CAMÕES:
UMA VIDA EM IMAGENS
ITINERÁRIO DIDÁTICO
ELABORADO PELA RCnA&A - Rede Camões na Ásia & África - COM o APOIO DO IPOR - Instituto Português do Oriente
© RCNA&A 2024-2026


CELEBRAÇÃO DO ANIVERSÁRIO DO POETA. ESCOLA PORTUGUESA DE MACAU,
25 de FEVEREIRO DE 2026
A VERSÃO ANTERIOR DESTA MOSTRA FOI ESTREADA NO
CONGRESSO CAMÕES / MACAU 2024
QUE INAUGUROU MUNDIALMENTE AS CELEBRAÇÕES DOS 500 ANOS DE CAMÕES
1 - POR UM ACASO
1525 – DE FAMÍLIA COIMBRÃ, LUÍS VAZ NASCE NO PORTO
Este local de nascimento foi acidental, pois família de Camões estava estabelecida em Coimbra há várias gerações:
Não sei se por ser do Porto,
se por ser bom português...
Istorias e ditos galantes, CVIII
Em Coimbra viverá a sua infância e juventude até aos 18 anos:
Nos saudosos campos do Mondego
Os Lusíadas III.120.5
A sua apetência pelas letras parecia destiná-lo à carreira eclesiástica. Seguiu estudos no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra, sob a orientação do seu tio, Dom Bento de Camões, Prior Geral dos frades crúzios.
2 - UM TALENTO PRECOCE
1543 – TENTA A FAMA EM LISBOA
Aos 18 anos desistiu da carreira eclesiástica e foi viver para a Corte. Escreveu ao seu Tio, prometendo bom comportamento e continuação dos estudos:
Quando Vossa Reverência como de tão pouca idade me pretende experimentar procurando ver a capacidade de meus estudos (…) não queira Deus que eu dê nenhum mau exemplo, nem por sombra descontente a meu Senhor e tio.
Carta ao seu Tio
Logo o veremos envolvido no teatro, que então se representava nas ruas. Compôs uma comédia de enganos, o Auto dos Enfatriões, em que os deuses Júpiter e Mercúrio descem à terra e se fazem passar respetivamente pelo general grego Anfitrião e pelo seu criado Sósia:
Brómia: – eu tenho no coração
(que) do senhor Anfitrião
virá hoje alguma nova,
que a verdadeira afeição
na longa ausência se prova.
Enfatriões, 1587, 86v
3 - O TRAUMA DA DEFICIÊNCIA
1547/50 – SOLDADO EM CEUTA
Aos vinte e dois anos de idade foi cumprir serviço de armas de dois anos, como soldado fronteiro, naquela praça portuguesa de África:
Qualquer Mouro desmandado
Nos comete sem nenhum pejo
Isto não é praguejar,
Mas toda a culpa é da fome,
Porque gente que não come
Mal poderá pelejar
Gabais esta vida cá
E desgabais-me Lisboa.
Eu dera esta vida boa
A troco dessa outra má.
Por usar costume antigo, Carta de Ceuta
Perde uma vista, num acidente com armas:
Agora exprimentando a furia rara
De Marte, que nos olhos quiz que logo
Visse, e tocasse o acerbo fructo seu.
E neste escudo meu
A pintura verão do infesto fogo.
Canção X –Vinde cá, meu tão certo secretário, Rhythmas 1595, 40v
4 - AVENTURAS E DESVENTURAS
1550/52 – A BOÉMIA DE LISBOA
Com 25 anos de idade já estava de regresso a Lisboa. No início do ano tentou embarcar para a Índia, mas teria de esperar mais três anos para poder realizar essa viagem.
Frequentou estabelecimentos de diversão noturna, onde as bailadeiras entretinham os marinheiros cantando-lhes cantigas tristes, predecessoras do fado:
São ninfas de água, que estas são mais em Lisboa que em outras partes (e) chamam-lhes folionas, porque além dos seus rostinhos bonitos, bailam e cantam bem.
