CANÇÕES |
情歌
EDIÇÃO, PARÁFRASE, TRADUÇÃO CHINESA E COMENTÁRIO (TRABALHO EM CURSO)
编辑、改写、中文翻译和评论(进行中)
CANÇÃO IX
Junto dE um sEco, duro, estÉril monte
Canção 9
I
Junto de um seco, duro, estéril monte,
Inútil e despido, calvo e informe,
Da Natureza em tudo aborrecido;
Onde nem ave voa, ou fera dorme,
05 Nem corre claro rio, ou ferve fonte,
Nem verde ramo faz doce ruído;
Cujo nome, do vulgo introduzido,
É Felix, por antífrase infeliz;
O qual a natureza
10 Situou junto à parte,
Aonde um braço de alto mar reparte
A Abássia da Arábica aspereza,
Em que fundada já foi Berenice,
Ficando à parte donde
15 O Sol que nela ferve se lhe esconde.
II
O Cabo se descobre, com que a costa
Africana, que do Austro vem correndo,
Limite faz, Arómata chamado:
Arómata outro tempo; que volvendo
20 A Roda, a ruda língua mal composta
Dos próprios, outro nome lhe tem dado.
Aqui, no mar, que quer apressurado
Entrar por a garganta deste braço,
Me trouxe um tempo e teve
25 Minha fera ventura.
Aqui nesta remota, áspera e dura
Parte do mundo, quis que a vida breve
Também de si deixasse um breve espaço;
Porque ficasse a vida
30 Por o mundo em pedaços repartida.
III
Aqui me achei gastando uns tristes dias,
Tristes, forçados, maus e solitários,
De trabalho, de dor, e de ira cheios:
Não tendo tão somente por contrários
35 A vida, o Sol ardente, as águas frias,
Os ares grossos, férvidos e feios,
Mas os meus pensamentos, que são meios
Para enganar a própria natureza,
Também vi contra mim
40 Trazendo-me à memória
Alguma já passada e breve glória,
Que eu já no mundo vi, quando vivi;
Por me dobrar dos males a aspereza,
Por mostrar-me que havia
45 No mundo muitas horas de alegria.
IV
Aqui estive eu com estes pensamentos
Gastando tempo e vida; os quais tão alto
Me subiam nas asas, que caía
(Oh vede se seria leve o salto!)
50 De sonhados e vãos contentamentos,
Em desesperação de ver um dia.
O imaginar aqui se convertia
Em improvisos choros e em suspiros,
Que rompiam os ares.
55 Aqui a alma cativa,
Chagada toda estava em carne viva,
De dores rodeada e de pesares,
Desamparada e descoberta aos tiros
Da soberba Fortuna;
60 Soberba, inexorável e importuna.
V
Não tinha parte donde se deitasse.
Nem esperança alguma, onde a cabeça
Um pouco reclinasse, por descanso:
Tudo dor lhe era, e causa que padeça,
65 Mas que pereça não; porque passasse
O que quis o Destino nunca manso.
Oh que este irado mar gemendo amanso;
Estes ventos da voz importunados,
Parece que se enfreiam:
70 Somente o Céu severo,
As Estrelas e o Fado sempre fero,
Com meu perpétuo dano se recreiam;
Mostrando-se potentes e indignados
Contra um corpo terreno,
75 Bicho da terra vil e tão pequeno.
VI
Se de tantos trabalhos só tirasse
Saber inda por certo que alguma hora
Lembrava a uns claros olhos que já vi;
E se esta triste voz, rompendo fora,
80 As orelhas angélicas tocasse
De aquela em cuja vista já vivi;
A qual, tornando um pouco sobre si,
Revolvendo na mente pressurosa
Os tempos já passados
85 De meus doces errores,
De meus suaves males e furores
Por ela padecidos e buscados,
E (posto que já tarde) piedosa,
Um pouco lhe pesasse,
90 E lá entre si por dura se julgasse.
VII
Isto só que soubesse me seria
Descanso para a vida que me fica;
Com isto afagaria o sofrimento.
Ah, senhora! Ah, Senhora! E que tão rica
95 Estais, que cá tão longe de alegria
Me sustentais com um doce fingimento!
Logo que vos figura o pensamento,
Foge todo o trabalho e toda a pena.
