ODE VI
FErMOSA FERA HUMANA
Primeira publicação:
Texto adotado:
[Safo e Fáon]
Ode 6
I
Fermosa fera humana,
em cujo coração soberbo, e rudo,
a força soberana
do vingativo Amor, que vence tudo,
05 as pontas amoladas
de quantas setas tinha tem quebradas:
II
amada Circe minha
— posto que minha não, contudo amada —
a quem um bem que tinha
10 da doce liberdade desejada,
pouco a pouco entreguei,
e se mais tenho, mais entregarei.
III
pois natureza irosa,
da razão te deu partes tão contrárias,
15 que sendo tão fermosa,
folgues de te queimar em flamas várias,
sem arder em nenhuma
mais que em quanto alumia o mundo a Lua.
IV
Pois triunfando vais
20 com diversos despojos de perdidos,
que tu privando estás
de razão, de juízo e de sentidos;
e quase a todos dando
aquele bem que a todos vais negando;
V
25 pois tanto te contenta
ver o noturno moço em ferro envolto,
debaixo da tormenta
de Júpiter em água, e vento solto,
à porta, que impedido
30 lhe tem seu bem, de mágoa adormecido.
VI
Porque não tens receio
que tantas insolências, e esquivanças
a Deusa que põe freio
a soberbas, e doudas esperanças
35 castigue com rigor,
e contra ti se acenda o fero Amor?
VII
Olha a fermosa Flora:
de despojos de mil suspiros rica,
pelo Capitão chora
40 que lá em Tessália, enfim, vencido fica,
e foi sublime tanto
que altares lhe deu Roma, e nome santo.
VIII
Olha em Lesbos aquela
no seu salteiro insigne conhecida;
45 dos muitos que por ela
se perderam, perdeu a cara vida,
na rocha que se infama
com ser remédio extremo de quem ama.
IX
pelo moço escolhido,
50 onde mais se mostraram as três Graças;
que Vénus escondido
para si teve um tempo entre as alfaças,
pagou coa morte fria
a má vida que a muitos já daria.
X
55 E, vendo-se deixada
daquele por quem tantos já deixara,
se foi, desesperada,
precipitar da infame rocha cara:
que o mal de mal querida
60 sabe que vida lhe é perder a vida.
XI
«Tomai-me, bravos mares;
vós me tomai, pois outrem me deixou»
Disse; e dos altos ares
pendendo, com furor se arremessou.
65 Acode tu, suave,
acode, poderosa, e divina ave!
XII
Toma-a nas asas tuas,
menino pio, ilesa, e sem perigo,
antes que nestas cruas
70 águas caindo apague o fogo antigo.
É digno amor tamanho
de viver, e ser tido por estranho.
XIII
«Não; que é razão que seja
para as Lobas isentas, que Amor vendem,
75 exemplo onde se veja
que também ficam presas as que prendem».
Assim o deu por sentença
Némesis, que Amor quis que tudo vença.
Ode VI
I
Ó bela loba, cujo peito arrogante e bruto o omnipotente e vingador Amor, que a todos subjuga, não consegue penetrar com as aceradas pontas das flechas dele, que todas tu lhas quebras;
II
minha idolatrada feiticeira — ainda que minha não sejas, mas idolatrada sim — a quem aos poucos eu entreguei a cara liberdade apetecida que fruía, e se mais [liberdade] tivesse mais te cederia:
III
pois uma natureza hostil te dotou de juízos tão contraditórios que, sendo tu tão bela, te comprazes em abrasar-te em várias chamas, sem que em nenhuma te consumas mais do que durante uma só noite.
IV
Exibes os troféus das tuas conquistas, [os amantes] desventurados a quem tu roubas o discernimento, o raciocínio e o senso, oferecendo a quase a todos aquilo que a todos finges negar;
V
porque te comprazes em manter-me à tua porta uma noite inteira, coberto com a minha armadura de soldado, sujeito à chuva e ao vento desenfreados do temporal de Júpiter, cerrando-me a tua porta e privando-me de estar contigo, fazendo-me adormecer cá fora de tristeza?
VI
Pois não temes que as tuas rejeições e recusas sejam punidas por Afrodite, que atalha orgulhos e insânias, e que te condenará severamente, ordenando ao desapiedado Cupido que contra ti se encarnice?
VII
Olha a bela Flora, por quem tantos suspiraram de amor, chorando agora por Pompeu, vencido [por César] na Tessália; e tão bela ela foi que [Cecílio Metelo] colocou o seu retrato [no Templo de Castor e Pólux], louvando o seu nome.