Uma vossa me deram, Carta de Lisboa
5 - CARTAS AOS AMIGOS
1551 – CELESTINA EM LISBOA
Conservam-se várias cartas suas deste período, entre elas uma recentemente publicada:
Por que nem tudo seja falar-vos com siso, após as novas que vos mandei de África e da Índia, que cá chegaram, agora vos mando estas de folgar, que à orelha vos soarão melhor.
E que eu não seja destas intrigas o mais diligente propagador desta terra (onde) nunca faltam más línguas.
Celestina em Lisboa
6 - EXPERIÊNCIA COMO ATOR
1551 – DE NOVO O TEATRO
Em outubro ele próprio subiu aos palcos, na encenação da sua nova peça, no papel do Representador:
Mas em breves palavras direi a Vossas Mercês o resumo da obra: ela é toda de rir, do início até ao fim.
Comédia d’el-Rei Seleuco, Rimas 1645, 189r
Porém, o que é cómico é somente que a seguir a este anúncio a peça não tenha verdadeiramente nada para rir.
Em vez disso, a história que Camões dramatiza é triste. Numa das suas falas, o príncipe Antíoco, futuro rei Antíoco I Sóter (324-261 a.C.), sente-se muito doente e ansioso, e pede ao pagem que lhe cante um fado:
Cantai, por amor de mim,
Alguma cantiga triste;
Que todo o meu mal consiste
Na tristeza em que me vi.
Comédia d’el-Rei Seleuco, Rimas 1645, 195v
7 - AS MÁS COMPANHIAS
1552/53 – PRISÃO NO TRONCO DE LISBOA
Na noite da quinta-feira 16 de junho, dia de Corpus Christi, numa briga de rua, Camões feriu Gonçalo Borges Corte-Real, servidor do Paço.
Tinha então vinte e sete anos, e será em breve conduzido à prisão do Tronco, em Lisboa:
Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros.
Soneto 5, Rimas 1598, 2r
8 - A GRANDE VIRAGEM
1553 – PARTIDA PARA A ÍNDIA
7 de março, o rei Dom João III mandou libertar Camões, que aos vinte e oito anos de idade partiu na nau São Bento, a 24 ou 26 de março, na armada de Fernão Álvares Cabral. Chegou a Goa em setembro desse ano, e em novembro participou na expedição contra o Rei de Chembé, conhecido como o “Rei da Pimenta”:
Foi logo necessário termos guerra.
Que uma ilha que o Rei de Porcá tem
E que o Rei da Pimenta lhe tomara,
Fomos tomar-lha, e sucedeu-nos bem.
Com uma armada grossa, que ajuntara
O vice-rei de Goa, nos partimos
Com toda a gente de armas que se achara,
E com pouco trabalho destruímos
A gente no curvo arco exercitada.
Nela nos detivemos só dois dias,
que foram para alguns os derradeiros,
Que estes são os remédios verdadeiros
Que para a vida estão guardados
Aos que a querem viver como cavaleiros.
Numa das suas cartas desse tempo comparou a vida do soldado com a do agricultor:
Dá-lhes a justa terra o mantimento,
dá-lhes a fonte clara a água pura,
mungem suas ovelhas cento a cento.
Não veem o mar irado, a noite escura,
por ir buscar a pedra do Oriente;
não temem o furor da guerra dura.
Vive um com suas árvores contente,
sem lhe quebrar o sono sossegado
o cuidado do ouro reluzente.
Oh, lavradores bem-aventurados!
como vivem no campo sossegados!
Se lhe falta o vestido perfumado,
se suas casas de ouro não se esmaltam,
esmalta-se-lhe o campo de mil flores,
onde os cabritos seus, comendo, saltam.
O Poeta Simónides falando, Rhythmas 1595, 51r-55r

9 - UMA VIDA PERDIDA EM FLOR
1554 – ETIÓPIA E ARÁBIA
Entre fevereiro e novembro de 1554 é incorporado na armada de Dom Fernando de Menezes para a expedição ao Golfo de Áden. Estancia até abril no chamado Mar de Monte Félix, na Abássia, na costa africana, junto ao Cabo Gardafui:
Junto de um seco, duro e estéril monte,
inútil e despido, calvo, informe.