Só com vossas lembranças
100 Me acho seguro e forte
Contra o rosto feroz da fera Morte;
E logo se me juntam esperanças
Com que, a fronte tornada mais serena,
Tona os tormentos graves
105 Em saudades brandas e suaves.
VIII
Aqui com elas fico perguntando
Aos ventos amorosos, que respiram
Da parte donde estais, por vós, senhora;
As aves que ali voam, se vos viram,
110 Que fazíeis, que estáveis praticando;
Onde, como, com quem, que dia e que hora.
Ali a vida cansada se melhora.
Toma espíritos novos, com que vença
A fortuna e trabalho,
115 Só por tornar a ver-vos,
Só por ir a servir-vos e querer-vos:
Diz-me o tempo que a tudo dará talho:
Mas o desejo ardente, que detença
Nunca sofreu, sem tento
120 Me abre as chagas de novo ao sofrimento.
IX
Assim vivo; e se alguém te perguntasse,
Canção, porque não morro;
Podes-lhe responder: que porque morro.
Canção IX
Foi perto de um monte árido, rijo e infecundo, vão e nu, disforme e escalvado, odiado pela natureza, onde nem aves nem animais habitam, nem existem límpidos rios ou vivas fontes, nem galhos que sussurrem com o vento, e que por nome tomou Monte Félix, por antífrase de Monte Infeliz. A natureza colocou-o não longe de onde a Abissínia é separada do deserto arábico pelo Mar Vermelho, em cuja margem ocidental foi em tempos fundada a cidade de Berenice.
Dali se avista o cabo em que termina a costa africana vinda do sul, chamado Cabo dos Aromas. Dos Aromas na Antiguidade, pois com o tempo a língua dura e tosca dos habitantes locais apôs-lhe outro nome. Aqui o meu destino implacável me trouxe um dia, ao estreito por onde as águas passam céleres. Nesta zona do mundo tão distante, hostil e adversa, quis o Fado que da minha breve vida ali gastasse um também breve tempo, para que ela fosse dividida pelas várias partes do mundo.
Aqui me encontrei consumindo dias infelizes. Amargurados, coagidos, funestos e sós, plenos de aflição, de mágoa, e de raiva: eram meus inimigos não só a vida, o sol candente, as águas gélidas, os ares insalubres, húmidos e pesados, mas até os meus pensamentos, com que me poderia evadir da realidade, viraram-se igualmente contra mim, avivando-me a memória desses dias mais felizes, embora fugazes, que outrora passei. Isto para me duplicar o sofrimento, mostrando-me que também existem no mundo tantas horas de felicidade.
Aqui estive eu perdendo o meu tempo e a minha vida com as minhas cogitações. E tão alto elas me erguiam nas asas do pensamento, que eu me despenhava (atentai quão grande era a queda) de alegrias sonhadas e vãs, no desespero de não as ver chegar jamais. Tanta meditação levava-me a prantos e lamentações que cortavam os ares. Aqui a minha alma prisioneira estava em sangue e em ferida, cercada só por penas e aflições, à mercê dos golpes de um Destino cruel, feroz, implacável e tenaz.
O corpo também não tinha onde repousar, nem esperava já achar lugar onde pudesse descansar a cabeça. Tudo lhe era penoso e motivo de sofrimento. Mas não de morte, para que sofresse até ao fim o que o Fado acirrado lhe decretara. Parece até que consigo amansar este mar revolto com os meus choros, e até a ventania amaina. Somente o Céu rigoroso, os astros e o destino sempre atroz se divertem a perseguir-me constantemente, mostrando-se poderosos e enraivecidos contra um ínfimo animal terrestre.
Se como resultado de todo este sofrimento pelo menos eu soubesse que a bem-amada de olhos belos se recordava de mim; que esta voz magoada chegaria aos ouvidos angelicais daquela em cuja vista eu vivia; e que ela, refletindo um pouco, reviveria os tempos idos dos meus verdores da mocidade, dos meus prazenteiros males e desvarios por ela sofridos e desejados, e, mesmo que demasiado tarde, algo lamentaria por ter sido tão distante para comigo.
Bastar-me-ia isto saber para alcançar a paz para o resto da minha vida e aliviar os meus males. Ah, Senhora, Senhora. E tão poderosa sois que as vossas deliciosas falsidades me alimentam. Assim que penso em vós, logo se desanuviam as agruras e as dores, e só por lembrar-me de vós volto a sentir-me forte e valoroso contra a face assustadora da própria morte; e logo ganho a esperança de que, recuperada a serenidade mental, o meu grande sofrimento por vós se transforme em doces e ternas saudades.
