ODE XIV
Pode um desejo intenso
[Segunda ode-ePÍSTOLA à senhora Dona Francisca de Aragão]
Ode 14
I
Pode um desejo intenso
arder no peito tanto
que abrande da viva alma o fogo imenso,
lhe gaste as nódoas do terreno manto
5 e purifique em tanta alteza o espírito
que c’os olhos mortais,
erguendo-os leia mais do que vê escrito.
II
Que a flama que se ascende
alta tanto alumia
10 que se o nobre desejo ao bem se estende
que nunca viu: lá sinta claro dia
e lá vê do que busca o natural,
a graça a viva cor,
noutra espécie melhor que a corporal.
III
15 Pois vós, ó claro exemplo
de viva fermosura,
que eu de tão longe já noto e contemplo
na alma que este desejo sobe e apura:
não creais que não vejo aquela imagem
20 que as gentes nunca veem,
se de humanas não têm muita vantagem.
IV
Que se os olhos ausentes
não veem a compassada
proporção que das cores excelentes
25 de pureza e vergonha é variada
a qual a poesia que cantou
até aqui só pinturas
com mortais fermosuras igualou.
V
Se não veem os cabelos
30 que o vulgo chama de ouro
e se não veem os claros olhos belos
de que cantam que são do sol tesouro,
e se não veem do rosto as excelências
a quem dirão que deve
35 rosa, e cristal e neve as aparências
VI
Veem logo a graça pura
a luz alta, e severa,
que é raio da divina fermosura
que n'alma imprime e n'alma reverbera:
40 assim como cristal do sol ferido,
que por fora derrama
a recebida flama esclarecido.
VII
E veem a gravidade
com a viva alegria
45 que misturadas são de qualidade
que uma de outra nunca se desvia
nem deixa uma de ser receada
por leda e suave,
nem outra por ser grave, muito amada.
VIII
50 E veem do honesto siso
os altos resplandores,
temperados com doce e alegre riso
a cujo abrir abrem no campo as flores
as palavras discretas e suaves
55 das quais o movimento
fará deter o vento e as altas aves.
IX
Dos olhos o virar,
que torna tudo raso,
do qual não sabe o engenho divisar
60 se foi por artifício ou feito acaso
da presença os meneios e a postura
o andar, e o mover-se
donde pode aprender-se fermosura.
X
Aquele não sei quê,
65 que aspira não sei como
que invisível sai e a vista o vê,
mas para o compreender não lhe acha tomo;
o qual, toda a toscana Poesia
que mais Febo restaura,
70 em Beatriz nem Laura nunca via;
XI
Em vós a nossa idade,
senhora, o pode ver,
se engenho, se ciência e habilidade,
igual à fermosura vossa houver
75 eu a vi no meu longo apartamento
qual em presença a vejo
tais asas dá o desejo ao pensamento.
XII
Pois se o desejo afina
uma acesa alma tanto
80 que por vós use as partes de divina,
por vós levantarei não visto canto
que o Bétis me ouça o Tibre me levante:
que o dourado Tejo
envolto o vejo um pouco, e dissonante.
XIII
85 O campo não o esmaltam
flores mas os abrolhos
o fazem feio: e cuido que lhe faltam
ouvidos para mim, para vós olhos.
Mas faça o que quiser o vil costume;
90 que o sol que em vós está
na escuridão dará mais claro lume.
Ode XIV
I
Pode um amor tão forte abrasar de tal forma um coração que suavize a infinita chama da alma e consuma as máculas da carne, sublimando em tais alturas o espírito, que este possa com os olhos corporais contemplar muito mais do que aquilo que é visível.
II
Ilumina tanto a labareda que tão alto ascende, que, quando a pura vontade aspirar ao Bem jamais contemplado, terá acesso às essências, e à perfeição e beleza do mundo das Ideias.
III
Mas vós sois a encarnação da Ideia de Beleza, que eu aqui no mundo já descubro e vejo através da minha alma que este amor eleva e purifica: não julgueis que eu não contemplo o que as pessoas nunca verão se não lograrem elevar-se acima do mero plano terrenal.
IV
Que se é verdade que o meu olhar longe de vós não observa as magníficas proporções do vosso corpo, matizado de inocência e de decoro; as quais a poesia que até agora celebrou apenas as aparências equiparou a carnais belezas;
V
e que se ele não pode admirar os cabelos que as pessoas chamam doirados; e que igualmente não vê os luminosos olhos lindos, que nessa poesia são ditos tesoiro do sol; e que também não olha para a vossa excelsa face, à qual se diria que a rosa, a neve e o cristal foram buscar as cores que eles próprios têm;
VI
eu vejo, porém, prontamente, o vosso genuíno encanto, a luminosidade suprema e grave que é emanação da própria Ideia de Beleza transmitida à alma, a qual resplandece para o exterior como um cristal trespassando a luz do sol, refletindo-a então acrisolada.
VII
E vejo a vossa compostura temperada pela jovialidade, que em vós se juntam de tal forma que uma delas jamais se manifesta sem a outra; e nem a segunda deixa de ser respeitada por ser ligeira e branda, nem a primeira, por austera, é por isso menos desejada.
VIII
E vejo os sublimes fulgores dessa razão séria, amenizados por um meigo e feliz riso, que ao abrir-se dir‑se‑ia que abre as próprias flores do campo também; de onde surgem as vossas palavras, prudentes e brandas, que sustarão os ventos e as aves que no alto voam.
IX
Vejo o revirar desses olhos que tudo arrasa, e que não se consegue entender se foi propositado ou natural; e os movimentos e as posições do estar, do caminhar e do mexer-se, dos quais se apreende o próprio conceito de beleza.
X
Aquele fascínio inexplicável, que inspira não sei como, e que, sendo invisível, a vista o pode ver, se bem que para o entender lhe falte a capacidade; o qual toda a poesia italiana, a que mais revive a arte apolínea, jamais conseguiu expressar nos versos [de Dante] sobre Beatriz, nem [nos de Petrarca] sobre Laura,
XI
em vós pode ser visto, Senhora, neste nosso tempo, e por mim cantado se eu tiver a inspiração, e igualmente a arte e o talento, proporcionais à vossa beleza; e que eu durante a minha demorada ausência pressentia da mesma forma como se estivesse diante de vós. Porque o amor permite à mente vencer todas as distâncias.
XII
Pois se o amor tanto exalta uma alma inflamada, então eu usarei a parte divina dela para compor um nunca ouvido poema, e que ele seja escutado em Sevilha e aplaudido em Roma, já que sinto a áurea Lisboa um tanto turva e destoante.
XIII
Aqui nestes prados não florescem flores, só cardos os enfeiam; e creio que a mim me falta cá quem me escute, e a vós quem vos admire. Mas pese a costumeira vilania, o sol, que em vós habita, mais brilhará nas trevas.
颂歌十四
一种巨大的欲望
能在胸中剧烈燃烧,
用温火和烈火 煅造灵魂,
磨洗掉躯壳的污痕,
让精神纯净而高贵,
用长生不死的眼光,
读到的比写下的更精彩 。
熊熊燃烧的火焰,
高高把一切照亮,
如果高贵的欲望展向
从未见过的美好,明亮而清晰,
在里面看见本性的追求,
惠美,鲜艳的色彩,
另一种比肉体更佳的形态。
你啊, 生动之美光明的典范,
那么遥远,我在灵魂中
从这里察觉你、观赏你,
使这种欲望升华与净化,
如果人类达不到这种超越,
你不要以为我没有看见,
那种世间从未见过的形象。
如果眼睛不身临其境
看不见那清纯与娇羞,
那卓越的颜色,
不同的微妙变化,
诗歌对它的描述
会达到这种程度,
只有绘画可媲美它不朽的惊艳。
假使看不见俗人
称为金子的秀发,
若看不见被人们称颂为
太阳宝石的明亮美丽的眼睛,
倘若看不见绰约的姿容,
应该把她的容貌
唤作玫瑰、水晶与白雪。
立刻看见纯洁的优雅,
高贵而庄严,
那是天仙之美的光芒,
印在灵魂上,闪闪发光,
像阳光照耀在水晶,
接受的火焰
在外部流光溢彩。
看见庄重与严肃,
活泼与快乐,
两种品德相互混合,
从来不见它们相互偏离。
不会因高兴而轻率,
不会因庄重而搅扰一种品德,
也不会过度,而是含蓄矜持。
高贵的光焰,
来自诚实的智慧,
用甜美快乐的微笑加以调节,
原野的鲜花伴着笑容绽放。
话语谨慎而轻柔,
让天上的清风
和飞鸟停止运动。
目光的转动,
将一切扫平。
我不知如何形容,
是出于心念还是偶然,
一颦一笑,体态婀娜,
行走运动,袅袅翩然,
从中能学到审美。
不可言喻,无法形容,
不知视觉看见的
是虚无间生成的怎样的螺旋,
可是为了理解,我捕捉不住。
托斯卡纳 的诗歌
再现了福珀斯 的诗歌光荣,
贝雅特丽兹和劳拉 也未曾见过。
我们的时代,夫人,
如果她们 有与你相媲的美,
如果那两位聪明博学多才的诗人
像我一样在长久的离别中,
不是看见你在眼前,
他们写不出你所看见的赞颂,
那是欲望给思想插上的翅膀。
如果欲望会让
一个灵魂如此燃烧,
我为你运用神性的天赋
为你扬起隐形的歌声。
贝蒂斯河和台伯河听到我,
而我看见,我们明亮的特茹河
似乎有点迷茫,不太和谐 。
原野不为你的眼睛
绽放鲜花而是遍地荆棘。
我认为,大地丑陋
是缺少对我的倾听。
可是任凭风俗败劣,
你的阳光在黑暗中
会放射更耀眼的光明。
COMENTÁRIO À ODE XIV
6-7 : contemplar [no ser amado] muito mais do que aquilo que é [terrenamente] visível.
75 : no meu longo apartamento, referência à estadia de Camões de cerca de 17 anos na Ásia e em África.
对中文翻译的评注:
7 : 比表面上理解得更深刻。
14 : 精神形态。
68 : 但丁的《神曲》用托斯卡纳方言写成。皮特拉克也有些用托斯卡纳方言写的诗歌。
69 : 阿波罗。
70 : 贝雅特丽兹是但丁的恋人;劳拉是皮特拉克的情人。
72 : 指贝雅特丽兹和劳拉。
83 : 伊比利亚半岛最长河流,发源于西班牙,里斯本入大西洋。又名塔古斯河(希腊语Tagus),西班牙语塔霍斯河。
84 : 卡蒙斯的诗在意大利(台伯河)和西班牙(贝蒂斯河)负有盛名,而在葡萄牙(特茹河)不被推崇。
EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES
卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU
澳門科技大學
PROJETO FRG-25-029-UIC
A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO
卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版

