CAMÕES:


UMA VIDA EM IMAGENS


 ITINERÁRIO DIDÁTICO


ELABORADO PELA RCnA&A - Rede Camões na Ásia & África -  COM o APOIO DO IPOR - Instituto Português do Oriente

© RCNA&A 2024-2026

CELEBRAÇÃO DO ANIVERSÁRIO DO POETA. ESCOLA PORTUGUESA DE MACAU,

25 de FEVEREIRO DE 2026

A VERSÃO ANTERIOR DESTA MOSTRA FOI ESTREADA NO

CONGRESSO CAMÕES / MACAU 2024

QUE INAUGUROU MUNDIALMENTE AS CELEBRAÇÕES DOS 500 ANOS DE CAMÕES

1 - POR UM ACASO

1525 – DE FAMÍLIA COIMBRÃ, LUÍS VAZ NASCE NO PORTO


Este local de nascimento foi acidental, pois família de Camões estava estabelecida em Coimbra há várias gerações:

Não sei se por ser do Porto,

se por ser bom português...

Istorias e ditos galantes, CVIII


Em Coimbra viverá a sua infância e juventude até aos 18 anos:

Nos saudosos campos do Mondego

Os Lusíadas III.120.5


A sua apetência pelas letras parecia destiná-lo à carreira eclesiástica. Seguiu estudos no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra, sob a orientação do seu tio, Dom Bento de Camões, Prior Geral dos frades crúzios.

2 - UM TALENTO PRECOCE

1543 – TENTA A FAMA EM LISBOA


Aos 18 anos desistiu da carreira eclesiástica e foi viver para a Corte. Escreveu ao seu Tio, prometendo bom comportamento e continuação dos estudos:


Quando Vossa Reverência como de tão pouca idade me pretende experimentar procurando ver a capacidade de meus estudos (…) não queira Deus que eu dê nenhum mau exemplo, nem por sombra descontente a meu Senhor e tio.


Carta ao seu Tio


Logo o veremos envolvido no teatro, que então se representava nas ruas. Compôs uma comédia de enganos, o Auto dos Enfatriões, em que os deuses Júpiter e Mercúrio descem à terra e se fazem passar respetivamente pelo general grego Anfitrião e pelo seu criado Sósia:


Brómia: – eu tenho no coração

(que) do senhor Anfitrião

virá hoje alguma nova,

que a verdadeira afeição

na longa ausência se prova.


Enfatriões, 1587, 86v

Teatro de rua em Lisboa NOS ENFATRIÕES, ALCMENA RECEBE DE JÚPITER A TAÇA DE OURO DE PTERELAU

3 - O TRAUMA DA DEFICIÊNCIA

1547/50 – SOLDADO EM CEUTA


Aos vinte e dois anos de idade foi cumprir serviço de armas de dois anos, como soldado fronteiro, naquela praça portuguesa de África:


Qualquer Mouro desmandado

Nos comete sem nenhum pejo

Isto não é praguejar,

Mas toda a culpa é da fome,

Porque gente que não come

Mal poderá pelejar

Gabais esta vida cá

E desgabais-me Lisboa.

Eu dera esta vida boa

A troco dessa outra má.

Por usar costume antigo, Carta de Ceuta


Perde uma vista, num acidente com armas:


Agora exprimentando a furia rara

De Marte, que nos olhos quiz que logo

Visse, e tocasse o acerbo fructo seu.

E neste escudo meu

A pintura verão do infesto fogo.

Canção X –Vinde cá, meu tão certo secretário, Rhythmas 1595, 40v


FRONTEIRO MARROQUINO VISTA DE CEUTA

4 - AVENTURAS E DESVENTURAS

1550/52 – A BOÉMIA DE LISBOA


Com 25 anos de idade já estava de regresso a Lisboa. No início do ano tentou embarcar para a Índia, mas teria de esperar mais três anos para poder realizar essa viagem.