Canção IX -Junto de um seco, duro e estéril monte, Rhythmas 1595, 35v
Compõe um soneto-epitáfio para Pero Moniz, seu companheiro de armas que ali morreu com 24 anos. De novo condena a guerra neste poema, pensamento que também exprimiu em
Os Lusíadas:
No mundo, poucos anos e cansados
vivi, cheios de vil miséria dura;
Corri terras e mares apartados,
buscando à vida algum remédio ou cura.
Criou-me Portugal na verde e cara
pátria minha Alenquer; mas ar corruto,
que neste meu terreno vaso tinha
me fez manjar de peixes em ti, bruto
mar, que bates na Abássia fera e avara,
tão longe da ditosa pátria minha!
Soneto 100, Rimas 1598, 26r
Há outras elegias e epitáfios de Camões lamentando a morte de jovens soldados na guerra. Percorreu depois a costa da Arábia para norte até Mascate, onde invernou.
10 - UMA COMÉDIA DE ENGANOS
1555 – GOA, AUTO DE FILODEMO
Data possível da representação em Goa do seu Auto de Filodemo, sob o governador Francisco Barreto – ou teria sido em 1561, sob o vice-rei Dom Francisco Coutinho?
A peça é inspirada nas novelas de cavalaria, e o enredo termina com práticas mágicas e adivinhatórias.
Foi a primeira vez que na Ásia se representou um texto de um autor europeu.
A peça termina com atos mágicos, algo que rapidamente será proibido em palco, mas esta proibição não iria afetar o texto de Camões.
11 - EXÍLIO E MAIS GUERRA
1556 – TERNATE, TIDORE E BANDA
Foi então enviado, talvez em serviço militar, pelo governador Francisco Barreto para Ternate, reino indígena estabelecido no sopé de um vulcão, nas Ilhas de Maluco, hoje Indonésia. Ali se erigira a fortaleza mais longínqua do Império Lusitano do Oriente.
Tratou-se de um castigo pelos seus versos mordazes, que desagradaram aos moradores portugueses de Goa. Estas sátiras foram publicadas mais tarde como ‘Disparates seus na India’, nas Rhythmas de 1595, 167v-168v

12 - OS LUSÍADAS, PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE
1556-1571 – UM POEMA SOBRE A ÁSIA, COMPOSTO NA ÁSIA, TERMINADO EM ÁFRICA E PUBLICADO EM PORTUGAL
É por esta altura, durante a áspera Guerra Luso-Ternatesa, na qual Camões nos diz que ficou ferido e correu risco de vida, que ele iniciou a composição de
Os Lusíadas:
Olha cá pelos mares do Oriente
as infinitas ilhas espalhadas.
Vê Tidore e Ternate com o fervente
cume que lança as flamas ondeadas.
As árvores verás do cravo ardente,
Com o sangue português ainda compradas.
Os Lusíadas X.132.1-6
Entre os vários propósitos do poema está o de suscitar a gratidão do rei de Portugal para com os súbditos que o servem com indómita coragem e abnegado espírito de sacrifício, enfrentando os mais graves perigos pelo mundo fora:
Olhai que ledos vão por várias vias,
Quais rompantes leões e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo, a setas e pelouros,
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes de Idolatras e de Mouros,
A perigos incógnitos do mundo,
A naufrágios, a peixes, ao profundo.
Os Lusíadas X.147
13 - PROTETORES PODEROSOS
1558 – O REGRESSO À ÍNDIA PORTUGUESA
Nesse ano o vice-rei Dom Constantino de Bragança assumiu o governo do Estado da Índia e Camões já pôde regressar a Goa em 1559.
Em 1561 sucedeu a Dom Constantino outro amigo de Camões, o Conde de Redondo, junto de quem o Poeta advogará a publicação dos Colóquios de Garcia de Orta, que sairão em 1563. A carta de recomendação em forma de ode que então escreveu ao vice-rei foi a sua estreia em letra impressa:
Pois vós, ó excelente,
e ilustríssimo Conde, do Céu dado
para fazer presente,
de heróis altos, o tempo já passado,
favorecei a antiga ciência,
que já Aquiles estimou:
Um velho que ensinado
das gangéticas Musas, na ciência
o qual (vos) está pedindo
vosso favor, e ajuda ao grão volume
que agora (está) à luz saindo
dará à medicina um novo lume,
e descobrindo irá segredos certos
(que) a todos os antigos (foram) encobertos.
