ODE III
FOGEM AS NEVES FRIAS
Primeira publicação:
Texto adotado:
[TEMPUS FUGIT]
Ode 3
I
Fogem as neves frias
dos altos montes quando reverdecem
as árvores sombrias;
as verdes ervas crescem,
05 e o prado ameno de mil cores tecem.
II
Zéfiro brando espira;
suas setas Amor afia agora;
Progne triste suspira,
e Filomela chora;
10 o Céu da fresca terra se namora.
III
Já a linda Citerea
vem, do coro das Ninfas rodeada;
a branca Pasitea,
despida e delicada,
15 com as duas irmãs acompanhada.
IV
Enquanto as oficinas
dos Ciclopes Vulcano está queimando,
vão colhendo boninas
as Ninfas, e cantando;
20 a terra co ligeiro pé tocando.
V
Desce do áspero monte
Diana, já cansada da espessura,
buscando a clara fonte,
onde por sorte dura
25 perdeu Actéo a natural figura.
VI
Assim se vai passando
a verde Primavera, e o seco Estio:
o Outono vem entrando;
e logo o Inverno frio,
30 que também passará por certo fio.
VII
Ir-se-á embranquecendo
com a frígida neve o seco monte;
e Júpiter chovendo
turbará a clara fonte;
35 temerá o marinheiro a Orionte.
VIII
Porque, enfim, tudo passa;
não sabe o Tempo ter firmeza em nada:
e a nossa vida escassa
foge tão apressada,
40 que quando se começa é acabada.
IX
Que se fez dos Troianos
Hector temido, Eneias piadoso?
Consumiram-te os anos,
ó Creso tão famoso,
45 sem te valer teu ouro precioso.
X
Todo o contentamento
crias que estava em ter tesouro ufano!
Ó falso pensamento,
que à custa de teu dano
50 do sábio Sólon creste o desengano!
XI
O bem que aqui se alcança
não dura por possante, nem por forte;
que a bem-aventurança
durável, de outra sorte
55 se há de alcançar, na vida, para a morte.
XII
Porque, enfim, nada basta
contra o terrível fim da noite eterna;
nem pôde a Deusa casta
tornar à luz superna
60 Hipólito, da escura sombra Averna.
XIII
Nem Teseu esforçado,
ou com manha, ou com força valerosa,
livrar pôde o ousado
Pirítoo da espantosa
65 prisão leteia escura, e tenebrosa.
Ode III
I
Derretem os gelos no alto das montanhas, quando de novo as umbrosas árvores virescem; vicejam as verdejantes ervas, que o prado deleitoso de infinitos tons coloram.
II
O vento Zéfiro suave sopra, Cupido as setas já aguça, gorjeia a melancólica andorinha, trina o rouxinol, e o céu pela renovada terra é seduzido.
III
Surge Vénus envolta pelo coro das ninfas; e a nívea Pasítea, desnuda e perfeita, traz consigo as outras duas Graças.
IV
Enquanto Vulcano fogueia nas forjas dos ciclopes, colhem flores as ninfas entoando cânticos, tão leves que os pés delas mal parecem tocar o chão.
V
Artemisa baixa da montanha agreste, já fatigada dos bosques, procurando a nascente pura onde, por desdita, o caçador Actéon se transformará em cervo.
VI
Assim se vão intercalando a viçosa primavera e o árido verão; o outono já se estreia, e depois dele virá o gélido inverno, que chegando ao seu termo também findará.
VII
Então a alvura das neves glaciais revestirá a árida montanha, as fontes límpidas se avolumarão com as águas das chuvas de Júpiter; e o [aparecimento da constelação de] Oríon [que anuncia as procelas marinhas] afligirá o nauta.
VIII
Pois tudo vai mudando e o tempo jamais se detém: escapa-se-nos fugazmente a breve vida, que mal se iniciou é já finda.