E com as saudades me acho perguntando por vós aos amoráveis ventos que passaram pelo lugar onde estáveis; às aves que perto de vós voaram, se vos viram, em que vos ocupáveis, o que dizíeis, onde, como, a quem e a que dia e hora. Assim se abranda a fadiga da vida, que se revigora para vencer a sorte e as agruras só pela esperança de rever-vos, servir-vos e desejar-vos. E o tempo diz-me que não há mal que nunca acabe: mas o desejo inflamado que nunca cessa, esse volta sem contemplações a abrir-me as feridas à dor.
E assim vivo eu; e se te perguntarem, Canção, porque não morro, deves responder-lhes que estou vivo morrendo de amor.
情歌九
在一座干枯坚硬的荒山边,
无用赤裸、光秃秃奇形怪状,
是一片令人厌恶的景象,
天空无飞鸟,地下无走兽,
没有清亮的河水和欢快的小溪,
听不见绿叶甜蜜的声响,
可当地老百姓却给它起名
叫幸福山,用“不幸”的反意。
就在这座山边
大自然向大海
探出一只臂膀——,
荒凉的阿拉伯阿巴西亚,
那里曾建立起贝勒尼基王国,
一旁的太阳藏在山后
将那里煮沸。
这里显露出一座海角,
由南而来的非洲海岸以此为限,
当初曾被称为香料角——
如今的瓜达富伊角,
形成海岸的顶端,改变走向。
这名字是用当地
混乱的语言拼凑而成。
这里,大海急于涌入
一段狭窄的海峡。
我曾经被带到这里
经历过凶恶的冒险。
在世界的这个
遥远荒蛮之地历尽艰难,
短暂的生命也留在这里一段时间。
因为生命在世界上破裂成了碎片。
我曾在这里消磨痛苦的日子,
悲伤,难过,孤独,强迫,
做尽苦役,尝遍愁苦和愤怒。
不仅是与生命为敌——
炎热的阳光,冰冷的海水,
漫天的风沙,滚烫而可怕,
而且我的思想,
我用它欺骗大自然的方法,
也与我作对,
给我带来漫长的回忆。
那些已成为过去的
我在世间见过和经历的短暂荣光,
为了让我的遭遇加倍苦涩,
向我展示这世界上
还有许多快乐的时光。
在这儿,我用这些思想
消耗光阴与生命,
它展翅高飞,
(噢,请看这变化是否轻松!)
从梦和空幻的快乐中跌落,
终于看到有一天陷入绝望。
美好的想象变成
意想不到的哭泣和叹息,
将空气打破。
灵魂在这里是个囚徒,
鲜活的肉体伤痕累累,
被痛苦和悔恨重重包围,
无能为力,赤裸无助,
被傲慢的命运之神拖拽着——
她傲慢,无情,纠缠不休。
我没有地方睡觉,
也没有任何希望,
甚至没有地方
稍稍把头靠着休息一会儿。
这一切都是受苦的原因,
可似乎又并不是,
因为是桀骜不驯的命运要如此发生。
噢,狂怒的大海在温驯地呻吟,
狂风恼人的呼啸,
似乎被勒住了缰绳。
只有严厉的上天、命运之星和法多
才总是这样穷凶极恶,
用我永久的伤害来取乐!
显示出对人的肉体,
这地上如此微卑的小虫如此的强大与震怒。
从这样多的艰难困苦中
若是还能偷得些许功夫,
想起我曾见过的那双明亮的眼睛,
倘若这悲怆的声音能打破空间,
传到那个人天使般的听觉,
我曾生活在这样的景象,
幻化成了你的故事。
当烦乱的头脑里,
回想起当初的那段时光,
我甜蜜的错误、
轻柔的灾祸与愤怒,
为她,我甘愿自寻遭受痛苦。
并寻求她的怜悯,(似乎为时已晚)。
稍稍让你悲哀的是
那里的人们认为你的心太狠:
这只是想让你知道,
我所经历的生活对我是一种休息,
以此来抚平我遭受的苦难。
夫人啊夫人!
你那样富足,此处是如此远离快乐,
哪怕你用甜蜜的假装来维持我一下!
一想到你的容貌,
所有这些悲辛愁苦都一扫而尽。
仅仅想起你
我便感觉安全又坚强,
抵抗凶恶的死神那张残酷的面孔;
希望立刻与欲望同在,
前额变得更平静而舒展,
我把严酷的折磨
化成温柔的思念。
这里,我心怀着深深的思念,
向多情的风打听你的消息,
那阵风从你所停留的地方吹来,
我询问掠过空中的鸟儿,它们是否曾见过你,
你在做什么,是否安好?
