ODE XIII
A quem darão de Pindo as moradoras
[Ao Senhor Dom Manuel de Portugal]
Ode 13
I
A quem darão de Pindo as Moradoras,
tão doutas como belas,
florescentes capelas
do triunfante louro ou mirto verde,
5 da gloriosa palma, que não perde
a presunção sublime,
nem por força de peso algum se oprime?
II
A quem trarão nas faldas delicadas
rosas a roxa Clóris,
10 conchas a branca Dóris;
estas, flores do mar, da terra aquelas,
argênteas, ruivas, brancas, e amarelas,
com danças, e coreas
de fermosas Nereidas, e Napeias?
III
15 A quem farão os Hinos, Odas, Cantos,
em Tebas Anphiom,
em Lesbos Ariom,
senão a Vós, por quem restituída
se vê da Poesia já perdida
20 a honra, e glória igual,
Senhor Dom Manuel de Portugal?
IV
Imitando os espritos já passados,
gentis, altos, Reais,
honra benigna dais
25 a meu tão baixo quão zeloso Engenho.
Por Mecenas a vós celebro, e tenho;
e sacro o Nome vosso
farei, se alguma cousa em verso posso.
V
O rudo canto meu que ressuscita
30 as honras sepultadas,
as palmas já passadas
dos belicosos nossos Lusitanos,
para tesouro dos futuros anos,
convosco se defende
35 da Lei Leteia, à qual tudo se rende.
VI
Na vossa Árvore, ornada de honra, e glória,
achou Tronco excelente
a Hera florescente,
para a minha, até aqui de baixa estima,
40 nela para trepar, se encosta, e arrima;
e nela subireis
tão alto quanto os ramos estendeis.
VII
Sempre foram Engenhos peregrinos
da Fortuna envejados;
45 que, quanto levantados
por um braço nas asas são da Fama,
tanto por outro aquela que os desama,
com o peso, e gravidade,
os oprime, da vil necessidade.
VIII
50 Mas altos corações dignos de Império,
que vencem a Fortuna,
foram sempre Coluna
da Ciência gentil: Otaviano,
Cipião, Alexandre, e Graciano,
55 que vemos imortais:
e vós que nosso Século dourais.
IX
Pois, logo, enquanto a cítara sonora
se estimar por o mundo,
com som douto, e jocundo,
60 e enquanto produzir o Tejo, e o Douro,
peitos de Marte e Febo, crespo, e louro,
tereis glória imortal,
Senhor Dom Manuel de Portugal.
Ode XIII
I
A quem as musas, tão sábias quanto lindas, cingirão com as viçosas coroas de louro, ou de verdejante mirto, ou com as gloriosas folhas de palma, inquebrantáveis qualquer que seja a força que as atinja?
II
A rubra deusa Flora e a alva deusa Dóris a quem levarão rosas ou conchas nas dobras dos vestidos? Sendo estas as flores do mar, e aquelas as da terra, prateadas, rubras, níveas e flavas, acompanhadas pelas danças e bailes das belas filhas de Nereu e das ninfas dos plainos?
III
A quem dirigirão hinos, odes, e cantos, os poetas Anfíon de Tebas e Aríon de Lesbos, que não seja a vós, Senhor Dom Manuel de Portugal, por cujo verbo a poesia recuperou a dignidade e o esplendor de outrora?
IV
Emulando os mecenas do passado, generosos, eminentes, régios, conferis glória benevolente à minha inspiração poética, tão humilde quanto persistente. A vós festejo e fruo como meu protetor, e o vosso nome consagrarei, se alguma coisa valho nas artes da poesia.
V
A minha tosca epopeia que ressuscita as glórias esquecidas, as vitórias já antigas dos nossos aguerridos portugueses, para serem lembradas nos tempos vindouros, acha em vós o protetor contra o oblívio, que tudo extingue.
VI
Foi na vossa estirpe, plena de dignidade e de renome, que a minha humilde poesia, até agora pouco apreciada, achou amparo para elevar-se, fincar-se e segurar-se, como hera em tronco; e tanto mais glorificado sereis quanto mais alto me elevardes.
VII
Os mais raros talentos são sempre hostilizados pela Desdita: se a Glória os levanta puxando-os por um dos braços, logo a Fatalidade os detém puxando pelo outro, para os submeter ao fardo e ao jugo da infame penúria.
VIII
Mas os grandes espíritos, dignos de governar os homens e capazes de mudar a História, ampararam sempre a cultura: Augusto, Cipião Emiliano, Alexandre Magno, e Graciano, que assim se imortalizaram, e agora é a vossa vez de ilustrar o nosso tempo.
IX
Enquanto no mundo for apreciada a poesia apolínea de acordes sábios e festivos, e enquanto no Tejo nascerem guerreiros devotos de Marte, e junto ao Douro poetas para os cantar, devotos de Apolo de cabelos loiros e anelados, tereis honra perene, Senhor Dom Manuel de Portugal.