Frequentou estabelecimentos de diversão noturna, onde as bailadeiras entretinham os marinheiros cantando-lhes cantigas tristes, predecessoras do fado:

São ninfas de água, que estas são mais em Lisboa que em outras partes (e) chamam-lhes folionas, porque além dos seus rostinhos bonitos, bailam e cantam bem.


Uma vossa me deram, Carta de Lisboa

CORTESÃ DO MAL COZINHADO

5 - CARTAS AOS AMIGOS

1551 – CELESTINA EM LISBOA


Conservam-se várias cartas suas deste período, entre elas uma recentemente publicada:


Por que nem tudo seja falar-vos com siso, após as novas que vos mandei de África e da Índia, que cá chegaram, agora vos mando estas de folgar, que à orelha vos soarão melhor.

E que eu não seja destas intrigas o mais diligente propagador desta terra (onde) nunca faltam más línguas.

Celestina em Lisboa

LISBOA NO SÉC. XVI CELESTINA

6 - EXPERIÊNCIA COMO ATOR

1551 – DE NOVO O TEATRO


Em outubro ele próprio subiu aos palcos, na encenação da sua nova peça, no papel do Representador:


Mas em breves palavras direi a Vossas Mercês o resumo da obra: ela é toda de rir, do início até ao fim.

Comédia d’el-Rei Seleuco, Rimas 1645, 189r


Porém, o que é cómico é somente que a seguir a este anúncio a peça não tenha verdadeiramente nada para rir.

Em vez disso, a história que Camões dramatiza é triste. Numa das suas falas, o príncipe Antíoco, futuro rei Antíoco I Sóter (324-261 a.C.), sente-se muito doente e ansioso, e pede ao pagem que lhe cante um fado:


Cantai, por amor de mim,

Alguma cantiga triste;

Que todo o meu mal consiste

Na tristeza em que me vi.

Comédia d’el-Rei Seleuco, Rimas 1645, 195v


CAMÕES SOBE AOS PALCOS SELEUCO E O PAGEM

7 - AS MÁS COMPANHIAS

1552/53 – PRISÃO NO TRONCO DE LISBOA


Na noite da quinta-feira 16 de junho, dia de Corpus Christi, numa briga de rua, Camões feriu Gonçalo Borges Corte-Real, servidor do Paço.

Tinha então vinte e sete anos, e será em breve conduzido à prisão do Tronco, em Lisboa:

Em prisões baixas fui um tempo atado,

vergonhoso castigo de meus erros.

Soneto 5, Rimas 1598, 2r

CAMÕES PRESO COM OS SEUS COMPANHEIROS

8 - A GRANDE VIRAGEM

1553 – PARTIDA PARA A ÍNDIA


7 de março, o rei Dom João III mandou libertar Camões, que aos vinte e oito anos de idade partiu na nau São Bento, a 24 ou 26 de março, na armada de Fernão Álvares Cabral. Chegou a Goa em setembro desse ano, e em novembro participou na expedição contra o Rei de Chembé, conhecido como o “Rei da Pimenta”:

Foi logo necessário termos guerra.

Que uma ilha que o Rei de Porcá tem

E que o Rei da Pimenta lhe tomara,

Fomos tomar-lha, e sucedeu-nos bem.

Com uma armada grossa, que ajuntara

O vice-rei de Goa, nos partimos

Com toda a gente de armas que se achara,

E com pouco trabalho destruímos

A gente no curvo arco exercitada.

Nela nos detivemos só dois dias,

que foram para alguns os derradeiros,

Que estes são os remédios verdadeiros

Que para a vida estão guardados

Aos que a querem viver como cavaleiros.


