一座小岛
住着奇怪的人,
严酷的冬天
给那里田野快乐的绿装,
卢济塔尼亚人
用血腥的武器,
成为它的主人。
一条河围绕着它,
思念着大海
草木繁茂,
牛羊成群,景色宜人。
命运要我在这里
度过短暂生命的
大部分时间。
为了让凶狠的马尔斯
给我的坟墓
染上鲜血和纪念。
倘若爱神决定,
以这种生活为交换,
留下我的某种记忆
作为故事流传,
被一双美丽的眼睛读到,
我情愿以生命和快乐,
交换如此甜蜜的回忆。
我残酷命运
以这种伪装,
用虚假的希望邀约我。
思想没有料到能在死亡里
发现如此漫长的生活中
难以找到的事情。
我已经是那样
丧失了信心,
绝望地看见
自己悲惨的处境,
我对死亡也失去了希望。
可是啊,倘若有一天
我能绝望,就能活下去 !
我对见过的一切,
如今已不再惊讶。
甚至用绝望来自我保护。
对别人是绝望的原因,
对我从来不至于那种地步,
造成这种将我焚烧的烈火。
如果人们以为
遗忘的恐惧让我愤怒,
但愿我的危险
成为我的朋友,
但愿给我的思想
留下某些恐惧!
看见这样巨大窘境的人,
难道有希望不担忧?
一个有东西可失的人,
他才能有所忧惧,
一个人已无所失去才悲哀。
夫人,这都是你的错,
若想要我死,
只需一刻看不见你就足够了!
你将我置于
虚假希望的诱惑之下:
更让我更惊讶的是,
我从来不值得那样,
怀着希望生活,
我的价值那样微薄,
不值得如此甜蜜的惩罚。
爱神一度对我
那么温柔,并不太愤怒,
此刻一切在我的灾难中见分晓。
对一个犯错的人
没有比拒绝给他应得的惩罚
是更大的惩罚。
正如对一个病人发生的事,
他告别了治愈,
博学的医生
给他的药方
是满足他的一切欲望。
就这样满足我:
期盼,欲望,大胆。
现在让我来为
以往的美好算一笔账:
这悲伤的生活和长久的离别。
谁能想象
能有这种原罪
该受如此严厉的苦行?
请看吧,这是良知:,
因为如此小的过失,
夫人,遭受这样多惩罚!
难道你看不见这是高利贷?
可是假使如此长久悲惨的流放
能让你心满意足,
我的苦难就永远不要结束。
清澈而美丽的河水,
还有你啊,树林,
请给公正的胜利者戴上王冠,
让贪婪的耕种者,
永远的快乐,
一棵树只是结下不同果实 ,
永远这样不感受到伤害
只要太阳给月亮光辉,
这里我所说的痛苦,
就在你那里找到呵护。
因为我从生活知道,
人不会死于离愁别苦。
情歌啊,你将在流放中生活,
赤裸的而无掩饰的声音,
直到时间将你变成回音。
COMENTÁRIO À CANÇÃO VI
3 : Faria e Sousa adverte, de acordo com passagens como o v. 12, aqui nascem, que no original estaria cá nas partes. Restaurou-se esta lição exigida pela lógica do poema, ainda que Faria e Sousa, com o seu habitual conservadorismo editorial, a tenha omitido neste verso, deixando-o como Ilha nas partes.
39 : viveria... porque alguma esperança teria para se lhe gorar.
53 : Quem tem [o] que perder possa.
102 : Luma em Faria e Sousa, para compor a rima com o v. 99, alguma. Camões, Ode VI.18 : mais que enquanto alumia o mundo a Lua.
103 : Saibam que já não mata a vida ausente: eu antes morreria por estar longe, vv. 57-58, mas agora tenho de viver para penar perpetuamente.
对中文翻译的评注:
17 : 战神,意思是死于战争。
39 : 不能活是因为期望,不再期望,反而能活。
58 : 潜台词是:不必流放。
97 : 指王室世系树。
101 : 这段是卡蒙斯在向国王请求赦免。
EDIÇÃO DIGITAL BILINGUE DA OBRA DE CAMÕES
贾梅士作品双语数字版
UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU
澳門科技大學
PROJETO FRG-25-029-UIC
A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO
卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版


