ODE X
Naquele tempo brando
Primeira publicação:
Texto adotado:
TRILOGIA DE AQUILES, 1
[Conceção de Aquiles, ou a união de Thétis e Peleu]
Ode 10
I
Naquele tempo brando
em que se vê do mundo a fermosura,
que Thétis descansando
de seu trabalho está, fermosa, e pura,
05 cansava Amor o peito
do mancebo Peleu, de um duro afeito.
II
Com ímpeto forçoso
lhe havia já fugido a bela Ninfa,
quando, no tempo aquoso,
10 Noto irado revolve a clara linfa,
serras no mar erguendo,
que os cumes das da terra vão lambendo.
III
Esperava o Mancebo,
com a profunda dor que na alma sente,
15 um dia em que já Febo
começava a mostrar-se ao Mundo ardente,
soltando as tranças de ouro
em que Clície de amor faz seu tesouro.
IV
Era no mês que Apolo
20 entre os irmãos celestes passa o tempo;
o vento enfreia Eolo,
para que o deleitoso passatempo
seja quieto, e mudo;
que a tudo Amor obriga, e vence tudo.
V
25 O luminoso dia
os amorosos corpos despertava
à cega idolatria,
que o peito mais contenta, e mais agrava;
onde o cego Menino
30 faz que os humanos creiam que é divino:
VI
Quando a fermosa Ninfa,
com todo ajuntamento venerando,
na cristalina linfa
o corpo cristalino está lavando;
35 o qual nas águas vendo,
nele, alegre de o ver se está revendo.
VII
O peito diamantino
em cuja branca teta Amor se cria;
o gesto peregrino,
40 cuja presença torna noite, dia;
a graciosa boca,
que a Amor com seus amores mais provoca.
VIII
Os rubis graciosos;
as pérolas que escondem vivas rosas
45 dos jardins deleitosos
que o Céu plantou em faces tão fermosas;
o transparente colo,
que ciúmes a Dafne faz de Apolo.
IX
O sutil movimento
50 dos olhos, cuja vista a Amor cegou;
a Amor, que com tormento
glorioso, nunca deles se apartou,
pois eles de contino
nas meninas o trazem por menino.
X
55 Os fios derramados
de aquele oiro que o peito mais cobiça,
donde Amor enredados
os corações humanos traz, e atiça;
e donde com desejo
60 mais ardente começa a ser sobejo.
XI
O Mancebo Peleu,
que de Neptuno estava aconselhado,
vendo na Terra o Céu
em tão bela figura trasladado,
65 mudo um pouco ficou,
porque Amor logo a fala lhe tirou.
XII
Enfim querendo ver
quem tanto mal de longe lhe fazia,
a vista foi perder,
70 porque, de puro amor [A]mor não via,
viu-se assim cego, e mudo
por a força de Amor que pode tudo.
XIII
Agora se aparelha
para a batalha; agora remetendo;
75 agora se aconselha,
agora vai, agora está tremendo,
quando já de Cupido
com nova seta o peito viu ferido.
XIV
Remete o moço logo
80 para onde estava a chaga sem sossego:
e co’ o sobejo fogo
quanto mais perto estava, então mais cego
se via, e com um suspiro
na fermosa Donzela emprega o tiro.
XV
85 Vingado assim Peleu,
nasceu deste amoroso ajuntamento
o forte Larisseu,
destruição do Frígio pensamento,
que por não ser ferido
90 foi nas águas Estígias submergido.
Ode X
I
Chegada a primavera, que enfim desvela a perfeição da natureza, a bela e casta Thétis repousava dos cuidados invernais, mas o Amor oprimia o coração do jovem Peleu, que por ela padecia de paixão.
II
Já no inverno a linda moça lhe escapara decidida e brusca, no tempo aguado em que o vento Austro encrespa as águas, formando no mar vagalhões imensos como montanhas, que beijam os cimos das falésias da terra.
III
O jovem, que de amor sofria, soube esperar pela estação em que Apolo [o Sol] já se mostrava mais abrasador, lançando os áureos raios à terra, que Clície tanto amou [pelo que foi transmudada em girassol].
IV
Era no mês [de maio] sob o signo dos Gémeos, em que o deus Éolo abranda os ventos para que as criaturas se entreguem serena e discretamente àqueles prazenteiros jogos [amorosos], pois Amor tudo subjuga e a si sujeita.
V
O esplendente dia despertava a sensualidade dos corpos, convidando-os para o amor, fonte dos maiores deleites e sofrimentos, quando o cego Cupido exige que os humanos lhe prestem culto:
VI
quando a bela ninfa, com as irmãs [nereidas], foi banhar-se na água límpida e translúcida, encantando-se com a beleza do próprio corpo alvíssimo.