Numa das suas cartas desse tempo comparou a vida do soldado com a do agricultor:


Dá-lhes a justa terra o mantimento,

dá-lhes a fonte clara a água pura,

mungem suas ovelhas cento a cento.
Não veem o mar irado, a noite escura,

por ir buscar a pedra do Oriente;

não temem o furor da guerra dura.
Vive um com suas árvores contente,

sem lhe quebrar o sono sossegado

o cuidado do ouro reluzente.
Oh, lavradores bem-aventurados!

como vivem no campo sossegados!
Se lhe falta o vestido perfumado,

se suas casas de ouro não se esmaltam,

esmalta-se-lhe o campo de mil flores,

onde os cabritos seus, comendo, saltam.

O Poeta Simónides falando, Rhythmas 1595, 51r-55r

A NAU CAPITÂNIA EM QUE CAMÕES VIAJOU PARA GOA
O CABO GUARDAFUI

9 - UMA VIDA PERDIDA EM FLOR

1554 – ETIÓPIA E ARÁBIA


Entre fevereiro e novembro de 1554 é incorporado na armada de Dom Fernando de Menezes para a expedição ao Golfo de Áden. Estancia até abril no chamado Mar de Monte Félix, na Abássia, na costa africana, junto ao Cabo Gardafui:


Junto de um seco, duro e estéril monte,

inútil e despido, calvo, informe.

Canção IX -Junto de um seco, duro e estéril monte, Rhythmas 1595, 35v


Compõe um soneto-epitáfio para Pero Moniz, seu companheiro de armas que ali morreu com 24 anos. De novo condena a guerra neste poema, pensamento que também exprimiu em Os Lusíadas:


No mundo, poucos anos e cansados

vivi, cheios de vil miséria dura;

Corri terras e mares apartados,

buscando à vida algum remédio ou cura.

Criou-me Portugal na verde e cara

pátria minha Alenquer; mas ar corruto,

que neste meu terreno vaso tinha

me fez manjar de peixes em ti, bruto

mar, que bates na Abássia fera e avara,

tão longe da ditosa pátria minha!

Soneto 100, Rimas 1598, 26r


Há outras elegias e epitáfios de Camões lamentando a morte de jovens soldados na guerra. Percorreu depois a costa da Arábia para norte até Mascate, onde invernou.

PERO MONIZ, COMPANHEIRO DE ARMAS DE CAMÕES

10 - UMA COMÉDIA DE ENGANOS

1555 – GOA, AUTO DE FILODEMO


Data possível da representação em Goa do seu Auto de Filodemo, sob o governador Francisco Barreto – ou teria sido em 1561, sob o vice-rei Dom Francisco Coutinho?
A peça é inspirada nas novelas de cavalaria, e o enredo termina com práticas mágicas e adivinhatórias.

Foi a primeira vez que na Ásia se representou um texto de um autor europeu.

A peça termina com atos mágicos, algo que rapidamente será proibido em palco, mas esta proibição não iria afetar o texto de Camões.

AUTO DE FILODEMO

11 - EXÍLIO E MAIS GUERRA

1556 – TERNATE, TIDORE E BANDA


Foi então enviado, talvez em serviço militar, pelo governador Francisco Barreto para Ternate, reino indígena estabelecido no sopé de um vulcão, nas Ilhas de Maluco, hoje Indonésia. Ali se erigira a fortaleza mais longínqua do Império Lusitano do Oriente.

Tratou-se de um castigo pelos seus versos mordazes, que desagradaram aos moradores portugueses de Goa. Estas sátiras foram publicadas mais tarde como ‘Disparates seus na India’, nas Rhythmas de 1595, 167v-168v

12 -  OS LUSÍADAS, PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE

1556-1571 – UM POEMA SOBRE A ÁSIA, COMPOSTO NA ÁSIA, TERMINADO EM ÁFRICA E PUBLICADO EM PORTUGAL


É por esta altura, durante a áspera Guerra Luso-Ternatesa, na qual Camões nos diz que ficou ferido e correu risco de vida, que ele iniciou a composição de Os Lusíadas:

Olha cá pelos mares do Oriente

as infinitas ilhas espalhadas.

