ODE VIII
JÁ CALMA NOS DEIXOU
Primeira publicação:
Texto adotado:
[Omnia mutantur]
Ode 8
I
Já a calma nos deixou
sem flores as ribeiras deleitosas;
já de todo secou
cândidos lírios, rubicundas rosas:
fogem do grave ardor os passarinhos
para o sombrio amparo de seus ninhos.
II
Meneia os altos freixos
a branda viração, de quando em quando;
e de entre vários seixos
o líquido cristal sai murmurando:
as gotas, que das alvas pedras saltam,
o prado, como pérolas, esmaltam.
III
Da caça já cansada,
busca a casta Titânia a espessura;
onde à sombra inclinada
logre o doce repouso da verdura:
e sobre o seu cabelo ondado, e louro,
deixe cair o bosque o seu tesouro.
IV
O Céu desimpedido
mostrava o Lume eterno das Estrelas;
e de flores vestido
o campo, brancas, roxas, e amarelas,
alegre o bosque tinha, alegre o monte,
o prado, o arvoredo, o rio, a fonte.
V
Porém como o menino
que a Júpiter por a Águia foi levado,
no cerco cristalino
for do Amante de Clície visitado,
o bosque chorará, chorará a fonte,
o rio, o arvoredo, o prado, o monte.
VI
O mar, que agora brando
é das Nereidas cândidas cortado,
logo se irá mostrando
todo em crespas escumas empolado:
o soberbo furor do negro vento
fará por toda a parte movimento.
VII
Lei é da Natureza
mudar-se desta sorte o tempo leve:
suceder à beleza
da Primavera o fruto; a ele a neve;
e tornar outra vez, por certo fio
Outono, Inverno, Primavera, Estio.
VIII
Tudo, enfim, faz mudança,
quanto o claro Sol vê, quanto alumia;
nem se acha segurança
em tudo quanto alegra o belo dia:
mudam-se as condições, muda-se a idade,
a bonança, os estados, e a vontade.
IX
Somente a minha inimiga
a dura condição nunca mudou;
para que o mundo diga
que nela lei tão certa se quebrou:
em não ver-me ela só sempre está firme,
ou por fugir de Amor, ou por fugir-me.
X
Mas já sofrível fora
que em matar-me ela só mostre firmeza,
se não achara agora
também em mim mudada a natureza:
pois sempre o coração tenho turbado,
sempre de escuras nuvens rodeado.
XI
Sempre experimento os fios
que em continuo receio Amor me manda;
sempre os dois caudais rios
que em meus olhos abriu quem nos seus anda
correm, sem chegar nunca o verão brando,
que tamanha aspereza vá mudando.
XII
O Sol sereno, e puro,
que no fermoso rosto resplandece,
envolto em manto escuro
do triste esquecimento, não aparece;
deixando em triste noite a triste vida,
que nunca de luz nova é socorrida.
XIII
Porém, seja o que for:
mude-se por meu dano a natureza;
perca a constância Amor;
a Fortuna inconstante ache firmeza;
tudo mudável seja contra mi,
mas eu firme estarei no que empreendi.
Ode VIII
I
Veio o calor e privou-nos das flores nas margens dos aprazíveis ribeiros; secou completamente os brancos lírios e as rubras rosas; os pássaros fogem agora da canícula, acolhendo-se ao frescor dos ninhos.
II
O vento suave agita de quando em vez os enormes freixos, e das pedrinhas das fontes sai sonora a água brilhante, em pingos que salpicam as pedras brancas, pintando a planície como pérolas.
III
Artemisa se refugia no bosque já cansada das caçadas, reclinando-se na penumbra para descansar deleitosamente entre as plantas, e o bosque cobre de flores o seu cabelo fulvo e ondulado.
IV
O céu limpo exibia a perpétua luz dos astros; e a campina repleta de flores, alvas, rubras e doiradas, encantava a floresta, o cume, o plaino, o mato, o ribeiro e a nascente.
V
Porque em janeiro, quando o sol entrar no signo do Aquário e for chegado o tempo invernoso, já a floresta pranteará, plangerá a nascente, o ribeiro, o mato, o plaino, o cume.
VI
Esse mar, agora calmo e povoado pelas brancas ninfas marinhas, erguer-se-á encrespado em vagalhões de espuma; e em todos os lugares se agitará a enorme fúria do medonho vento.
VII
Essa é a lei da natureza: alterar-se o tempo suave, e à branda primavera os pomos se seguirem; e a estes, a neve; e necessariamente se sucederem o outono, o inverno, a primavera e o verão.
