ODE VII
SE de meu pensamento
Primeira publicação:
Texto adotado:
[ORFEU E EURÍDICE]
Ode 7
I
Se de meu pensamento
tanta razão tivera de alegrar-me
quanto de meu tormento
a tenho de queixar-me,
05 puderas, triste Lira, consolar-me.
II
E minha voz cansada,
que noutro tempo foi alegre, e pura,
não fora assim tornada,
com tanta desventura,
10 tão rouca, tão pesada, nem tão dura.
III
A ser como soía,
pudera levantar vossos louvores;
vós, minha Hierarquia,
ouvireis meus amores,
15 que exemplo são ao mundo já de dores.
IV
Alegres meus cuidados,
contentes dias, horas, e momentos,
o quanto bem lembrados
sois de meus pensamentos,
20 reinando agora em mim duros tormentos!
V
Ai, gostos fugitivos!
ai, glória já acabada, e consumida!
ai, males tão esquivos!
qual me deixais a vida
25 quão cheia de pesar! Quão destruída!
VI
Mas como não é morta
já esta vida? Como tanto dura?
Como não abre a porta
a tanta desventura,
30 que em vão com seu poder o tempo cura?
VII
Mas para padecê-la
se esforça o meu sujeito, e convalesce;
que só para dizê-la,
a força me falece,
35 e de todo me cansa, e me enfraquece.
VIII
Oh! bem-afortunado
tu, que alcançaste com lira toante,
Orfeu, ser escutado
do fero Radamante,
40 e com os teus olhos ver a doce amante!
IX
As infernais figuras
moveste com teu canto docemente:
as três Fúrias escuras,
implacáveis à gente,
45 aplacadas se viram de repente.
X
Ficou como pasmado
todo o Estígio Reino com o teu canto;
e, quase descansado
de seu eterno pranto,
50 cessou de alçar Sísifo o grave canto.
XI
A ordem se mudava
das penas que regendo está Plutão;
em descanso se achava
a roda de Ixião;
55 e em glória quantas penas ali são.
XII
De todo já admirada
a Rainha infernal, e comovida,
te deu a desejada
esposa que, perdida,
60 de tantos dias já tivera a vida.
XIII
Pois minha desventura,
como já não abranda uma alma humana,
que é contra mim mais dura,
e inda mais desumana
65 que o furor de Calírroe profana?
XIV
Ó crua, esquiva, e fera,
duro peito, cruel, e empedernido,
de alguma tigre fera
lá na Hircânia nascido,
70 ou de entre as duras rochas produzido!
XV
Mas que digo, coitado,
e de quem fio em vão minhas querelas?
Só vós (ó do salgado,
Húmido Reino!) belas
75 e claras Ninfas, condoei-vos delas.
XVI
E de ouro guarnecidas,
vossas louras cabeças levantando,
sobre as ondas erguidas,
as tranças gotejando
80 saindo todas vinde a ver qual ando.
XVII
Saí em companhia
e cantando, e colhendo as lindas flores;
vereis minha agonia;
ouvireis meus amores:
85 assentareis meus prantos, meus clamores.
XVIII
Vereis o mais perdido
e mais infeliz corpo que há gerado;
que está já convertido
em choro, e neste estado
90 somente vive nele o seu cuidado.
Ode VII
I
Tivesse eu algum motivo para estar contente como tenho para lastimar as minhas penas, e então tu, lira minha, poderias confortar-me.
II
E a voz desencantada que hoje eu tenho, e que outrora foi já jovial e límpida, não estaria agora mudada, com os desgostos que eu sofri, em tão cava, tão grave, nem tão áspera.
III
Se tudo fosse como outrora, eu vos celebraria, e vós, minhas ninfas, escutaríeis os meus cantos amorosos, que aos ouvidos de todos se tornaram já penosos.
IV
Que alegria aquela, que dias alegres, que horas e instantes de felicidade que entre as boas memórias guardo, agora que tanto sofrimento me oprime!
V
Oh, os fugazes prazeres, momentos de plenitude já passados e vividos, sois hoje cruéis amarguras que fartais a minha vida de dores, e a arruinais!
VI
Como não terminou ainda esta minha infeliz vida, que já há demasiado tempo se arrasta? Por que não leva a morte tantas desgraças, que nem o próprio tempo consegue aliviar?
VII
Tal é a desdita que eu aguento e sofro, que mesmo só para a narrar a coragem me falta, e sinto-me débil e esmorecido.
VIII
Ó tu, venturoso Orfeu, que com as melodias da tua lira conseguiste ser ouvido no Além por Radamanto, o temível [juiz dos mortos], e pudeste voltar a contemplar a tua bem-amada {Eurídice}!
IX
Comoveste os deuses infernais com a doçura do teu canto; as três sinistras Fúrias, tão inclementes no castigo dos condenados, ao ouvir-te de súbito se pacificaram.
X
odo o reino infernal se rendeu ao teu cântico. E até Sísifo, que para sempre lamenta a pena recebida, parou de erguer a brutal fraga.
XI
Foram suspensos os castigos ordenados por Plutão, e até a roda incessante à qual Íxion fora atado estancou o girar perpétuo; e trocaram-se então as condenações por recompensas.
XIII
E ao ouvir o teu canto, [Proserpina] a rainha dos infernos, condoeu-se de ti e devolveu-te a amada esposa, a qual tu há tanto tempo ansiavas por rever.
XIII
omo é que a minha infelicidade não consegue condoer aquela que para mim é mais cruel e mais impiedosa do que a louca altivez da ímpia Calírroe?