Vê Tidore e Ternate com o fervente

cume que lança as flamas ondeadas.

As árvores verás do cravo ardente,

Com o sangue português ainda compradas.

Os Lusíadas X.132.1-6


Entre os vários propósitos do poema está o de suscitar a gratidão do rei de Portugal para com os súbditos que o servem com indómita coragem e abnegado espírito de sacrifício, enfrentando os mais graves perigos pelo mundo fora:


Olhai que ledos vão por várias vias,

Quais rompantes leões e bravos touros,

Dando os corpos a fomes e vigias,

A ferro, a fogo, a setas e pelouros,

A quentes regiões, a plagas frias,

A golpes de Idolatras e de Mouros,

A perigos incógnitos do mundo,

A naufrágios, a peixes, ao profundo.

Os Lusíadas X.147

ALBUQUERQUE CONQUISTA GOA EM 25 DE NOVEMBRO DE 1510

13 - PROTETORES PODEROSOS

1558 – O REGRESSO À ÍNDIA PORTUGUESA


Nesse ano o vice-rei Dom Constantino de Bragança assumiu o governo do Estado da Índia e Camões já pôde regressar a Goa em 1559.

Em 1561 sucedeu a Dom Constantino outro amigo de Camões, o Conde de Redondo, junto de quem o Poeta advogará a publicação dos Colóquios de Garcia de Orta, que sairão em 1563. A carta de recomendação em forma de ode que então escreveu ao vice-rei foi a sua estreia em letra impressa:


Pois vós, ó excelente,

e ilustríssimo Conde, do Céu dado

para fazer presente,

de heróis altos, o tempo já passado,

favorecei a antiga ciência,

que já Aquiles estimou:


Um velho que ensinado

das gangéticas Musas, na ciência

o qual (vos) está pedindo

vosso favor, e ajuda ao grão volume

que agora (está) à luz saindo

dará à medicina um novo lume,

e descobrindo irá segredos certos

(que) a todos os antigos (foram) encobertos.

Aquele único exemplo, Colóquios dos simples, e drogas e cousas medicinais da India, 1563; Rimas 1598, 63r-64v


DOM CONSTANTINO DE BRAGANÇA DOM FRANCISCO COUTINHO, O CONDE DE REDONDO

14 - ANOS DE PLENITUDE

1562-3/1565 – RESIDENTE E FUNCIONÁRIO EM MACAU


Camões partiu em seguida para Macau, enviado em comissão de dois anos como Provedor dos Defuntos e Ausentes.

No século XIX, durante a época romântica, os penedos de Camões em Patane, Macau, depois chamados «gruta», granjearam grande fama entre viajantes e escritores de muitos países.

Eles teriam sido o local de retiro do Poeta, longe do bulício do assentamento português junto às margens e zonas portuárias do Porto Interior de Macau.

AÍ se construiu em finais do século XVIII um pequeno mas emotivo santuário de homenagem à sua passagem pelo território, que foi  primeiro monumento público a Camões, precedendo em um século a estátua monumental que se lhe erigiu em 1867 em Lisboa, no Largo do Loreto, hoje Praça Luís de Camões.

Os celebrados penedos conservam hoje a sua importância como santuário e lugar secular de romagem e de culto cívico e artístico prestado ao mais universal dos portugueses.

A GRUTA DE PATANE

15 - AMOR SEM FRONTEIRAS

1564 – UM AMOR ORIENTAL


E foi realmente em Macau que Camões viveu um belo caso de amor com uma jovem da etnia local tanka. Esta paixão seria tão intensa quanto breve, pois em menos de um ano a sua amada desapareceria tragicamente, nos baixios situados não longe da foz do rio Mekong.

Após a morte dela por afogamento Camões crismou-a "Dinamene", do nome grego da ninfa dos oceanos.

Numa das várias composições suas em homenagem à jovem, Camões relata que certa vez sonhou que corria para alcançá-la no Paraíso, mas que ao gritar o nome dela o seu sonho se esvaiu:


e eu, gritando – Dina! antes que diga “Mene”,

acordo e vejo que (já) nem um breve engano posso ter.


Soneto 72 – Quando de minhas mágoas, a comprida, Rimas 1598, 19r

O romance entre Camões e a futura Dinamene foi o primeiro amor euroasiático a entrar na história da literatura mundial.

JOVEM TANKA

16 - DOR ETERNA

1565 – AFOGAMENTO DE DINAMENE


Com a posse do novo vice-rei, Dom Antão de Noronha, terminava a comissão de serviço de Camões, que tinha de regressar à Índia com os quarenta anos completos.
Foi nessa triste viagem que ele perdeu a bela jovem de Macau, que imortalizará na sua poesia:


Ah, minha Dinamene, assim deixaste

Quem não deixara nunca de querer-te!

Ah, Ninfa minha, já não posso ver-te,

Tão asinha esta vida desprezaste!


Eternamente as águas lograrão

A tua peregrina formusura;

Mas, enquanto me a mim a vida dura,

Sempre viva em minha alma te acharão.


Ondas – dizia – antes que Amor me mate,

Tornai-me a minha ninfa, que tão cedo

Me fizestes à morte estar sujeita.


Para que ali, nas entranhas dos penedos

em vida morto, sepultado em vida

Me queixe copiosa e livremente.


Colagem de vários sonetos


Alma minha gentil, que te partiste

Tão cedo desta vida descontente,

Repousa lá no Céu eternamente,

E viva eu cá na terra sempre triste.


Se lá no assento etéreo, onde subiste,

Memória desta vida se consente,

Não te esqueças daquele amor ardente

Que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te

Alguma coisa a dor que me ficou

Da mágoa, sem remédio, de perder-te,


Roga a Deus, que teus anos encurtou,

Que tão cedo de cá me leve a ver-te,

Quão cedo de meus olhos te levou.


Rhythmas 1595, 4v

"DINAMENE", A NINFA DAS ÁGUAS

17 - O MILAGRE DO LIVRO MOLHADO

1565 – O POEMA SALVO DAS ÁGUAS


Apesar da enorme perda sentimental que sofreu, Camões conseguiu salvar uma parte significativa de Os Lusíadas que já então estava composta:


Este (rio Mekong) receberá, plácido e brando,

no seu regaço o Canto, que molhado

vem do naufrágio triste e miserando.

Os Lusíadas X.128.1-3


Após uma curta estadia entre os budistas do Reino do Camboja (Os Lusíadas X.127.7-8), em que estudou a religião e os costumes dos monges – sendo esse o único momento na sua vida em que saiu dos territórios controlados pela Coroa portuguesa – Camões regressou por fim a Goa, via Malaca.

O CANTO QUE VEIO DOS OCEANOS

18 - DE NOVO RECLUSO

1566 – PRISÃO EM GOA


Em Goa, Camões foi acusado de malversão dos fundos que lhe cabia trazer da China, mas que se haviam perdido no naufrágio, e foi colocado a ferros por ordem do novo vice-rei:



(...) quando será o injusto mando executado.

Os Lusíadas X.128.6


Camões terá de ir responder a Lisboa por este processo em 1567. Pero Barreto levou-o até à Ilha de Moçambique, onde chegou em fevereiro de 1568, mas mandou retê-lo ali por dívidas.

O INJUSTO MANDO

19 - UMA OBRA PERDIDA?

1568/69 – ILHA DE MOÇAMBIQUE


Em 1569, Diogo do Couto ali o encontrou vivendo em grande penúria, mas aperfeiçoando a sua epopeia:


Ficou em estado de viver de esmolas de algumas pessoas. Este inverno reformou o Camões suas Lusíadas e me pediu que eu lhas comentasse.

Couto, Décadas VIII.5.8


Alguns amigos do poeta saldaram-lhe as dívidas que ele tinha e pagaram-lhe a viagem de retorno ao Reino na nau Santa Clara, em novembro daquele ano:


De que queixando-se ele a alguns fidalgos amigos, que vinham na nau, eles se fintaram entre si e o desempenharam, pagando ao capitão os duzentos cruzados.

Mariz, Os Lusíadas 1613, 5v-6r

CASA DE CAMÕES NA ILHA DE MOÇAMBIQUE

20 - A URGÊNCIA EM PUBLICAR

1569/70 – REGRESSO À PÁTRIA


Camões compôs em Moçambique o seu Parnaso, obra que lhe seria furtada:


Neste inverno começou Luís de Camões a compor um livro muito douto, de muita erudição, que intitulou Parnaso de Luís de Camões, porque continha muita poesia, filosofia, e outras ciências, o qual lhe desapareceu, e nunca pude em Portugal saber dele.


Couto,  Décadas  VIII.5.8


Chegou ao Reino a 7 de abril de 1570, pelo porto de Cascais, quando grassava um terrível surto de peste em Lisboa.

Foi absolvido das acusações que o traziam capitulado e iniciou a procura de apoios para a publicação de Os Lusíadas.

A SAUDADE

21 - A HISTÓRIA HERÓICA DE UM POVO

1571/2 – A VIAGEM DO GAMA EM  OS LUSÍADAS

Foi em 1571 que submeteu a sua obra à censura, e recebeu acolhimento muito entusiástico por parte do Rei Dom Sebastião, como se lê no alvará régio de 24 de setembro:


Eu el-Rey faço saber aos que este Alvará virem que eu tenho por bem e me apraz dar licença a Luís de Camões para que possa fazer imprimir nesta cidade de Lisboa uma obra em oitava rima chamada Os Lusíadas, que contém dez cantos perfeitos, na qual por ordem poética em versos se declaram os principais feitos dos portugueses nas partes da Índia, depois que se descobriu a navegação para elas, por mandado de el Rey Dom Manuel, meu visavô.

Alvará da edição de Os Lusíadas de 1572

22 - POR FIM, A GLÓRIA

CAMÕES, UM GIGANTE ENTRE GIGANTES


12 de março de 1572: ACABA DE SE IMPRIMIR EM LISBOA a primeira edição de  Os Lusíadas, pelo impressor António Gonçalves.

Camões tem então 47 anos, e adentra o Parnaso dE Apolo, lado a lado com Homero, Virgílio, Ovídio ou Dante.



23 - PENSÃO DE SOBREVIVÊNCIA

1572  A TENÇA


A 28 de julho de 1572, o rei concede a Luís de Camões uma tença anual de 15.000 réis, pelos serviços prestados na Índia e pela publicação do poema, a qual será renovada a cada triénio: 2 de agosto de 1575 e 2 de junho de 1578.


Eu el-Rei faço saber aos que este alvará virem que havendo respeito ao serviço que Luís de Camões cavaleiro fidalgo de minha casa me tem feito nas partes da Índia (...) e a informação que tenho de seu engenho e habilidades e a suficiência que mostrou no livro que fez das cousas da India, tenho por bem e me apraz de lhe fazer mercê de quinze mil reis de tença em cada um ano.

Carta de mercê a Luís Vaz de Camões, com efeitos a partir de 12 de março de 1572 – 28.08.1572, ANTT

24 - DEDICAÇÃO E SERVIÇO

1578/80 – FOME E MISÉRIA NO FINAL DA VIDA


Camões recebeu da Coroa uma pensão como militar, como funcionário público, e ainda como autor de Os Lusíadas. Porém, o valor que lhe foi atribuído não era muito elevado, e também não foi atualizado nas duas renovações que teve. Os atrasos nos pagamentos eram constantes, sobretudo após o desastre português em Marrocos (1578) e a sobrecarga do Tesouro com o resgate dos cativos.

