CANÇÕES |
情歌
EDIÇÃO, PARÁFRASE, TRADUÇÃO CHINESA E COMENTÁRIO (TRABALHO EM CURSO)
编辑、改写、中文翻译和评论(进行中)
CANÇÃO VII
Manda-me Amor que cante docemente
Canção 7
I
Manda-me Amor que cante docemente
O que ele já em minha alma tem impresso,
Com pressuposto de desabafar-me;
E porque com meu mal seja contente,
05 Diz, que o ser de tão lindos olhos preso,
Cantá-lo bastaria a contentar-me.
Este excelente modo de enganar-me
Tomara eu só de Amor por interesse,
Se não se arrependesse,
10 Com a pena o engenho escurecendo.
Porém a mais me atrevo,
Em virtude do gesto de que escrevo.
E se é mais o que canto que o que entendo,
Invoco o lindo aspeito,
15 Que pode mais que Amor em meu defeito.
II
Sem conhecer a Amor viver soía,
Seu arco e seus enganos desprezando,
Quando vivendo deles me mantinha.
Um Amor enganoso, que fingia,
20 Mil vontades alheias enganando,
Me fazia zombar de quem o tinha.
No Touro entrava Febo, e Progne vinha;
O corno de Aquelau Flora entornava;
Quando o Amor soltava
25 Os fios de ouro, as tranças encrespadas,
Ao doce vento esquivas;
Os olhos rutilando chamas vivas,
E as rosas entre a neve semeadas;
Co’o riso tão galante,
30 Que um peito desfizera de diamante.
III
Um não sei que suave respirando,
Causava um admirável, novo espanto,
Que as cousas insensíveis o sentiam.
Ali as garrulas aves, levantando
35 Vozes não ordinárias, em seu canto,
Como eu no meu desejo, se encendiam.
As fontes cristalinas não corriam,
De inflamadas na vista linda e pura;
Florescia a verdura,
40 Que andando com os divinos pés tocava.
Os ramos se baixavam,
Ou de inveja das ervas que pisavam,
Ou porque tudo ante ela se baixava.
Não houve cousa, enfim,
45 Que não pasmasse dela e eu de mim.
IV
Porque quando vi dar entendimento
Às cousas que o não tinham, o temor
Me fez cuidar que efeito em mim faria.
Conheci-me não ter conhecimento:
50 Porém só nisto o tive, porque Amor
Mo deixou para ver o que podia.
Tanta vingança Amor de mim queria,
Que mudava a humana natureza
Nos montes e a dureza
55 Deles em mim por troco traspassava.
Oh que gentil partido,
Trocar o ser do monte sem sentido,
Por o que em um juízo humano estava!
Olhai que doce engano,
60 Tirar comum proveito de meu dano.
V
Assim que indo perdendo o sentimento
A parte racional me entristecia
Vê-la a um apetite submetida.
Mas dentro na alma o fim do pensamento,
65 Por tão sublime causa, me dizia
Que era razão ser a razão vencida.
Assim que quando a via ser perdida,
A mesma perdição a restaurava:
E em mansa paz estava
70 Cada um com seu contrário em um sujeito.
Oh grão concerto este!
Quem será que não julgue por celeste
A causa donde vem tamanho efeito,
Que faz num coração
75 Que venha o apetite a ser razão?
VI
Aqui senti de Amor a maior fineza,
Como foi ver sentir o insensível,
E o ver a mim de mim próprio perder-me;
E, enfim, senti negar-se a Natureza:
80 Por onde cri que tudo era possível
Aos lindos olhos seus, senão querer-me.
Depois que já senti desfalecer-me,
Em lugar do sentido que perdia,
Não sei quem me escrevia
85 Dentro na alma co’as letras da memória
O mais deste processo
Co’o claro gesto juntamente impresso,
Que foi a causa de tão longa história.
Se bem a declarei,
90 Eu não a escrevo, da alma a trasladei.
VII
Canção, se quem te ler
Não crer dos olhos lindos o que dizes,
Por o que em ti se esconde:
Os sentidos humanos (lhe responde)
95 Não podem dos divinos ser juízes,
Senão de um pensamento
Que a falta supra a fé do entendimento.