在哪儿,怎么样,和谁,哪一天,哪一刻,
于是无聊的生活变得有了情趣,
让我获得了新的精神,
足以战胜命运和劳苦,
这都只是为了能再次看见你。
只为去侍奉你,爱你。
人们常说,时间终结一切,
然而炽烈的欲望,
从不受约束,稍不留神,
便再次揭开新的伤口。
我就是这样生活;如果有人问你,
情歌啊,我为何不死,
你可以回答他,我为什么要死。
COMENTÁRIO À CANÇÃO IX
13 : O interesse da antiga cidade de Berenice para os portugueses deve-se a que, bem antes de Constantinopla, de Veneza ou de Lisboa, este empório greco-egípcio foi a porta de entrada no Ocidente dos produtos asiáticos. Vários autores da época romana podem ter sido a fonte de Camões para esta cidade perdida, abandonada e soterrada desde o século VI devido ao assoreamento do porto. Berenice só foi redescoberta pelos arqueólogos no século XIX.
16 : O Monte Félix, conhecido na Antiguidade como Elephas Mons, hoje Ras Filuk, está situado a 72 km a oeste do Cabo Guardafui, atual Ras Asayr, percurso percorrido por Camões na expedição anual de Goa ao Golfo de Áden em 1554, destinada a bloquear a entrada dos otomanos no Índico, e que foi chefiada por Fernando de Menezes, elogiado por Camões no soneto Illustre e digno ramo dos Menezes:
Desprezando a Fortuna e seus revezes,
Ide para onde o Fado vos moveo;
Erguei flammas no mar alto Erythreo,
E sereis nova luz aos Portuguezes.
[...]
Dai nova causa á côr do Arabo Estreito;
Assi que o Roxo mar, daqui em diante
O seja só com sangue de Turquia.
Não está claro se Camões participou também na expedição de 1555.
O tom belicista e mesmo sanguinário deste soneto encomiástico contrasta pesadamente com vários propósitos irenistas de Camões, nomeadamente os que estão presentes na correspondência mais íntima com o Senhor Dom António de Noronha, em O Poeta Simónides, falando.
21 : Na língua local é o Cabo Guardafui, mas Camões chama-lhe Cabo Guardafû, OL X.97:
O Cabo vê já Arómata chamado,
E agora Guardafû, dos moradores,
Onde começa a boca do afamado
Mar roxo, que do fundo toma as cores
[...]
22-23 : Por passar pelo estreito formado entre a costa africana e o arquipélago de Socotorá, parte integrante do Império Português entre 1507-1511.
27-30 : A mesma queixa sobre a Abissínia estará presente dois anos depois na Canção VI, 14-18, sobre Ternate, de c.1556: Aqui minha ventura / Quis que uma grande parte / Da vida, que eu não tinha, se passasse.
28 : Breve espaço: breve tempo. Cf. Saavedra (2025) A poesia e os astros em Camões, 49.
34: É cabível esta lição, preferível à de Faria e Sousa: Não tendo, não, somente por contrários.
36 : É aos ares insalubres, mas aqui os do próprio corpo, que Camões atribui a morte aos 24 anos do seu companheiro de armas Pero Moniz, originário de Alenquer, no soneto No mundo poucos anos, e cansados, dado no Manuscrito Apenso como o epitáfio A Pero Moniz que morreu no mar de Monte Félix:
[...]
mas ar corruto,
Que neste meu terreno vaso tinha,
Me fez manjar de peixes em ti, bruto
Mar, que bates a Abássia fera e avara,
Tão longe da ditosa patria minha.
55 : A alma celeste encontra-se aprisionada neste mundo material, vd. comentário à Canção III, 50.
75 : OL I.106:
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
106-111 : Motivo herdado das cantigas de amigo medievais.
123 : O poeta diz que não morre de morte física porque morre de amores, e essa paixão prende-o à vida. Canção VI.104: Saibam que já não mata a vida ausente. Cf. em sentido oposto, proclama o verso teresino: que muero porque no muero, Santa Teresa de Ávila, Vivo sin vivir en mí.
对中文翻译的评注:
:
EDIÇÃO DIGITAL BILINGUE DA OBRA DE CAMÕES
贾梅士作品双语数字版
UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU
澳門科技大學
PROJETO FRG-25-029-UIC
A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO
卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版