VII
O peito cristalino ostentando o úbere onde o amor se nutre; a singular expressão daquele semblante capaz de mudar a noite em dia; a boca tentadora, que tanto estimula o desejo.
VIII
Os rubros lábios, os dentes perolados, ocultos no roseiral dos amenos vergéis que a divindade em rosto tão belo cultivou; o diáfano pescoço que enciumaria Dafne se ela visse Apolo [o Sol] olhá-lo naquele momento,
IX
o girar daqueles olhos cuja contemplação cegou Cupido, esse Cupido que com deleitável sofrimento jamais deles se afastou, passando a morar naquelas pupilas.
X
Os cabelos da cor do oiro que a cupidez desperta, e com que o amor enleia e ateia as paixões humanas; e onde o apetite amoroso mais cresce.
XI
O jovem Peleu, que por aviso de Neptuno fora surpreender na Terra o paraíso feito fêmea, emudeceu então, pois o amor roubou-lhe as palavras da boca.
XII
E, procurando vislumbrar quem tanto o atormentava à distância, perdeu a visão, porque o cego Cupido o cegou também; e assim se quedou sem vista nem fala, pela omnipotente força do Amor.
XIII
Procurando o embate amoroso com Thétis, Peleu avançou, mas hesitou em seguida; investiu, mas já vacilava, quando Cupido de novo lhe atingiu o coração com outra flecha.
XIV
Então o rapaz acometeu com ímpeto genésico aquela ferida que o mortificava, e quanto mais a ela se achegava, menos via; por fim, gemendo atingiu com um disparo a bela virgem.
XV
E assim Peleu ao fim venceu, e desta cópula nascerá Aquiles, o flagelo dos troianos, que para se tornar invulnerável foi mergulhado nas águas do Estige.
情歌一
美丽优雅的夫人,当我看见
你美若天仙,金发和白雪的前额,
标致的嘴唇,真诚的微笑,
白玉的项颈,水晶的酥胸,
我没有别的欲望,
只求你让我看见你的完美,
我向众神和世界宣布,
我是属于你的,
在哭泣的泪水里燃烧。
对爱你的我,
见我那么懂得爱你,我甚至爱上自己,
我对自己那么心慌意乱,
我为你对自己充满嫉妒。
如果由于精神懦弱,
生活在不理解的悲伤,
又甜蜜又痛苦;
我逃离自己,
跑去躲藏进你的眼神,
我感觉幸福,嘲笑我受的折磨,
我该抱怨谁?
如果在我遭受的苦难中,
你给了我生命。
是我自己不配得到
这样无价的美好?
可是我都不能对自己这样想,
这样对你,是我太傲慢。
假使爱神出于某偶然,
在欲望部分出差错,
除了观赏你我尚有所图,
有某些无耻疯狂想法,
软弱只是肉体的,是世间的,
但不是思想的,是神性的,
如果在崇高的想象中,
我在视像中沉迷,或犯下原罪,
请你原谅我所看见的情景。
然而,由于我抗拒
如此大胆而空幻的欲望,
在你纯洁的目光里我变得坚强,
用你的美丽做我的甲胄。
你的黛眉弯弯,
是爱神拉满的弓,
用你美丽的头发做弓弦,
因为你的一切对他都适合,
你眼睛的光芒是利箭,
刺伤抬眼看向它们的人。
那样美丽的眼睛,
超越过爱神的武器,
用来摧毁灵魂。
然而如果痛苦是巨大的,
回报的是崇高的不幸,
用来杀戮的武器是运气,
你还欠他一个死亡。
美丽的夫人,一个人
抱怨的眼泪,叹息,思想,
是对你感到痛苦而受宠若惊。
爱你的人还想要什么更美妙的事,
哭泣着,甜蜜地想象,
来释放他的痛苦?
一个活着不快乐的人
不必减轻他的悲伤,
因为他会感激悲伤;
扬起快乐的脸庞,
来忍受折磨,为了不愧得到它们:
一个抱怨不幸的人才受苦,
因为他不懂得这份荣光。
因此如果我的思想
变得有些低落而愁苦,
是因为不知道这个秘密:
这样我有理由
不但原谅爱神的折磨
而且还要感激他的过失。
因为这种信心,我值得
有那双眼睛的陪伴,饱含宠爱
和甜蜜的笑容。
可是啊!一个天堂
不能赢得另一个天堂。
我的希望如此纠结,
用得不到的幸福来自我满足。
如果我有理由拒绝救赎,
情歌呵,你知道只因为看不见希望,
我才用言辞欺骗欲望。
COMENTÁRIO À ODE X
Em curso.
EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES
卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU
澳門科技大學
PROJETO FRG-25-029-UIC
A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO
卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版