Aquele único exemplo, Colóquios dos simples, e drogas e cousas medicinais da India, 1563; Rimas 1598, 63r-64v
14 - ANOS DE PLENITUDE
1562-3/1565 – RESIDENTE E FUNCIONÁRIO EM MACAU
Camões partiu em seguida para Macau, enviado em comissão de dois anos como Provedor dos Defuntos e Ausentes.
No século XIX, durante a época romântica, os penedos de Camões em Patane, Macau, depois chamados «gruta», granjearam grande fama entre viajantes e escritores de muitos países.
Eles teriam sido o local de retiro do Poeta, longe do bulício do assentamento português junto às margens e zonas portuárias do Porto Interior de Macau.
AÍ se construiu em finais do século XVIII um pequeno mas emotivo santuário de homenagem à sua passagem pelo território, que foi primeiro monumento público a Camões, precedendo em um século a estátua monumental que se lhe erigiu em 1867 em Lisboa, no Largo do Loreto, hoje Praça Luís de Camões.
Os celebrados penedos conservam hoje a sua importância como santuário e lugar secular de romagem e de culto cívico e artístico prestado ao mais universal dos portugueses.
15 - AMOR SEM FRONTEIRAS
1564 – UM AMOR ORIENTAL
E foi realmente em Macau que Camões viveu um belo caso de amor com uma jovem da etnia local tanka. Esta paixão seria tão intensa quanto breve, pois em menos de um ano a sua amada desapareceria tragicamente, nos baixios situados não longe da foz do rio Mekong.
Após a morte dela por afogamento Camões crismou-a "Dinamene", do nome grego da ninfa dos oceanos.
Numa das várias composições suas em homenagem à jovem, Camões relata que certa vez sonhou que corria para alcançá-la no Paraíso, mas que ao gritar o nome dela o seu sonho se esvaiu:
e eu, gritando – Dina! antes que diga “Mene”,
acordo e vejo que (já) nem um breve engano posso ter.
Soneto 72 – Quando de minhas mágoas, a comprida, Rimas 1598, 19r
O romance entre Camões e a futura Dinamene foi o primeiro amor euroasiático a entrar na história da literatura mundial.
16 - DOR ETERNA
1565 – AFOGAMENTO DE DINAMENE
Com a posse do novo vice-rei, Dom Antão de Noronha, terminava a comissão de serviço de Camões, que tinha de regressar à Índia com os quarenta anos completos.
Foi nessa triste viagem que ele perdeu a bela jovem de Macau, que imortalizará na sua poesia:
Ah, minha Dinamene, assim deixaste
Quem não deixara nunca de querer-te!
Ah, Ninfa minha, já não posso ver-te,
Tão asinha esta vida desprezaste!
Eternamente as águas lograrão
A tua peregrina formusura;
Mas, enquanto me a mim a vida dura,
Sempre viva em minha alma te acharão.
Ondas – dizia – antes que Amor me mate,
Tornai-me a minha ninfa, que tão cedo
Me fizestes à morte estar sujeita.
Para que ali, nas entranhas dos penedos
em vida morto, sepultado em vida
Me queixe copiosa e livremente.
Colagem de vários sonetos
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
Rhythmas 1595, 4v
17 - O MILAGRE DO LIVRO MOLHADO
1565 – O POEMA SALVO DAS ÁGUAS
Apesar da enorme perda sentimental que sofreu, Camões conseguiu salvar uma parte significativa de Os Lusíadas que já então estava composta:
Este (rio Mekong) receberá, plácido e brando,
no seu regaço o Canto, que molhado
vem do naufrágio triste e miserando.
Os Lusíadas X.128.1-3
Após uma curta estadia entre os budistas do Reino do Camboja (Os Lusíadas X.127.7-8), em que estudou a religião e os costumes dos monges – sendo esse o único momento na sua vida em que saiu dos territórios controlados pela Coroa portuguesa – Camões regressou por fim a Goa, via Malaca.

18 - DE NOVO RECLUSO
1566 – PRISÃO EM GOA
Em Goa, Camões foi acusado de malversão dos fundos que lhe cabia trazer da China, mas que se haviam perdido no naufrágio, e foi colocado a ferros por ordem do novo vice-rei:
(...) quando será o injusto mando executado.
Os Lusíadas X.128.6
Camões terá de ir responder a Lisboa por este processo em 1567. Pero Barreto levou-o até à Ilha de Moçambique, onde chegou em fevereiro de 1568, mas mandou retê-lo ali por dívidas.
19 - UMA OBRA PERDIDA?
1568/69 – ILHA DE MOÇAMBIQUE
Em 1569, Diogo do Couto ali o encontrou vivendo em grande penúria, mas aperfeiçoando a sua epopeia:
Ficou em estado de viver de esmolas de algumas pessoas. Este inverno reformou o Camões suas Lusíadas e me pediu que eu lhas comentasse.
Couto, Décadas VIII.5.8
Alguns amigos do poeta saldaram-lhe as dívidas que ele tinha e pagaram-lhe a viagem de retorno ao Reino na nau Santa Clara, em novembro daquele ano:
De que queixando-se ele a alguns fidalgos amigos, que vinham na nau, eles se fintaram entre si e o desempenharam, pagando ao capitão os duzentos cruzados.
Mariz,
Os Lusíadas 1613, 5v-6r

20 - A URGÊNCIA EM PUBLICAR
1569/70 – REGRESSO À PÁTRIA
Camões compôs em Moçambique o seu Parnaso, obra que lhe seria furtada:
Neste inverno começou Luís de Camões a compor um livro muito douto, de muita erudição, que intitulou Parnaso de Luís de Camões, porque continha muita poesia, filosofia, e outras ciências, o qual lhe desapareceu, e nunca pude em Portugal saber dele.
Couto, Décadas VIII.5.8
Chegou ao Reino a 7 de abril de 1570, pelo porto de Cascais, quando grassava um terrível surto de peste em Lisboa.
Foi absolvido das acusações que o traziam capitulado e iniciou a procura de apoios para a publicação de Os Lusíadas.
21 - A HISTÓRIA HERÓICA DE UM POVO
1571/2 – A VIAGEM DO GAMA EM OS LUSÍADAS
Foi em 1571 que submeteu a sua obra à censura, e recebeu acolhimento muito entusiástico por parte do Rei Dom Sebastião, como se lê no alvará régio de 24 de setembro:
Eu el-Rey faço saber aos que este Alvará virem que eu tenho por bem e me apraz dar licença a Luís de Camões para que possa fazer imprimir nesta cidade de Lisboa uma obra em oitava rima chamada Os Lusíadas, que contém dez cantos perfeitos, na qual por ordem poética em versos se declaram os principais feitos dos portugueses nas partes da Índia, depois que se descobriu a navegação para elas, por mandado de el Rey Dom Manuel, meu visavô.
Alvará da edição de Os Lusíadas de 1572
22 - POR FIM, A GLÓRIA
CAMÕES, UM GIGANTE ENTRE GIGANTES
12 de março de 1572: ACABA DE SE IMPRIMIR EM LISBOA a primeira edição de Os Lusíadas, pelo impressor António Gonçalves.
Camões tem então 47 anos, e adentra o Parnaso dE Apolo, lado a lado com Homero, Virgílio, Ovídio ou Dante.
23 - PENSÃO DE SOBREVIVÊNCIA
1572 – A TENÇA
A 28 de julho de 1572, o rei concede a Luís de Camões uma tença anual de 15.000 réis, pelos serviços prestados na Índia e pela publicação do poema, a qual será renovada a cada triénio: 2 de agosto de 1575 e 2 de junho de 1578.
Eu el-Rei faço saber aos que este alvará virem que havendo respeito ao serviço que Luís de Camões cavaleiro fidalgo de minha casa me tem feito nas partes da Índia (...) e a informação que tenho de seu engenho e habilidades e a suficiência que mostrou no livro que fez das cousas da India, tenho por bem e me apraz de lhe fazer mercê de quinze mil reis de tença em cada um ano.