XIV
Ó desalmada, fugidia e brava, de coração insensível, desnaturado e pétreo, vindo de alguma tigresa carniceira da Hircânia, ou concebido entre rijos penedos!
XV
Mas por que me queixo eu, infeliz, e a quem acuso eu pelas minhas penas? Apenas vós, lindas e resplandecentes ninfas das águas salgadas, vos comoveis com elas.
XVI
E ornadas de ouro, elevando acima das vagas os rostos e cabelos doirados, as tranças pingando, acudi em bando a ver como estou eu agora.
XVII
inde juntas, entoando e apanhando belas flores, e testemunhareis a minha paixão, escutareis os meus madrigais, acalmareis os meus choros e os meus brados.
XVIII
Em mim vereis o mais sofrido e triste corpo que jamais nasceu, agora em pranto transmudado, e que pranteando sofre as tristezas que o oprimem.
七
如果我的思想
有多少理由快乐,
就有多少理由
抱怨受到的折磨,
悲伤的里拉,你可以安慰我。
我疲惫的歌喉,
曾经快乐又单纯,
被这样多不幸而改变,
它不曾是这样
沙哑、冷酷、低沉。
若如往昔,
能够得到你们的赞美,
你们,我的天使们,
曾倾听我的爱情,而今,
对世界已经是痛苦的典范。
我快乐的念头,
愉快的日子,幸福的时刻,
都成了我思想里
多少美好的回忆,
现在是对我残酷的折磨!
唉,瞬息即逝的乐趣!
唉,完结耗尽的光荣!
唉,难以捉摸的灾祸!
给我留下这样的生活!
充满多少悲哀和毁灭!
为什么这生命还不死?
为什么要延续这么久?
对如此多的不幸遭遇
时间为何不打开大门,
却以你的能力徒然医治?
可是为了忍受它,
我强作努力得到恢复,
只是说起它,
我浑身无力,
精神虚弱,厌倦一切。
噢,俄耳甫斯,你多么幸运!
竟然能让残暴的
拉达曼迪斯听到
你的里拉悦耳的琴韵,
亲眼见到甜蜜的恋人!
你用柔美的歌声
感动了地狱的神祗。
让对人类无情的、
幽暗的三位复仇女神,
瞬间就平抚了怨恨。
整座斯提克斯王国
被你的歌声震撼。
几乎息止了永恒的
哀嚎,西西弗斯
停住低沉的悲歌。
普路同下命,
改变了刑罚,
伊克西翁的火轮,
停歇了转动,
多少痛苦化作光荣。
普洛塞庇娜
一脸惊喜,受到感动,
把你的妻子
如愿还给了你,
她已经那么多天失去生命!
然而我不幸的遭遇,
一个人类的灵魂已无法减轻,
对我,为何要比
对善的卡利洛厄的疯狂
更加残酷、没有人性?
噢,残暴,冷淡,凶狠,
像出生在希尔卡尼亚
山林里的猛虎,
或是诞生在坚硬的岩石中的人,
那样残忍,铁石心肠。
可我又有何言?一个可怜的人!
向谁托付这徒然的哀怨?
只有你们,噢,苦涩大海中
美丽晶莹的海仙女们。
请你们为我的不幸悲叹。
扬起你们金色的脸庞,
头戴着金发箍,
金发随着波浪起伏,
发辫淌下水滴,
来同情我的遭遇。
唱着歌陪伴我,
采来美丽的花朵,
守护我的临终时刻,
倾听我的爱情诉说,
感受我的眼泪哀怨的苦涩。
你们将看到这哀怨发自
最绝望、最不幸的身体,
它已经化成一滩泪水,
在这种状态中
身中活着的,只是他的悲伤。
COMENTÁRIO À ODE VII
50 : Sísifo cumpre a pena de perpetuamente alçar uma penha para o cume de um outeiro, de onde ela sempre resvala para ele tornar ao início; brutal fraga: paráfrase de grave = pesado e canto = bloco de pedra, geralmente de mármore, de onde provém a arte da cantaria, ou talhe da rocha bruta.
87 : que [se] há gerado.
对中文翻译的评注:
5 : 古琴,这里是指诗歌。
38 : 冥府的判官之一。
49 : 希腊神话被判罚的人,他要将一块大石推上山顶,但是每当快要到顶时,大石就会滚下山,于是永无休止。
53 : 希腊神话中,被宙斯判入地狱,被捆绑在转动的火轮伤受惩罚的人。
56 : 希腊神话中冥王普路同的妻子。
64 : 马努埃尔·杜斯·桑托斯·阿尔维斯(Manuel dos Santos Alves)《卡蒙斯词典》:卡利洛厄是河川神女,她同阿尔克迈翁婚后育有两子,丈夫被杀后,得到宙斯的爱,她请宙斯让两个孩子长大,并为丈夫复仇。宙斯答应,大仇得报。维基百科中,列有11位名叫卡利洛厄的人物。玛丽娅·维塔利那·雷亚尔·德·马托斯(Maria Vitalina Leal de Matos) 《卡蒙斯全集》2019年版,注:法利亚·依·索萨(Faria e Sousa)注: “Diz que a Rainha D. Catarina, ao negar-lhe a sua amada, era mais dura e mais desumana que o furor de Calírroe”, (据说唐卡塔琳娜女王当拒绝了他的情人,是比卡利洛厄的疯狂还残忍又不人道)并未说明,卡利洛厄(Calírroe)是谁,为什么残忍。
EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES
卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU
澳門科技大學
PROJETO FRG-25-029-UIC
A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO
卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版