Canção VII
O Amor ordena-me cantar suavemente a paixão que ele infundiu na minha alma, para que eu consiga aliviar os meus males. E porque se alegra na minha desgraça, diz que estando eu prisioneiro de olhos tão belos, cantar este amor seria já suficiente recompensa para mim. Eu ia aceitar este astucioso logro porque me convinha, porém ele arrependeu-se e toldou-me o estro com o sofrimento. Mas agora eu ousarei, compondo estes versos inspirados na beleza da expressão do rosto da bem-amada. E se canto mais do que aquilo que compreendo, a beleza e o desejo serão mais poderosa força do que o Amor.
Antigamente eu vivia despreocupado, afastado dos logros e do arco de Cupido, dos quais, contudo, eu me aproveitava, e deles vivia. Simulava amar, ludibriando mil corações, e ria-me de quem amasse verdadeiramente. Mas um dia, chegando as andorinhas e florindo os campos, o Amor desatou ao vento as tranças louras cacheadas da minha bem-amada; os olhos dela chispavam, as faces ruboresciam na alvura da pele do rosto, com um riso tão amoroso que teriam quebrado um peito duro como diamante.
Algo de indescritível havia no ar, causando uma emoção nova e surpreendente, que até as pedras podiam sentir. As aves alegres cantavam raras canções, abrasadas pelo desejo, tal como eu. As águas da fonte estancavam-se, quedando-se na contemplação da visão magnífica; as ervas que ela pisava reverdeciam, os ramos inclinavam-se, ciumentos das ervas que os pés dela calcavam, ou então porque tudo perante ela se inclinava. Nada houve que não se assombrasse com a presença dela, e eu comigo.
Porque quando eu a vi suscitar estas emoções nas coisas naturais desprovidas de sentimentos, fiquei assustado com o poder que a bem-amada sobre mim teria. Percebi que eu nada percebia, mas só isto percebi, que foi apenas o que Cupido me concedeu para que eu sentisse o poder dele. Assim Amor se quis vingar de mim, fazendo humanos os montes, e em troca tornando-me rijo como um penedo. Um belo equívoco, trocar o meu juízo pela desrazão de um monte. Atentai neste logro, de a natureza ainda ganhar com a minha desgraça.
Começando a perder a controle e a lucidez, a minha parte racional ainda reagia com desgosto, ao ver a razão subjugada pelo desejo. Mas o pensamento confirmava intimamente que era razoável que a razão saísse derrotada desta contenda. E ao perder a razão, a própria perda no fim a restabelecia, e assim me reconciliava interiormente nesta contenda. Que admirável concertação dentro de mim entre a razão e o desejo. Quem haverá que não julgue celestial uma paixão que produz tal consequência, fazendo com que dentro do coração o próprio desejo se torne a razão?
Senti do Amor a maior doçura, como se pudesse sentir o que não se sente, e vi-me alienado de mim próprio, indo contra a própria natureza. Entendi que àqueles olhos belos tudo era possível menos amar-me. E sentindo-me perder os sentidos, em vez do senso que não tinha, não sabia já quem me gravava na alma com as letras da recordação a continuação desta história, que me ficou inscrita juntamente com a expressão do rosto da bem-amada, e que originou esta longa narrativa. Não fui eu que a escrevi, apenas a extraí diretamente da minha alma.
Canção, se quem te ler não acreditar no que dizes de uns olhos tão belos, porque tu não lhe conseguiste transmitir essa beleza, diz-lhe que os sentidos humanos não podem avaliar a beleza divina, e que esta somente pode ser contemplada por um espírito que supere com a fé as limitações da razão.
情歌七
爱神命令我甜蜜地歌唱
他铭刻在我灵魂中的爱情。
他的用意不过是让我倾吐心声,
因为他很享受我的苦难。
他说,被这样美的眼睛俘获,
描写它们便足以让我获得快乐。
我原本是出于好奇,
接受了爱神这巧妙的欺骗方式,
他用悲伤让我的才华暗淡。
然而我因所描绘的绝色容颜
而更加勇敢。
若我的歌唱超越了我的理解,
那是因为美丽的容貌赐予了我灵感,
她的力量,比爱神更能弥补我的不足。
从前,我生活与爱神无关,
我蔑视他的弓箭和欺骗,
却又依赖这些力量度日 。
狡黠的爱神伪装成
一千种他人的意愿来诱惑世人,
而我只是嘲笑那些陷入爱情的人。
福珀斯进入了金牛座 ,普洛克涅 来了,
弗罗拉将花酿斟满阿克罗俄斯的金角,
当爱神解开我心爱的人发辫
那卷曲的金发
在甜蜜的微风飘散,
双眸闪着灵动的火焰
玫瑰在白雪间绽放,
她那多情的微笑,
让钻石之心也为之破碎。
一种不知名的、轻柔的气息拂过,
让人惊异心生赞叹;
连本无知觉的万物,仿佛也被唤醒,
鸟儿叽叽喳喳,
唱起高低错落的歌。
仿佛是点燃我的欲火。
晶莹的泉水为她而停滞
仿佛纯洁美丽的景象中燃烧起爱火。
绿色草地上鲜花绽放,
女神的脚步轻轻走过,
树枝也低垂,
或是因为妒忌她脚下的草地,
或是因为躬身对她致意,
总之,世间万物无不为之惊讶
而我惊叹的是自己。
因为,当我看见把理解力
给了无理解力的事物,
我恐惧会对我产生什么效果。
我知道自己一无所知,
我之所以有理解力,是因为,
爱神为了让我见识他的威力。
爱神要对我做出这样多报复,
甚至改变人的本性:
把她变成坚硬的大山,作为交换用箭把我射穿 。
噢,多奇妙的玩笑!
用人类的判断
换成没有感觉的山体!
请看这是多么甜蜜的欺骗:
从我的伤害中获得普遍的益处。
就这样,感情渐渐失去了
理性的部分,我为看见它
受欲望支配而悲伤;
但是灵魂里有细腻的思想 ,
由于如此崇高的原因,
对我来说这是理性被战胜的理由。
就这样,当我看见失去理性,
这种毁灭又将其恢复。
在安祥的和平中,
每个人在自身里都带着冲突。
噢,真是个伟大的均衡!
谁会不觉得是天道的原因
产生的巨大效果,
让欲望在一颗心中
变成为理性?
此处是我感觉爱神最精妙之处,
就像看见无感觉的东西有了感觉,
看见我自己的迷失。
总之,感觉大自然在自我否定。
由此我相信一切皆有可能——
只是除却你美丽的眼睛爱我。
至于我,不是失去感觉,
而是感觉被消磨得几乎无力,
我已分不清是谁在替我写下
灵魂里那些由回忆写成的诗句。
最要紧的是这个过程中,
那些深深铭刻的表情,
正是这漫长故事的原因,
如果我能说得清楚:
并非是我写下了这些故事,而是灵魂的演奏。
情歌啊,阅读你的人
若不相信你对美丽眼睛的叙述,
因为你隐藏了自己。
你回答他,人类的感觉
不能评判神意 ,
一种思想所缺之处,
由理解的信仰来填补。
COMENTÁRIO À CANÇÃO VII
22 : Sobre as metáforas astrológicas, também cultivadas por Petrarca, vd. Saavedra (2025) A poesia e os astros em Camões, 34-35.
97 : Isto é: Que com a fé supra as falhas do entendimento. Propósito defendido por São Tomás de Aquino, entre outras passagens na Suma contra os Gentios (2013) Livro I, cap.s 5, Quod e a quae ratione investigari non possunt convenienter fide tenenda hominibus proponuntur e 6: Quod assentire his quae sunt fidei non est levitatis quamvis supra rationem sint.
对中文翻译的评注:
22 : 四月末,太阳进入金牛座。 | 燕子。
54 : 这部分可参考《卢济塔尼亚人之歌》第五章第五十节至第五十七节,化成好望角的巨人的爱情故事。
64 : Maria Vitalina Leal de Matos 注释:是爱情第五本质。原文是fim do pensamento,玛丽娅解释说就是 o fino pensamento,细腻的思想,也就是爱情。
95 : 此处按照1843年版翻译,Maria 版本于此不同:人类的感觉大可以是神意的法官。
EDIÇÃO DIGITAL BILINGUE DA OBRA DE CAMÕES
贾梅士作品双语数字版
UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU
澳門科技大學
PROJETO FRG-25-029-UIC
A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO
卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版