Carta de mercê a Luís Vaz de Camões, com efeitos a partir de 12 de março de 1572 – 28.08.1572, ANTT
24 - DEDICAÇÃO E SERVIÇO
1578/80 – FOME E MISÉRIA NO FINAL DA VIDA
Camões recebeu da Coroa uma pensão como militar, como funcionário público, e ainda como autor de Os Lusíadas. Porém, o valor que lhe foi atribuído não era muito elevado, e também não foi atualizado nas duas renovações que teve. Os atrasos nos pagamentos eram constantes, sobretudo após o desastre português em Marrocos (1578) e a sobrecarga do Tesouro com o resgate dos cativos.
O javanês António prestou a Camões um apoio vital durante os últimos tempos de ambos. Consta até que o fiel jau chegou a pedir esmola nas ruas para o sustento do Poeta.
O povo de Lisboa homenageou António a 12 de novembro de 1885, batizando uma rua do Bairro de Alcântara com o nome “Rua Jau”, paralela à “Rua dos Lusíadas”, ambas as artérias unidas pela “Rua Luís de Camões”.
25 - POBREZA, DOENÇA E ABANDONO
1580 – A MORTE AOS 55 ANOS
Luís de Camões faleceu a 10 de junho, no Hospital Real de Todos-osSantos, ao Rossio de Lisboa. Os seus amigos declararam que foi no ano de 1579, apenas um único documento nos diz que foi em 1580.
Um desses amigos “lhe mandou fazer sepultura própria, (mas tão rasa como as do mais povo) mas com este epitáfio nela esculpido:
AQUI JAZ LUÍS DE CAMÕES, PRÍNCIPE DOS POETAS DE SEU TEMPO. VIVEU POBRE E MISERAVELMENTE, E ASSIM MORREU. ESTA CAMPA LHE MANDOU PÔR DOM GONÇALO COUTINHO, NA QUAL NÃO SE ENTERRARÁ [MAIS] PESSOA ALGUMA”.
Mariz, Os Lusíadas 1613
Após a morte do Poeta, por ordem do rei Filipe I, grande admirador de Camões, a sua Mãe continuou a beneficiar daquela tença, como se lê nas cartas de mercê de 31 de maio de 1582 e de 5 de fevereiro de 1585.
A OBRA INTEIRA DE CAMÕES
CABE
EM 4 OU 5 VOLUMES
MAS PARA SE REUNIR TUDO o que sobre ele se escreveu
- e se continua a escrever - SERIA NECESSÁRIA UMA biblioteca de dimensões colossaiS.
FICHA TÉCNICA
Texto – Felipe de Saavedra;
Ilustrações – com apoio de ferramentas de inteligência artificial e recurso ocasional a algumas fontes iconográficas:
00 – retrato de Camões com base na cópia feita por Luís José Pereira de Resende, datada entre 1819 e 1844, do original pintado por Fernão Gomes em vida do Poeta;
03 – fronteiro marroquino, il. baseada em Soldado Árabe, por Gustavo Simoni, sem data; Ceuta, gravura antiga anónima;
08 – il. extraída do Livro de Lisuarte de Abreu, datação incerta;
09 – il. com base na gravura Vista de Cabo Guardafui (Somália), Corno de África, África Oriental, desenhada por Slom, 1888;
11 – António Bocarro, Livro das plantas de todas as fortalezas, 1635, Biblioteca Pública de Évora;
12 – il. baseada em Conquista de Malaca, por Ernesto Condeixa, 1903;
14 – il. baseada em Camões na gruta de Macau, por Francisco Metrass, 1853; il. a partir de Camões na gruta de Macau, gravura de Desenne para a edição do Morgado de Mateus, 1817;
15 – quadro a óleo Moça tanka, por George Chinnery (Londres 1774-1852 Macau), original 30.2 x 26cm;
18 – il. com base em Camões na prisão de Goa, por Moreaux, c.1850; Camões na prisão, data desconhecida, caricatura anónima alegadamente contemporânea de Camões, provavelmente posterior;
19 – portão e rua da casa de Camões na Ilha de Moçambique, imagens do autor, junho de 2025;
21 – il. baseada em Vasco da Gama e o Samorim, gravura anónima, c.1850, coloração posterior;
25 – il. baseada em
Mort de Camoëns, de Simon Guérin, c.1840.