VIII
Olha na ilha de Lesbos a famosa poetisa [Safo], notável pelos muitos pretendentes que por ela se apaixonaram, e pagou caro por isso matando-se na rocha maldita que era a única solução para os suicidas por amor,
IX
[despenhando-se] pelo mancebo favorito [Fáon], em quem brilhavam o charme, a sedução e o encanto; e que antes Vénus adormentara para o amor. A gélida morte [de Safo] foi a vingança dos desgostos amorosos que ela a tantos dera.
X
E vendo-se desatendida por aquele que a todos os outros preferiu, foi-se então, desalentada, precipitar do maldito rochedo apetecido, que o desgosto de ser recusada só na morte acha remédio.
XI
«Que as águas me acolham, pois o bem-amado me repudiou!». E das alturas se lançou em fúria. Acode-lhe tu, brando Cupido, acode-lhe, soberano deus alado!
XII
Ampara-a com as tuas asas, ó Menino dócil [à mãe Vénus], antes que ela se precipite nas águas cruéis que extinguirão a chama do amor. Uma tão grande paixão deve subsistir, e deve ser admirada.
XIII
«— Não! Que Safo sirva de aviso às feras descaradas que mercadejam o amor, para que vejam que aquelas que os outros enredam também caem enredadas». Esta foi a sentença da deusa da Vingança, que determinou que Amor de todos triunfe.
情歌一
美丽优雅的夫人,当我看见
你美若天仙,金发和白雪的前额,
标致的嘴唇,真诚的微笑,
白玉的项颈,水晶的酥胸,
我没有别的欲望,
只求你让我看见你的完美,
我向众神和世界宣布,
我是属于你的,
在哭泣的泪水里燃烧。
对爱你的我,
见我那么懂得爱你,我甚至爱上自己,
我对自己那么心慌意乱,
我为你对自己充满嫉妒。
如果由于精神懦弱,
生活在不理解的悲伤,
又甜蜜又痛苦;
我逃离自己,
跑去躲藏进你的眼神,
我感觉幸福,嘲笑我受的折磨,
我该抱怨谁?
如果在我遭受的苦难中,
你给了我生命。
是我自己不配得到
这样无价的美好?
可是我都不能对自己这样想,
这样对你,是我太傲慢。
假使爱神出于某偶然,
在欲望部分出差错,
除了观赏你我尚有所图,
有某些无耻疯狂想法,
软弱只是肉体的,是世间的,
但不是思想的,是神性的,
如果在崇高的想象中,
我在视像中沉迷,或犯下原罪,
请你原谅我所看见的情景。
然而,由于我抗拒
如此大胆而空幻的欲望,
在你纯洁的目光里我变得坚强,
用你的美丽做我的甲胄。
你的黛眉弯弯,
是爱神拉满的弓,
用你美丽的头发做弓弦,
因为你的一切对他都适合,
你眼睛的光芒是利箭,
刺伤抬眼看向它们的人。
那样美丽的眼睛,
超越过爱神的武器,
用来摧毁灵魂。
然而如果痛苦是巨大的,
回报的是崇高的不幸,
用来杀戮的武器是运气,
你还欠他一个死亡。
美丽的夫人,一个人
抱怨的眼泪,叹息,思想,
是对你感到痛苦而受宠若惊。
爱你的人还想要什么更美妙的事,
哭泣着,甜蜜地想象,
来释放他的痛苦?
一个活着不快乐的人
不必减轻他的悲伤,
因为他会感激悲伤;
扬起快乐的脸庞,
来忍受折磨,为了不愧得到它们:
一个抱怨不幸的人才受苦,
因为他不懂得这份荣光。
因此如果我的思想
变得有些低落而愁苦,
是因为不知道这个秘密:
这样我有理由
不但原谅爱神的折磨
而且还要感激他的过失。
因为这种信心,我值得
有那双眼睛的陪伴,饱含宠爱
和甜蜜的笑容。
可是啊!一个天堂
不能赢得另一个天堂。
我的希望如此纠结,
用得不到的幸福来自我满足。
如果我有理由拒绝救赎,
情歌呵,你知道只因为看不见希望,
我才用言辞欺骗欲望。
COMENTÁRIO À ODE VI
Em curso.
EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES
卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU
澳門科技大學
PROJETO FRG-25-029-UIC
A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO
卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版