VIII
Tudo o que sob o sol existe, e que é por ele iluminado, por fim se mudará; nem existe firmeza em coisa alguma que o lindo dia embeleza; mudam-se as circunstâncias, muda-se a época, a paz, as fases da vida e os desejos.
IX
Apenas a minha antagonista jamais mudou a agreste disposição para comigo, para que se possa dizer que esta lei universal nela falhou; apenas ela persevera em não querer ver-me, seja para se esquivar ao amor, seja para se esquivar de mim.
X
Mas como se não bastasse que apenas ela fosse imutável em me fazer sofrer, igualmente se mudou em mim a lei natural [da permanente mudança], já que eu estou sempre triste, e perpetuamente cercado por negras sombras.
XI
ontinuamente sofro com temor os laços que Amor me atira; jorram sempre as duas caudalosas fontes que nos meus olhos Cupido fez nascer, ele que nos olhos dela anda, sem que chegue jamais um suave estio que a tanta desventura ponha termo.
XII
O sol, poderoso e claro, que cintila no belo rosto dela, para mim não aparece, que encoberto estou na escura treva de um infeliz desprezo, que condena a minha penosa vida a uma escuridão misérrima, jamais remida por nova luz.
XIII
Porém, venha o que vier, altere-se para meu mal a lei natural: ainda que o amor perca perseverança e que a instável sorte se estabilize, mesmo que tudo se mude contra mim, eu, todavia, permanecerei inabalável nos meus sentimentos por ela.
情歌一
美丽优雅的夫人,当我看见
你美若天仙,金发和白雪的前额,
标致的嘴唇,真诚的微笑,
白玉的项颈,水晶的酥胸,
我没有别的欲望,
只求你让我看见你的完美,
我向众神和世界宣布,
我是属于你的,
在哭泣的泪水里燃烧。
对爱你的我,
见我那么懂得爱你,我甚至爱上自己,
我对自己那么心慌意乱,
我为你对自己充满嫉妒。
如果由于精神懦弱,
生活在不理解的悲伤,
又甜蜜又痛苦;
我逃离自己,
跑去躲藏进你的眼神,
我感觉幸福,嘲笑我受的折磨,
我该抱怨谁?
如果在我遭受的苦难中,
你给了我生命。
是我自己不配得到
这样无价的美好?
可是我都不能对自己这样想,
这样对你,是我太傲慢。
假使爱神出于某偶然,
在欲望部分出差错,
除了观赏你我尚有所图,
有某些无耻疯狂想法,
软弱只是肉体的,是世间的,
但不是思想的,是神性的,
如果在崇高的想象中,
我在视像中沉迷,或犯下原罪,
请你原谅我所看见的情景。
然而,由于我抗拒
如此大胆而空幻的欲望,
在你纯洁的目光里我变得坚强,
用你的美丽做我的甲胄。
你的黛眉弯弯,
是爱神拉满的弓,
用你美丽的头发做弓弦,
因为你的一切对他都适合,
你眼睛的光芒是利箭,
刺伤抬眼看向它们的人。
那样美丽的眼睛,
超越过爱神的武器,
用来摧毁灵魂。
然而如果痛苦是巨大的,
回报的是崇高的不幸,
用来杀戮的武器是运气,
你还欠他一个死亡。
美丽的夫人,一个人
抱怨的眼泪,叹息,思想,
是对你感到痛苦而受宠若惊。
爱你的人还想要什么更美妙的事,
哭泣着,甜蜜地想象,
来释放他的痛苦?
一个活着不快乐的人
不必减轻他的悲伤,
因为他会感激悲伤;
扬起快乐的脸庞,
来忍受折磨,为了不愧得到它们:
一个抱怨不幸的人才受苦,
因为他不懂得这份荣光。
因此如果我的思想
变得有些低落而愁苦,
是因为不知道这个秘密:
这样我有理由
不但原谅爱神的折磨
而且还要感激他的过失。
因为这种信心,我值得
有那双眼睛的陪伴,饱含宠爱
和甜蜜的笑容。
可是啊!一个天堂
不能赢得另一个天堂。
我的希望如此纠结,
用得不到的幸福来自我满足。
如果我有理由拒绝救赎,
情歌呵,你知道只因为看不见希望,
我才用言辞欺骗欲望。
COMENTÁRIO À ODE VIII
Em curso.
EDIÇÃO CRÍTICA DIGITAL DA OBRA LÍRICA DE CAMÕES
卡蒙斯抒情作品数字批判版

UNIVERSIDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MACAU
澳門科技大學
PROJETO FRG-25-029-UIC
A LÍRICA DE CAMÕES, ESTUDO, TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO
卡蒙斯的诗歌——研究、翻译和出版