O javanês António prestou a Camões um apoio vital durante os últimos tempos de ambos. Consta até que o fiel jau chegou a pedir esmola nas ruas para o sustento do Poeta.

O povo de Lisboa homenageou António a 12 de novembro de 1885, batizando uma rua do Bairro de Alcântara com o nome “Rua Jau”, paralela à “Rua dos Lusíadas”, ambas as artérias unidas pela “Rua Luís de Camões”.

ANTÓNIO, CRISTÃO DE JAVA

25 - POBREZA, DOENÇA E ABANDONO

1580 – A MORTE AOS 55 ANOS


Luís de Camões faleceu a 10 de junho, no Hospital Real de Todos-osSantos, ao Rossio de Lisboa. Os seus amigos declararam que foi no ano de 1579, apenas um único documento nos diz que foi em 1580.

Um desses amigos “lhe mandou fazer sepultura própria, (mas tão rasa como as do mais povo) mas com este epitáfio nela esculpido:


AQUI JAZ LUÍS DE CAMÕES, PRÍNCIPE DOS POETAS DE SEU TEMPO. VIVEU POBRE E MISERAVELMENTE, E ASSIM MORREU. ESTA CAMPA LHE MANDOU PÔR DOM GONÇALO COUTINHO, NA QUAL NÃO SE ENTERRARÁ [MAIS] PESSOA ALGUMA”.

Mariz,  Os Lusíadas 1613


Após a morte do Poeta, por ordem do rei Filipe I, grande admirador de Camões, a sua Mãe continuou a beneficiar daquela tença, como se lê nas cartas de mercê de 31 de maio de 1582 e de 5 de fevereiro de 1585.

A OBRA INTEIRA DE CAMÕES

CABE

EM 4 OU 5 VOLUMES

MAS PARA SE REUNIR TUDO o que sobre ele se escreveu

 - e se continua a escrever - SERIA NECESSÁRIA UMA biblioteca de dimensões colossaiS.

FICHA TÉCNICA

Texto – Felipe de Saavedra;

Ilustrações – com apoio de ferramentas de inteligência artificial e recurso ocasional a algumas fontes iconográficas:

00 – retrato de Camões com base na cópia feita por Luís José Pereira de Resende, datada entre 1819 e 1844, do original pintado por Fernão Gomes em vida do Poeta;

03 fronteiro marroquino, il. baseada em Soldado Árabe, por Gustavo Simoni, sem data;  Ceuta, gravura antiga anónima;

08 – il. extraída do Livro de Lisuarte de Abreu, datação incerta;

09 – il. com base na gravura Vista de Cabo Guardafui (Somália), Corno de África, África Oriental, desenhada por Slom, 1888;

11 – António Bocarro, Livro das plantas de todas as fortalezas, 1635, Biblioteca Pública de Évora;

12 – il. baseada em Conquista de Malaca, por Ernesto Condeixa, 1903;

14 – il. baseada em Camões na gruta de Macau, por Francisco Metrass, 1853; il. a partir de Camões na gruta de Macau, gravura de Desenne para a edição do Morgado de Mateus, 1817;

15 – quadro a óleo Moça tanka, por George Chinnery (Londres 1774-1852 Macau), original 30.2 x 26cm;

18 – il. com base em Camões na prisão de Goa, por Moreaux, c.1850; Camões na prisão, data desconhecida, caricatura anónima alegadamente contemporânea de Camões, provavelmente posterior;

19 – portão e rua da casa de Camões na Ilha de Moçambique, imagens do autor, junho de 2025;

21 – il. baseada em Vasco da Gama e o Samorim, gravura anónima, c.1850, coloração posterior;

25 – il. baseada em Mort de Camoëns, de Simon Guérin, c.1840.

INAUGURAÇÃO NO CONGRESSO DE 2024