CANÇÕES | 情歌

EDIÇÃO, PARÁFRASE, TRADUÇÃO CHINESA E COMENTÁRIO (TRABALHO EM CURSO)

编辑、改写、中文翻译和评论(进行中)

CANÇÃO XIII

Quem com sólido intento


Luís de Camões

Original

Canção 13

I


Quem com sólido intento,

Os segredos buscar da Natureza,

Quanto de Atenas preza,

Entregue ao mar irado, ao leve vento,

05                         Em forjar meu tormento,

Nova filosofia,

De experiências feita, Amor me ensina.

Das leis do antigo tempo bem declina;

Que Amor e a Natureza em mim varia,

10          Donde Escolas de sábios nunca viu

Em natural sujeito

Quanto Amor em meu peito descobriu.


II


As aves no ar sereno,

O gado de Proteu nas águas pasce;

15                         Vive o homem e nasce

Neste mundo, qual mundo mais pequeno:

Eu tudo desordeno,

Em todos dividido:

A boca no Ar, na Terra o entendimento:

20          Dá-me esse Amor, dá-me esta o pensamento;

O coração no fogo é consumido:

Mas a água, que dos olhos sempre desce,

Tem efeito tão vário,

Que em um humor contrário o fogo cresce.


III


25                         Da vista Amor soía

Abrir ao coração segura entrada:

Lei é já profanada;

Que quando a luz de uns olhos me feria,

Amando o que não via,

30                        Qual de escopeta o lume,

Primeiro o querer vi, que a causa visse.

Quem o desejo com a esperança unisse,

Cego iria após cego e vil costume;

Que eu desta alma, das leis do mundo isenta,

35                        Morta a esperança vejo,

Onde sempre o desejo se sustenta.


IV


Em vão se considera

Que um semelhante a outro busca e ama,

E que foge e desama

40          Todo mortal a morte esquiva e fera.

Sigo uma linda fera,

Que esconde em vista humana

Coração de diamante e peito de aço,

De meu sangue faminta, e satisfaço

45          Com cruel morte a sede desumana:

Assim que sendo em tudo diferente

Corro após minha sorte,

E se me entrego à morte estou contente.


V


Cai em maior defeito

50         Quem cuida ser ciência clara e certa,

Que a causa descoberta

Sempre produz a si conforme o efeito.

Rendeu-me um lindo objeito,

Que, sendo neve pura,

55         Vivo me abrasa, e o fogo interno aviva;

Que esta formosa fera fugitiva,

Com ser neve, do fogo se assegura:

Donde infiro por certo (e cesse a fama

Vã, mentirosa e leve)

60         Que não desfaz a neve ardente chama.


VI


Bem no efeito se sente

Cessar, cessando a causa donde pende;

Que o fogo mais se acende,

Estando à vista donde mais ausente;

65                      Mas na alma vivamente

A trazem debuxada,

De noite Amor, de dia o pensamento:

E quando Apolo deixa o claro assento,

Por entre sombras vejo a Ninfa amada.

70         Pois se sem luz Amor os olhos ceva,

Cego, senão concede

Que em nada Amor impede a escura treva.


VII


Erra quem atrevido

Pregoa ser maior que a parte o todo:

75                       Amor me tem de modo

Que estou numa alma minha convertido.

Desta glória há nascido

O temor de perdê-la:

E, posto que o receio a muitos finge

80         Lá na imaginação Quimera e Esfinge

De mal futuro, que urde imiga estrela,

Vejo em mim, por incógnito segredo,

Quando estou mais contente,

Que só do bem presente nasce o medo.


VIII


85                      Tem-se por manifesto

Parecer-se ao sujeito o acidente;

Mas ainda em mim se sente

O pensamento, a cor, o riso, o gesto;

E, tendo todo o resto

90                      Da vida já perdido

Neste tormento meu tão duro e esquivo,

A gostos morto estou, a penas vivo.

E, sendo morto já, vive o sentido,

Porque sinta que na alma despedida

95                      Pode em meu mal unir-se

O ficar e o partir-se, a morte e a vida.


IX


Destas razões, Canção, infiro e creio,

Que ou se mudou em tudo a forma usada

Da natural firmeza,

100       Ou tenho a natureza em mim mudada.

FELIPE DE SAAVEDRA

(2026)

PARÁFRASE

Canção XIII

Quem investigar seriamente os mistérios da natureza, guiado pela deusa Atena, navegará pelos mares revoltos, entregue aos ventos: mas o Amor ensina-me uma outra sabedoria, feita de experiência. As leis antigas não se aplicam ao meu caso, pois em mim a natureza e o amor estão mudados. Nunca os filósofos viram em alguém o que o Amor despertou no meu coração.