颂歌十三
居住在品都斯山的
聪慧美丽的女神 ,
你们把荧光的花冠赐给谁,
胜利的月桂,翠绿的香桃木,
光荣的棕榈,难道不会让人
失去崇高的自负,有沉重的压迫感?
粉红的科罗丽丝 ,白皙的多里斯 ,
你们用飘逸的裙裾
为谁带来玫瑰和贝壳,
银色,红色,白色,黄色,
地上的花,海里的花,
你们跳着科雷阿舞,
美丽的涅莱达 和娜珮娅 ?
底比斯的安菲翁 ,
莱斯沃斯的阿里翁 ,
如果不是为你,
在为谁唱起圣歌,颂歌,赞歌,
眼看着诗歌已经式微,
把同样的荣耀归于你,
葡萄牙的唐马努埃尔 ?
模仿着过往的
优雅高贵的王族精神,
我赞美你是梅塞纳斯 ,
对我如此微卑而热诚的才华,
赐予友善的荣耀,
若我能写成诗句,
将使你的名字神圣而永恒。
我粗犷的歌声,
将被埋葬的荣誉唤醒,
那已然是昔日的棕榈,
我们卢济塔尼亚人的战神,
成为未来年代的珍宝。
与你一起抵抗
那降伏一切的忘川法律。
我是缪斯
像繁茂的常春藤,
缠绕你用荣誉和辉煌装饰的
雄浑的世系树干。
直至今日,我的诗被人轻贱,
要靠着你,攀援上顶端,
我的诗歌将是你光艳无际。
世间稀有的才华,
一向受命运的嫉妒,
当一只手臂攀上珐玛的翅膀,
另一只手臂遭受厄运的阻拦,
它妒忌英才,
用沉重卑贱的、
贫困生活压迫他 。
你战胜命运,
不愧是帝国的豪壮情怀,
永远是高雅文学的柱石:
屋大维,西庇阿,
亚历山大,格拉提安
我们看见他们化成不朽的神祇,
还有你,为我们的时代镀上金色。
当悦耳的古琴在全世界颂扬;
用嘹亮优美的琴声
歌唱特茹河与杜罗河 ,
马尔斯与福珀斯
卷曲的金发在河上涌现。
葡萄牙的唐马努埃尔,
你将享有不朽的荣光。
COMENTÁRIO À ODE XIII
4-5 : As capelas, ou coroas de louro, representam a poesia apolínea, o verdejante mirto, dedicado a Afrodite, está pela poesia de Safo, e as gloriosas folhas de palma aludem aos elogios dos atletas vencedores nas odes pindáricas. É uma indicação de que Dom Manuel era odista versátil e compunha odes sacras, amatórias e panegíricas.
14 : As belas filhas de Nereu refere-se às éclogas piscatórias, e as ninfas dos plainos às éclogas pastoris, aludindo a que Dom Manuel era um bucolista que compunha ambos os tipos.
16-17 : Anfíon de Tebas foi um poeta apolíneo, e Aríon de Lesbos cultivou a sensibilidade dionisíaca. Juntos resumem as duas escolas filosófico-poéticas.
36 : Árvore = a família dos Portugal, protetores de Camões.
53-54 : Augusto concedeu proteção a Virgílio de Mântua, tal como Cipião Emiliano a Terêncio de Cartago, Alexandre Magno a Aristóteles de Estagira, e Graciano a Ausónio de Bordéus.
61 : peitos de Marte e [de] Febo, crespo, e louro = guerreiros e poetas. Camões ostentava melenas de ouro cacheadas, e gostava de invocar essa semelhança com o deus da poesia solar.
对中文翻译的评注:
2 : 缪斯。
7 : 苧芙,春天和鲜花的女神。多里斯,海中仙女。
14 : 海仙女,涅柔斯和多里斯的五十个女儿。 苧芙,山川河谷的女神。
15 : 宙斯和忒拜公主安提俄珀的儿子,与仄托斯是孪生兄弟。安菲翁是演奏竖琴的圣手,这对兄弟要建造忒拜城时,石头随着琴声自动建成城墙。
16 : 希腊诗人、歌手。据说他海上遇盗,投海,因之前歌唱感动海豚搭救他,一说是阿波罗化成海豚救他。
21 : 玛丽娅·维塔利那·雷亚尔·德·马托斯(Maria Vitalina Leal de Matos) 注“葡萄牙贵族,1519或1520-1606,維米奥索伯爵之子,葡萄牙文学的赞助者。
24 : 盖乌斯·梅塞纳斯,罗马皇帝奥古斯都的谋臣,艺术家的保护人。
49 : 他,指有才华的人。
54 : 这四位君主都是诗歌的保护着。
59 : 发源于西班牙,在葡萄牙波尔图入大西洋。
EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES
卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU
澳門科技大學
PROJETO FRG-25-029-UIC
A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO
卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版