IX
Onde estão agora esses heróis troianos, o tão receado Heitor e o pio Eneias? O tempo te levou, ó Creso célebre, sem que para nada o teu ouro te servisse.
X
Pensaste que a ventura residia na tua enorme riqueza? Ideia enganadora, pois já Sólon te avisara [que, até chegar à hora derradeira da vida, nenhum homem poderá considerar-se seguramente feliz].
XI
Os bens que nesta existência conquistamos não são duradouros, falta-lhes a potência e a força; a felicidade eterna no Além obtém-se nesta vida de outra forma.
XII
Porque nada, enfim, tem força perante o temível termo da eterna treva; e nem mesmo a pura Artemisa pôde trazer do negro Orco o [jovem devoto] Hipólito, para o restituir à claridade da superfície.
XIII
Nem também o intrépido Teseu, tão astuto e corajoso, conseguiu libertar o audaz Pirítoo do sombrio cárcere da Morte.
情歌一
美丽优雅的夫人,当我看见
你美若天仙,金发和白雪的前额,
标致的嘴唇,真诚的微笑,
白玉的项颈,水晶的酥胸,
我没有别的欲望,
只求你让我看见你的完美,
我向众神和世界宣布,
我是属于你的,
在哭泣的泪水里燃烧。
对爱你的我,
见我那么懂得爱你,我甚至爱上自己,
我对自己那么心慌意乱,
我为你对自己充满嫉妒。
如果由于精神懦弱,
生活在不理解的悲伤,
又甜蜜又痛苦;
我逃离自己,
跑去躲藏进你的眼神,
我感觉幸福,嘲笑我受的折磨,
我该抱怨谁?
如果在我遭受的苦难中,
你给了我生命。
是我自己不配得到
这样无价的美好?
可是我都不能对自己这样想,
这样对你,是我太傲慢。
假使爱神出于某偶然,
在欲望部分出差错,
除了观赏你我尚有所图,
有某些无耻疯狂想法,
软弱只是肉体的,是世间的,
但不是思想的,是神性的,
如果在崇高的想象中,
我在视像中沉迷,或犯下原罪,
请你原谅我所看见的情景。
然而,由于我抗拒
如此大胆而空幻的欲望,
在你纯洁的目光里我变得坚强,
用你的美丽做我的甲胄。
你的黛眉弯弯,
是爱神拉满的弓,
用你美丽的头发做弓弦,
因为你的一切对他都适合,
你眼睛的光芒是利箭,
刺伤抬眼看向它们的人。
那样美丽的眼睛,
超越过爱神的武器,
用来摧毁灵魂。
然而如果痛苦是巨大的,
回报的是崇高的不幸,
用来杀戮的武器是运气,
你还欠他一个死亡。
美丽的夫人,一个人
抱怨的眼泪,叹息,思想,
是对你感到痛苦而受宠若惊。
爱你的人还想要什么更美妙的事,
哭泣着,甜蜜地想象,
来释放他的痛苦?
一个活着不快乐的人
不必减轻他的悲伤,
因为他会感激悲伤;
扬起快乐的脸庞,
来忍受折磨,为了不愧得到它们:
一个抱怨不幸的人才受苦,
因为他不懂得这份荣光。
因此如果我的思想
变得有些低落而愁苦,
是因为不知道这个秘密:
这样我有理由
不但原谅爱神的折磨
而且还要感激他的过失。
因为这种信心,我值得
有那双眼睛的陪伴,饱含宠爱
和甜蜜的笑容。
可是啊!一个天堂
不能赢得另一个天堂。
我的希望如此纠结,
用得不到的幸福来自我满足。
如果我有理由拒绝救赎,
情歌呵,你知道只因为看不见希望,
我才用言辞欺骗欲望。
COMENTÁRIO À ODE III
16 : Enquanto [n]as oficinas
EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES
卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU
澳門科技大學
PROJETO FRG-25-029-UIC
A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO
卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版