As aves vivem no ar calmo, os animais marinhos encontram sustento nos mares; o homem nasce e vive na terra, a parte mais pequena do mundo. Mas eu perturbo tudo isto, pois estou dividido entre todos os elementos: a minha boca está no ar, a minha mente na terra; o Amor dá-me o ar, e a terra dá-me a razão; o meu coração arde em fogo. Mas as lágrimas, sempre a correr dos meus olhos, têm um efeito tão inesperado que em vez de extinguirem as labaredas, reacendem o fogo no meu coração.




O Amor costumava abrir um caminho garantido para o coração através dos olhos. Mas não foi esse o meu caso. Pois quando o olhar da minha Amada me atingiu, passando eu a amar quem eu já não conseguia ver, invisível como o fogo dentro de uma arma, vi antes o meu desejo do que a origem dele. Quem unisse este desejo à esperança seguiria uma crença cega e fútil. Mas eu, cuja alma tenho livre das leis deste mundo, não tenho mais essa esperança que alimentaria o desejo.




Equivoca-se Aristóteles dizendo que o semelhante procura atrai-se pelo semelhante, ou que o instinto de sobrevivência nos leva a fugir e a evitar a morte cruel e traiçoeira. Eu vou seguindo uma bela fera, que por detrás de um rosto humano tem um coração de pedra e um peito de metal, e que anseia pelo meu sangue. E eu sacrifico a minha vida para saciar esta sede atroz. Como sou diferente em todas as coisas, vou seguindo este meu destino e entregando-me à morte com alegria.




Desengane-se Aristóteles, que disse que as causas produzem efeitos similares a si mesmas. Pois fui cativado por um belo objeto que, sendo branco como a neve, na verdade me queima vivo e acende o meu fogo interior. Como esta bela e esquiva criatura, sendo gelo, vive de incendiar, concluo (e que se desminta a ideia contrária, falsa e enganadora) que as labaredas não derretem a neve.




Diz Aristóteles que quando a causa termina, termina também o efeito dela. E o fogo do desejo em princípio acende-se mais facilmente em presença do que à distância. Contudo, em mim a Amada é evocada na minha alma à noite pelo Amor, e de dia pela recordação. E quando o sol se põe eu vejo a Ninfa bem-amada por entre as sombras, pois o Amor, mesmo não vendo, alimenta os meus olhos, já que o breu em nada inibe o amor.




E engana-se Aristóteles ao proclamar que o todo é sempre maior do que a parte: o amor reduziu-me à minha alma. E deste triunfo nasceu o medo de perder quem amo: embora muitos temam, devido a projeções da sua imaginação, os males que lhes possam sobrevir no futuro, trazidos por um astro inimigo, eu vejo em mim, misteriosamente, que é no presente, e quando estou mais feliz, que mais receio sinto.




Aristóteles defende ainda que o acidente se assemelha ao sujeito. No entanto, ainda que subsistam em mim a mente, a tez, o sorriso e a expressão, mesmo tendo desaparecido a vida que em mim tinha, já não existo para os prazeres, mas apenas para as dores. E mesmo estando morto permanece o sofrimento, para que eu possa sentir que na alma que já partiu, podem unir-se para minha desgraça o ir e o permanecer, a vida e a morte.




Por estas razões, Canção, concluo e acredito que ou as leis do mundo mudaram completamente, ou foi dentro de mim que a natureza se transtornou.

ZHANG WEIMIN

(2026)

简体中文

情歌十三

那些以坚定的信念

寻找大自然秘密的人,

他们珍视雅典的一切,

投身于狂怒的大海,迎着徐徐海风:

可是爱神教会我一种新的哲学,

是用折磨打造的

经验所构成。

背离了古代的法则,

爱神在我身上颠覆了大自然,

其中,古代智者的学说从未见过,

爱神在我心中发现的

一切自然的对象。


鸟儿在天空静静翱翔,

普洛透斯水中放牧海豚,

人类出生并生活在大地,

这是个很狭窄的世界。

我搅乱一切,

分布在四大元素之上。

嘴吧在天空,思想在大地,

爱神给我幻觉,思想给我理性。

心在火中燃烧,

可眼中泪水流长,

眼泪有如此多的奇效,

它不灭火,反而让欲火助长。


爱神惯于通过视觉打开

通向心的可靠途径,

这条规律已经被亵渎。

当一双眼睛的光芒将我刺伤,

我爱着看不见之物,

仿佛猎枪的火焰,

先见所爱,后见原因,

一个把欲望与希望结合起来的人,

是盲人追随着盲目与卑贱的习惯。

我这摆脱世间规则的灵魂,

我看见希望已死,

希望总是由欲望维持。


人们徒然地认为

同类相吸相爱。

一切有死的凡夫

都逃避并憎恶冷漠凶狠的死亡。

我追随一头漂亮的母兽,

她藏在人的眼神,

钻石的心,钢铁的胸,

贪婪地吸吮我的鲜血,

我用残酷的死满足她非人的饥渴。

就这样,与众不同,

我追随着自己的命运,

若我把自己交付死神,那是一种快乐。


以为明显的原因总是

产生与之相符的效果,

是明确科学的人,

他们落入最大的误差:

一个美丽对象俘获了我,

那是纯洁的白雪 ,我却生活在火中

内心的欲火熊熊燃烧

这是头逃逸的美丽母兽 ,

因为是雪,对火很安全,

我断定(停止吧,

虚妄谎言的轻率的声誉)

炽热的火不能将雪融化。

当取决于之的原因停止

便感觉停止了效果;

比起在眼前,远离的时候

欲火燃烧得越烈。

然而,他的形象生动地

描绘在灵魂里,

夜晚由爱神掌控,白天由思念支配,

当阿波罗离开他的明亮的宝座,

我在黑暗里仍看见心爱的苧芙。

即使没有光亮,

爱神的眼睛会继续追寻,

即使眼盲,他仍不放弃,

黑暗也阻挡不了他的力量。


那个大胆断言

整体大于部分大的人是个错误。

爱神用他的办法

将我变成了我的灵魂:

从这种光荣

产生了丢失它的恐惧:

然而,当对许多人来说,在想象里假想出

喀迈拉和斯芬克斯的灾难的未来,

编造出充满敌意的命运之星,

而我却由于未知的秘密,在自身看见,

当我最快乐的时候,

只从当下的幸福中生出恐惧。


显而易见,

偶性本应是主体的表象,

可思想,颜色,音容笑貌,

这些表象在我心中仍然被感知。

是已逝去的生活

所残留的一切。

在这种如此残酷冷漠的折磨中,

对乐趣我已死,对悲伤我还活着。

作为已死之人,感受还活着,

因为感觉在灵魂中已告别,

去与留,死与生

能够在我的苦难中团聚。


情歌啊,从这些理由,我判断并相信:

要么自然固有的坚定形式已完全改变,

要么我的本性已改变。

COMENTÁRIO À CANÇÃO XIII

07 Com um saber só de experiências feito, Camões, OL IV.94.7.

14 : ...e Próteo focas guarda, Camões, Écloga A rústica contenda desusada.

38 : Aristóteles, Ética a Nicómaco.

40 : Aristóteles, Da Alma.

49-52 : Aristóteles, Metafísica VII, 1032a25;

74 : Não é essa a asserção do Estagirita, de que o todo seja maior do que a parte, mas sim que o todo é mais do que a mera soma das partes que o constituem: Aristóteles, Metafísica VIII.

61-72 : A reflexão que conclui a Canção VI: a distância atiça o fogo do amor.

79-81 : Aristóteles, Retórica II.5.1, 1382a20.

86 : Aristóteles, Metafísica V-VII e Categorias II.

97 : Alusão à inferência, tratada por Aristóteles nos Analíticos. Camões estabelece aqui um par de opostos, a inferência e a crença, sendo que esta última não é demonstrável.

98-100 : O poeta usa uma inferência indutiva, pois dado que tantas leis da natureza e da psicologia são contrariadas pela vivência amorosa que ele experimentou, então é porque ou o mundo inteiro está alterado, ou é a natureza e a psicologia que estão transtornadas dentro dele.

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Camões faz várias referências biográficas a Aristóteles na Ode XIII.66-80.

Sobre a inversão das leis da Natureza na vida amorosa do poeta, cf. a Ode VIII.


对中文翻译的评注:

54 : 皮肤白皙的美人。

56 : 冷艳美女。

EDIÇÃO DIGITAL BILINGUE DA OBRA DE CAMÕES

贾梅士作品双语数字版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU

澳門科技大學

PROJETO FRG-25-029-UIC

A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO

卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版


Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau