CANÇÕES | 情歌

EDIÇÃO, PARÁFRASE, TRADUÇÃO CHINESA E COMENTÁRIO (TRABALHO EM CURSO)

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CANÇÃO XI

Nem roxa flor de Abril


Luís de Camões

Original

Canção 11

I


Nem roxa flor de Abril,

Pintor do campo ameno e da verdura,

Colhida entre outras mil,

Foi nunca assim agradável à donzela

05                         Cortez, alegre e bela,

De sua mãe cuidado e glória pura,

Como a mim foi a inculta formosura

Natural, que pudera

A Saturno render na sua Esfera.


II


10                         Natural fonte agreste,

Não lavrada de artífice excelente,

Mas por arte celeste

Derivada de rústico penedo,

Não fez jamais tão ledo

15          Cansado caçador por sesta ardente,

Quanto o cuidado a mim me fez contente

Do ver tão descuidado,

Que faz sereno a Júpiter irado.


III


Fruta que sem concerto

20          Naturalmente em ramos se pendura,

Achada por acerto;

A quem pintada a vê de sangue e leite,

Não lhe dará o deleite,

Que essa graça me dá sem compostura,

25          Ornamento da mesma Formosura,

E o toucado sem arte.

Que tornara pastor ao bravo Marte.


IV


A manhã graciosa,

Que derramando sai de entre os cabelos,

30                         A flor, o lírio, a rosa,

Sem ajuda de ornato, ou de artifício,

Não faz o benefício,

Que faz a luz dos vossos olhos belos

A quem os vê tão puros e singelos;

35                         E esse inocente riso,

Por quem Apollo o Tejo torna Anfriso.


V


Outeiros coroados

Das árvores que fazem espessura

Com os ramos copados

40          Alegre, que mão dextra os não cultiva,

Graça tão excessiva

Não têm na sua natural verdura,

Quanta na de esses olhos, clara e pura,

Deposita a esperança,

45          Com que Amor gosto, a Mãe tormento alcança.


VI


Dos simples passarinhos.

A música sem arte concertada,

De entre os verdes raminhos,

Tão suave não é, tão deleitosa

50                         A quem na selva umbrosa

Com mente ouvindo-a está toda elevada,

Quanto a mim essa fala doce agrada,

E o natural aviso,

Que roubam a Mercúrio cetro e siso.


VII


55                         De frescos rios água,

Que clara entre arvoredos se deriva,

Caindo de alta frágua

Esmaltando de pérolas no prado

O verde delicado,

60          Com brando som aos olhos fugitiva,

Não nos alegra quanto a graça esquiva

De essa luz soberana,

Que faz cortês a rústica Diana.


VIII


A tal luz (ó Canção, que ousaste vê-la!)

65                         Vendo está já prostrado

Saturno triste, Júpiter irado.

Bravo Marte, áureo Apolo, Vénus bela,

E Mercúrio, e Diana, e toda Estrela.

FELIPE DE SAAVEDRA

(2026)

PARÁFRASE

Canção XI

Nem a flor vermelha do mês de Abril, que traz cor ao deleitoso campo e verde à planura, escolhida de entre todas as outras, foi alguma vez tão agradável para uma menina, tão gentil, feliz e formosa, mimo e supremo orgulho da mãe dela, como o foi para mim a vossa beleza virgem e prístina, que susteria Cronos na sua órbita.




Nem a fonte que a natureza tem nos montes, não tocada pelo trabalho de mão humana, mas brotando de uma penha tosca por ímpeto celestial, fez jamais tão feliz o caçador fatigado sob o pino do sol, quanto eu me sinto ao contemplar a vossa atitude tranquila que acalmaria o irascível Zeus.




A fruta que pende espontaneamente e sem artificialidade dos galhos da árvore, encontrada por casualidade por quem a contempla, esmaltada de rubor e de alvura, não lhe oferecerá prazer tão grande quanto a mim me proporciona a vossa graça sem afetação, glória da própria beleza, e esse penteado tão natural que converteria em pastor o guerreiro Ares.




A airosa aurora que as flores revela, mostrando o lírio e a rosa com os seus primeiros raios sem qualquer adorno ou enfeite, não é tão benfazeja quanto o é o brilho dos vossos lindos olhos para quem os contemple, virginais e genuínos, ou para quem escute esse riso tão ingénuo que inspira a poesia como se Apolo fizesse do Tejo o seu rio.




As colinas cobertas de frondosas árvores copadas criando bosques, alegres e intocadas pelos jardineiros, não têm no seu verdor natural o encanto tão excelso, luminoso e límpido que a esperança conferiu aos vossos olhos, agradando a Cupido e enciumando Afrodite.




Para quem na mata espessa nele atenta com encanto, não é tão brando e melodioso o despretensioso canto, entoado por entre os verdes galhos pelos singelos passarinhos, quanto o são para mim as vossas mélicas palavras e a sensatez natural que elas possuem, que despojam Hermes do seu caduceu e juízo.




A água que corre límpida no frescor dos rios por entre os bosques, despenhando-se em cascata de altas penedias, pontilhando de mil pérolas cristalinas o verde plaino com suave rumorejar, fugindo à nossa vista, não proporciona tanto prazer quanto o fugidio encanto desse vosso brilho absoluto, capaz de civilizar Artemisa, a deusa dos arvoredos.




Esse brilho, ó tu Canção que ousaste fitá-lo, já deteve na sua órbita o melancólico Cronos, o sanhudo Zeus, o fero Ares, o loiro Apolo, a formosa Afrodite, e Hermes, e Artemisa, e as estrelas todas.

ZHANG WEIMIN

(2026)

简体中文

情歌十一

四月——怡人绿野的画家,

从百花中

选出的紫花;

快乐又俏丽的宫廷少女,

妈妈的爱女,纯洁的荣光,

对我来说,比不上

你那自然质朴的美,

能让萨图尔努斯

在他的星球上对你臣服。


自然的山泉,

未经人工的雕琢

是天造地设,

从山岩间涌出,

疲惫的猎人炎夏的午睡,

从未有过如此快乐,

比不上看见你 

那样纯真烂漫给我的快乐,

你无忧无虑让朱庇特平息怒气!


仿佛一只果子

天然垂在枝头,

被偶然发现,

见她被描绘得

白里透红,

比不上那种

无艺术加工之美,

更让我入迷。

让勇猛的马尔斯变成牧人。


明媚的晨光女神,

长发间流光溢彩;

不加妆扮与修饰的

百合与玫瑰,比不上

你美丽眼睛的光艳,

它们是那样纯洁,

还有你天真的笑容

阿波罗为了你

把特茹河变成安佛利索 。

小山顶上生长着

茂密快乐的树林,

不是巧手种植,

优美压低了枝头,

那葱翠的绿意,

比不上你

明亮而纯洁里眼睛

寄托的希望 ,

让阿摩尔欢喜,让维纳斯妒忌。


在翠绿的枝叶间 

小鸟悦耳地鸣叫,

是大自然的音乐,

那么优美而柔和,

令人陶醉,比不上

你甜蜜的话语, 

传来的自然的消息,

偷走了墨丘利的

魔杖和智慧。


晶莹清澈的河水

在树林间流动,

从高崖悬挂的瀑布,

给绿色的草地

镶嵌上珍珠。

从眼前逃逸的潺潺水声,

比不上你高贵优雅的

眼神的冷漠更令人快乐,

让山野的狄安娜彬彬有礼。


情歌啊,你竟敢看她的目光!

那眼神已慑服了众神:

悲伤的萨图尔努斯,愤怒的朱庇特,

勇敢的马尔斯,金色的阿波罗,美丽的维纳斯,

还有墨丘利,狄安娜和所有的星星。

COMENTÁRIO À CANÇÃO XI

A canção desenvolve-se em torno de metáforas da virgindade e da ausência de artifícios por parte de uma donzela muito jovem, que pode ser aproximada da idade da destinatária da Ode V.

O Poeta vai comparando a homenageada a uma fonte brotando da natureza sem trabalho humano, à fruta do bosque e não do pomar, aos próprios bosques e não aos jardins, a tudo o que não foi tocado pelo homem.

28-30 : A manhã bela, amena, / Seu rosto descobrindo, a espessura / Se cobre de verdura, Canção III.15-17.

36 : Ouviu o rio Anfriso a lira de ouro / Que o seu sacro inventor ali tangia, Camões Écloga A rústica contenda desusada. Lugar paralelo, também sobre o rio Tejo: Porque de vossas águas Febo ordene / Que não tenham inveja às de Hipocrene, Camões, OL I.4.7-8. A fonte de Hipocrene na Beócia e o rio Anfriso na Tessália são lugares emblemáticos para Apolo e para a poesia apolínea.

51 : Aqui com o sentido de enlevada.


对中文翻译的评注:

36 : 希腊神话中大洋神的儿子,安佛利索河神,这条河是波罗圣地之一。

44 :  绿色代表希望,这句话是说,女孩儿的眼睛是绿色的。

EDIÇÃO DIGITAL BILINGUE DA OBRA DE CAMÕES

贾梅士作品双语数字版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU

澳門科技大學

PROJETO FRG-25-029-UIC

A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO

卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版


Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau